Islã Cristianizado

http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=267817

O GLOBO 30-9-2006

por MATEUS SOARES DE AZEVEDO

Ao falar do Islã, Bento XVI escolheu uma má citação. Com isso, envolveu a Igreja Católica numa controvérsia como não se via desde 1988, quando o arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre ordenou bispos à revelia da “nova igreja” que emergiu do Concílio Vaticano 2º. O atual pontífice poderia ter feito uma boa citação. De seu ilustre predecessor, por exemplo, Pio XII (Papa entre 1939-1958), que disse: “Alegro-me por saber que, em todo o mundo, milhões de pessoas cessam suas atividades mundanas cinco vezes ao dia para se voltarem para o Eterno.” Ele se referia aos seguidores do profeta Maomé. Por que Bento XVI não escolheu tal referência? Talvez nunca saibamos suas razões, mas sabemos que desinformação, incompreensão e mal-entendidos alimentam a polêmica inter-religiosa.

Para começar, ela deriva do fato de que cristianismo e Islã têm estruturações internas com disposições desiguais – sem contar o princípio de que não se pode julgar com objetividade uma tradição com critérios de outra. No Islã, a esfera política está intrinsecamente integrada à esfera religiosa, ao passo que, no cristianismo, e no catolicismo em particular, a política não está organicamente incorporada à religião, e tem sido vista, antes, como um acessório incômodo. Como diz o filósofo das religiões Fritjhof Schuon, “o Islã possui essencialmente uma dimensão política que era estranha ao cristianismo primitivo e que este último, mesmo quando se tornou religião de Estado, possuía apenas como um apêndice profano”.

O ponto crucial é que, no Islã, a política tem tradicionalmente grande relevância; ela vem praticamente junto da religião e está nela incluída, por assim dizer. O Islã surgiu no deserto, em meio a tribos nômades e seminômades, entre homens cuja principal atividade era o comércio e o pastoreio, e cujas vidas não estavam inseridas num quadro de pertença a um império constituído. Desse modo, os primeiros muçulmanos foram, simultaneamente, os mensageiros de uma nova religião e os forjadores e organizadores de um novo império. Os sucessores imediatos de Maomé tinham necessariamente de levar uma espada ao lado do Corão, pois não contavam com a proteção da pax romana, como era o caso dos discípulos de Cristo. Eles tiveram de forjar uma nova e original pax islamica.

Comparemos tal realidade com o contexto cristão. Se os primeiros apóstolos, como Pedro e Paulo, puderam dispensar as preocupações de caráter político, social e econômico em suas viagens missionárias, pois isso era atributo de “César”, os companheiros do Profeta não podiam se furtar dessas preocupações temporais.

Vê-se, assim, que religião e política caminham juntas no Islã, diferentemente do cristianismo, cujo fundador ensina que “Meu Reino não é deste mundo”, e também: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Ou seja, a mensagem original de Cristo é puramente espiritual, enquanto Maomé foi simultaneamente líder espiritual e político.

No Islã, a religião fornece à política seus princípios de ação, sua base e a “moldura” no interior da qual é exercida. O problema é que hoje a política quer se sobrepor à religião, quer se colocar no seu lugar. É isso que vemos no ideário fundamentalista militante: a religião a serviço da ideologia, a política como “religião”.

O fundamentalismo militante inverte a vinculação normal entre as duas esferas, de tal forma que o interesse imediato açambarca a religião enquanto prática da sabedoria, da misericórdia e da virtude. Em suma, Islã tradicional e espiritual é sinônimo de política – necessariamente divisiva, pois as opiniões humanas são diversas – a serviço da “verticalidade” e da transcendência. No fundamentalismo, ao contrário, o legado espiritual é forçado a prostrar-se a serviço de interesses imediatos e “horizontais”. O ativismo constitui, assim, um empobrecimento da mensagem essencial da religião, nivelando por baixo cultura, teologia e mística.

O Islã também é apresentado como tendo se difundido unicamente pela força das armas. Esquece-se que a persuasão desempenhou um papel tão ou mais importante. Na África e no Sul da Ásia, por exemplo, ele se estabeleceu pelo convencimento. Ademais, não há civilização que tenha dispensado totalmente a “espada”, sempre que esteja em jogo a difusão de sua mensagem sobre um espaço considerado vital. O próprio cristianismo não se furtou a fazer uso dela.

A crítica ao Islã com base em categorias “cristianizadas” aponta, ademais, para o paradoxo de a Igreja tradicional, do citado Pio XII, ter demonstrado um realismo e universalismo ausentes na nova e “ecumênica” Igreja que emergiu do rompimento revolucionário com a tradição operado pelo Vaticano 2º.

MATEUS SOARES DE AZEVEDO é mestre em ciências da religião pela Universidade de São Paulo.

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