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Data Sombria

Postado em geral em 08/02/2010 por Edson Gil

http://noticias.uol.com.br/blogs-colunas/colunas-do-new-york-times/noam-chomsky/2010/02/07/a-tomada-da-democracia-norte-americana-pelo-setor-corporativo.jhtm

The New York Tomes/UOL, 7-2-10

A tomada da democracia norte-americana pelo setor corporativo

por NOAM CHOMSKY

O dia 21 de janeiro de 2010 será lembrado como uma data sombria na história da democracia norte-americana e seu declínio.

Naquele dia, a Suprema Corte dos EUA determinou que o governo não pode proibir as corporações de fazerem gastos políticos durante as eleições – uma decisão que afeta profundamente a política do governo, tanto interna quanto externa.

A decisão anuncia uma tomada ainda maior do sistema político dos EUA por parte do setor corporativo.
Para os editores do The New York Times, a decisão “atinge o coração da democracia” ao “abrir caminho para que as corporações usem seus vastos tesouros para dominar as eleições e intimidar as autoridades eleitas a cumprirem suas ordens”.

Fachada do prédio da Suprema Corte norte-americana, em Washington (EUA), de onde saiu a decisão sobre o financiamento de campanhas eleitorais por corporações dos mais variados tipos
O tribunal ficou dividida, 5 a 4, com os quatro juízes reacionários (equivocadamente chamados de “conservadores”) recebendo o apoio do juiz Anthony M. Kennedy. O juiz chefe John G. Roberts Jr. selecionou um caso que poderia facilmente ter sido resolvido em esferas mais baixas e manobrou o tribunal, usando-o para empurrar uma decisão de amplo alcance que derruba um século de precedentes que restringiam as contribuições corporativas às campanhas federais.

Agora os gerentes corporativos podem de fato comprar as eleições diretamente, evitando meios indiretos mais complexos. É bem sabido o fato de que as contribuições corporativas, às vezes reempacotadas de formas complexas, podem influenciar em peso as eleições, direcionando assim a política. O tribunal simplesmente deu muito mais poder ao pequeno setor da população que domina a economia.

A “teoria do investimento na política” do economista político Thomas Ferguson faz um prognóstico muito eficaz da política do governo durante longos períodos. A teoria interpreta as eleições como ocasiões nas quais segmentos de poder do setor privado se unem para investir com o objetivo de controlar o Estado.

A decisão de 21 de janeiro apenas reforça os meios para minar a democracia em funcionamento.

O pano de fundo é esclarecedor. Em seu argumento contrário, o juiz John Paul Stevens reconheceu que “há muito sustentamos que as corporações estão cobertas pela Primeira Emenda” – a garantia constitucional para a liberdade de discurso, que incluiria o apoio aos candidatos políticos.

No começo do século 20, teóricos de direito e tribunais implementaram a decisão do tribunal de 1886 de que as corporações – essas “entidades legais coletivistas” – têm os mesmos direitos que as pessoas de carne e osso.

Este ataque contra o liberalismo clássico foi duramente condenado por um tipo de conservadores que está desaparecendo. Christopher G. Tiedeman descreveu o princípio como uma “ameaça à liberdade do indivíduo, e à estabilidade dos Estados norte-americanos enquanto governos populares”.

Morton Horwitz escreve em sua história legal que o conceito de “pessoa” corporativa evoluiu lado a lado com a mudança de poder dos acionistas para os gerentes, e finalmente para a doutrina de que “os poderes do quadro de diretores (…) são idênticos aos poderes da corporação”. Anos depois os direitos corporativos foram expandidos bem além dessas pessoas, principalmente pelos equivocadamente denominados “acordos de comércio livre”. Por esses acordos, por exemplo, se a General Motors estabelece uma fábrica no México, ela pode pedir para se tratada da mesma forma que as empresas mexicanas (“tratamento nacional”) – bem diferente de um mexicano de carne e osso que busca “tratamento nacional” em Nova York, ou mesmo os direitos humanos mínimos.

Há um século, Woodrow Wilson, na época um acadêmico, descreveu uns Estados Unidos em que “grupos comparativamente pequenos de homens”, gerentes corporativos, “exercem o poder e controlam a riqueza e os negócios do país”, tornando-se “rivais do próprio governo”.

Na realidade, esses “pequenos grupos” se tornaram cada vez mais os mestres do governo. O tribunal de Roberts deu a eles um alcance ainda maior.

A decisão de 21 de janeiro veio três dias depois de outra vitória da riqueza e do poder: a eleição do candidato republicano Scott Brown para substituir o finado senador Edward M. Kennedy, o “leão liberal” de Massachusetts. A eleição de Brown foi retratada como uma “virada populista” contra as elites liberais que comandam o governo.

Os dados da votação revelam uma história diferente.

Altos índices de participação nos subúrbios ricos, e baixos em áreas urbanas em grande parte democratas, ajudaram a eleger Brown. “50% dos eleitores republicanos disseram que estavam ‘muito interessados’ na eleição”. Informou a pesquisa do The Wall Street Journal/NBC, “comparado a 38% dos democratas”.

Então os resultados foram de fato uma virada contra as políticas do presidente Obama: para os ricos, ele não estava fazendo o suficiente para deixá-los mais ricos, enquanto que para os setores pobres, ele estava fazendo demais para atingir esse fim.

A irritação popular é bastante compreensível, dado que os bancos estão prosperando, graças à ajuda do governo, enquanto o desemprego aumentou para 10%.
Nas fábricas, uma em cada seis pessoas está sem trabalho – desemprego nos níveis da Grande Depressão. Com a financialização crescente da economia e o esvaziamento da indústria produtiva, as perspectivas são não trazem esperanças de recuperação dos empregos que foram perdidos.

Brown apresentou a si mesmo como o 41º voto contra o sistema de saúde – ou seja, o voto que poderia acabar com a maioria no Senado dos EUA.
É verdade que o programa de saúde de Obama foi um fator importante na eleição de Massachusetts. As manchetes estão corretas ao dizer que o público está se voltando contra o programa.

Os números da pesquisa explicam porquê: o projeto de lei não vai longe o suficiente. A pesquisa do The Wall Street Journal/NBC descobriu que a maioria dos eleitores desaprova a forma como tanto Obama quanto os Republicanos estão lidando com o sistema de saúde.

Esses números se alinham com as recentes pesquisas nacionais. A opção do sistema público foi apoiada por 56% dos entrevistados, e a adesão ao Medicare aos 55 anos por 64%; ambos os programas foram abandonados.

Oitenta e cinco por cento acreditam que o governo deveria ter o direito de negociar os preços dos medicamentos, como acontece em outros países; Obama garantiu à indústria farmacêutica que não perseguirá esta opção.

Grandes maiorias apoiam o corte de custos, o que faz bastante sentido: os custos per capita dos EUA com a saúde são cerca de duas vezes maiores que os dos países industrializados, e os resultados da saúde são de má qualidade.

Mas o corte de custos não pode ser seriamente empreendido enquanto as companhias farmacêuticas são agraciadas, e o sistema de saúde está nas mãos de seguradoras praticamente desreguladas – um sistema caro peculiar aos EUA.

A decisão de 21 de janeiro levanta novas barreiras significativas para superar a séria crise do sistema de saúde, ou para lidar com assuntos críticos como as ameaçadoras crises do meio ambiente e da energia. O hiato entre a opinião pública e a política pública cresce cada vez mais. E o prejuízo para a democracia norte-americana dificilmente pode ser superestimado.

[Noam Chomsky é um dos mais importantes linguistas do século 20. Seus textos oferecem um olhar alternativo sobre as principais questões internacionais.Tradução: Eloise De Vylder]

Batalha Perdida

Postado em geral em 08/02/2010 por Edson Gil

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0802201016.htm

FOLHA, 8-2-10

A assinatura do vazio

por LUIZ FELIPE PONDÉ

A ciência da natureza cala o universo, a ciência da grana devasta as relações humanas

UM SINTOMA típico da modernidade é o sentimento de orfandade: o universo não é um útero, mas um deserto. Depois de Newton e sua mecânica, o universo deixou de ser o espaço da "assinatura de Deus" para se transformar numa espécie de lego vazio de sentido. Pedras e inércia.

A ciência moderna abriu o caminho para o darwinismo, que transmitiu aos seres vivos a mesma "assinatura do vazio" que Newton tinha dado aos seres inanimados. Entre Newton e Darwin, as pedras, os animais e você, todos, estão imersos no mesmo mar de silêncio, de inércia e de movimento cego. Enfim, um nada de significado. Qualquer "voz" vinda desse universo é apenas fruto de seu cérebro doente.

Por exemplo, se seu filho de 15 anos tem um câncer, e você pergunta para o médico "mas por quê?", tudo que ele pode responder é "fator genético, processos celulares, azar atômico". Não é isso que você quer ouvir, mas é tudo que a medicina cientifica pode dizer.

Você quer ouvir coisas como: "Ele escolheu ter câncer aos 15 anos nesta vida para aprender algo necessário para seu desenvolvimento espiritual", ou "ele sofre porque foi escolhido por Deus para isso".

Mas não é só a ciência da natureza cega que nos assusta. Outra ciência nos atormenta: a ciência do dinheiro e de sua vida calculada. O capitalismo implica virtudes econômicas e contábeis que devem resolver não só sua conta bancária, mas também suas relações pessoais, suas decisões existenciais, suas escolhas profissionais, enfim, a totalidade da sua vida.

A ciência da natureza cala o universo, a ciência da grana devasta as relações humanas. Essa ciência do dinheiro acaba por desmantelar qualquer mistério. E pior: joga sobre o lamento romântico a suspeita da pura e simples incompetência como causa escondida do próprio lamento. Quer um exemplo?

Goethe (séculos 18 e 19), romântico alemão, em seu maravilhoso romance "Anos de Formação de Wilhelm Meister", nos conta o processo de formação do jovem Meister: de adolescente passará a homem.
Nosso jovem Meister é um artista que sofre pressões de seu pai burguês para se tornar o futuro administrador dos negócios da família. Nada mais chato para um jovem que, além de sonhar o tempo todo com sua amada Marianne, uma atriz (que na realidade é amante de um burguês), alimenta projetos teatrais e poéticos. O jovem Meister é um exemplo claro da personalidade artística romântica: tem náuseas diante das demandas banais de uma vida do dinheiro.

Ele tem um amigo que, esse sim, se vira bem no mundo onde os jovens devem se preparar para serem futuros homens de negócios.
Numa cena memorável, nossos dois jovens conversam sobre uma decisão tomada pelo jovem Meister. Depois de sofrer muito com um mundo onde não há confiança nem amor verdadeiro, nosso herói decide queimar todos os seus "poemas e projetos" e se tornar definitivamente um homem maduro e seguir os desejos de seu pai.

Mas o importante aqui não é propriamente a decisão, mas a explicação que nosso herói dá para o amigo (bem resolvido) como causa de sua mudança de vida.
O jovem Meister diz que "sentiu" que todo o universo lhe mostrou que era hora de mudar. Uma experiência de "parceira cósmica" lhe mostrara o caminho. Então, num "acesso de verdade", nosso romântico queimou tudo que significa "seu velho eu".

A resposta de seu amigo representará a voz da maturidade moderna humilhando a reação do ainda infantil Meister: "O universo nada tem a ver com nossas decisões". E mais: pensar que o universo seja "responsável" de algum modo pelo que nos acontece ou por nossas decisões, erra acerca da natureza do universo (mudo), mas fala muito acerca da nossa covardia e da incapacidade de assumir a "solidão desse silêncio", na qual apenas nós e outros homens e mulheres como nós mesmos são responsáveis pelo que acontece. A virtude burguesa por excelência é a capacidade de sermos agentes de nosso sucesso e de nosso fracasso sem responsabilizarmos ninguém nem nada por eles. Uma espécie de "virtú maquiaveliana" vista pelos olhos de um banqueiro e vivida pela alma de um caixa de banco.

Não se trata da morte de um "velho eu" e do nascimento de um "novo eu" pelas mãos de um universo "parteiro" que fala conosco de um modo misterioso, mas simplesmente da agonia infantil do jovem Meister que ainda não percebeu que a batalha contra o mundo das pedras, da inércia e do dinheiro é uma batalha perdida.

(Re)Lançamentos

Postado em geral em 07/02/2010 por Edson Gil

História das Crenças e das Ideias Religiosas. Reedição do 1º volume da obra que o historiador romeno Mircea Eliade (1907-86) dedicou à análise das manifestações religiosas desde a pré-história à Antiguidade clássica. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Ed. Zahar (tel. 0/ xx/21/2108-0808). 440 p., R$ 49.

Para Onde Vai o Mundo?, de Edgar Morin. Neste ensaio, o sociólogo e filósofo francês analisa o sentido do passado, do presente e do futuro a partir das crises do século 20 e das perspectivas para o século 21. Tradução de Francisco Morás. Ed. Vozes (tel. 0/ xx/ 24/ 2233-9000). 72 p., R$ 18.

A Ciência Pode Explicar Tudo?

Postado em geral em 02/02/2010 por Edson Gil

El pensamiento filosófico latinoamericano, del Caribe y “latino” (1300-2000)

Postado em Antropologia Filosófica, Lançamentos em 01/02/2010 por Edson Gil

http://colombia.indymedia.org/news/2010/01/111139.php

Centro de Medios Independientes de Colombia, 30.1.2010

Latinoamérica atesora 7 siglos de filosofía, dice Enrique Dussell

por ARTURO GARCÍA HERNÁNDEZ

El investigador y varios expertos documentan en un libro siete siglos de esa disciplina en AL. Por primera vez, la historia de la filosofía será mundial, afirma Enrique Dussel A quienes aseveran que la región carece de pensamiento, que “me refuten”, pide el estudioso “En 20 o 30 años empezará un diálogo multicultural, no sólo con Kant, Hegel y Heidegger”

El filósofo Enrique Dussel y un equipo internacional de especialistas acaban de publicar un libro que se espera que sea un parteaguas en la historia de las ideas en América Latina y que tendrá repercusión en todo el mundo. Se trata de El pensamiento filosófico latinoamericano, del Caribe y “latino”, que documenta siete siglos de filosofía en la región, del año 1300 al 2000.

“Muchos han dicho –habla Dussel en entrevista– que no hay filosofía en América Latina. Ahora con este libro yo les digo: refútenme esto, aquí hay tesis duras y probadas, escriban otro librito así (más de mil 100 páginas) para decirme que no la hay.”

El volumen, publicado por Siglo XXI, está dividido en cuatro partes: Historia, Corrientes, Temas y Filósofos. En la edición del proyecto Dussel contó con la colaboración de Eduardo Mendieta y Carmen Bohórquez; asimismo participaron los comités de Honor y Editor, integrados por especialistas de distintos países.

La primera parte empieza con “el pensamiento amerindio de los pueblos originarios, que es una de las novedades, porque cuando unos dicen que no hay filosofía, lo cual es un problema a debatir, yo les digo que hay grandes pensadores, hombres que aman la sabiduría, cumplen con la etimología en un sentido amplio.

Después “tenemos grandes periodos en la época colonial, como la reacción ante la conquista, que es muy poco estudiada”.

Un ejemplo que entusiasma al autor de Método para una filosofía de la liberación es el jesuita Antonio Rubio, “un gran comentarista de Aristóteles”, autor del libro Lógica mexicana, quien entre los siglos XVI y XVII tuvo gran reconocimiento en Europa: “hizo escolástica moderna de muy alto nivel, fue profesor de la Universidad de México allá por 1590. Cuando Descartes entró al colegio jesuita Le Fleche, estudió su curso de lógica en Rubio, un filósofo mexicano”.

Otro periodo registrado en la primera parte es “la filosofía ante la edad madura”, que comprende los siglos XVIII y XIX.

La segunda parte del volumen está dedicada a las corrientes filosóficas del siglo XX, 16 en total, entre los que Dussel destaca a los antipositivistas, los fenomenológicos, la filosofía cristiana, filosofía de la ciencia, filosofía analítica, filosofía de la revolución y marxista: “parto desde Martí, incluyo a los grandes marxistas, desde Mariátegui hasta Sánchez Vázquez.

Y no faltan el Che Guevara, el subcomandante Marcos y Evo Morales: “Les va a dar el patatús a algunos, pero ellos también son grandes pensadores políticos y han hecho algún aporte”.

Dussel alude así a los filósofos abstractos, quienes “dicen que la filosofía es lógica y no tiene nada que ver con la política; estudian a Hegel, Kant, Marx y los comentan, pero yo pienso que puedo estudiar a Hegel, Kant y Marx como un instrumento para pensar la realidad estética, política, antropológica, la que sea.

“Yo tenía un maestro que decía: la filosofía no estudia a la filosofía, estudia la realidad, estudia la filosofía como instrumento pero no se queda en el método. Si yo tengo un cuchillo para cortar carne tengo que afilarlo, ese es el método, pero algunos se pasan afilando el cuchillo hasta que se lo terminan y nunca cortan carne.”

Y entre las corrientes filosóficas latinoamericanas del siglo XX, se incluye otra novedad: “los filósofos latinos en Estados Unidos”.

La tercera parte de El pensamiento filosófico latinoamericano… se refiere a “los grandes temas” abordados por los pensadores de la región: “la ética, la estética, la ontología, la religión, la economía, la pedagogía, filosofía para niños, filosofía intercultural”, entre otros.

La cuarta parte está integrada por fichas de 200 filósofos latinoamericanos de todas las corrientes, elaboradas por especialistas, sintéticas, con una breve bibliografía de cada autor. “Es una información que no existe en otra parte”.

Fue una tarea complicada escoger sólo 200, cuando en Brasil, por ejemplo, se puede hablar de 300 filósofos; en México y Argentina, de 200 en cada uno: “Grandes filósofos, que tienen obra, no son improvisados”.

Una de las primeras consecuencias de tan ambicioso proyecto de Dussel, será precisamente propiciar el conocimiento mutuo entre filósofos de la región, porque actualmente sucede que “aquí no se conoce nada de Brasil, ni allá de México o Argentina, Uruguay, Chile, Paraguay, Bolivia, Perú, Ecuador, Colombia, Venezuela, Centroamérica y el Caribe”.

Por una visión de conjunto

Hace 40 años surgió en Enrique Dussel la idea de contar esta historia: “No teníamos una visión de conjunto de nuestro pensamiento filosófico, de lo que se ha pensado en el continente; los estudiantes piensan que la filosofía es europea o estadunidense, ahora se van a dar cuenta de que siempre ha habido autores que desconocen y de los que hay que hacerse cargo”.

El entrevistado sostiene: “Estamos en una nueva edad de la historia de la filosofía. Por primera vez esa historia va a ser mundial, y en 20 o 30 años vamos a empezar a conocer a todos los grandes filósofos de todas las culturas, va a empezar un diálogo multicultural en el que no van a estar sólo Kant, Hegel y Heidegger, sino que vamos a empezar a conocer a los grandes filósofos japoneses, chinos, africanos, y vamos a darles igual dignidad a todos”.

En ese sentido, El pensamiento filosófico latinoamericano… “es para decirles a los latinoamericanos: nosotros también tenemos que entrarle a ese diálogo y esta es nuestra biografía.”

Según el profesor del Departamento de Filosofía de la Universidad Autónoma Metropolitana, el impacto a escala mundial será mayor cuando aparezca la edición en inglés –actualmente en preparación– “entonces, los africanos, los asiáticos, los europeos, van a poder leerlo y dirán: así que los latinoamericanos tenían una filosofía; va a ser un cañonazo”.

Esto respaldará a los filósofos latinoamericanos como interlocutores de los estadunidenses y los europeos. Ilustra la afirmación con una anécdota: en octubre pasado fue invitado, junto con Eduardo Hurtado, a un diálogo con filósofos estadunidenses. Dussel les dijo: “Para dialogar entre nosotros, tenemos que conocernos; nosotros los conocemos a ustedes, pero ustedes no nos conocen a nosotros.

“Me dediqué hora y media a hablar de la filosofía en Latinoamérica antes y después de la llegada de los Pilgrims (primeros colonizadores ingleses en llegar a lo que hoy es Estados Unidos).”

Ignoraban eso, subraya el entrevistado, como ignoran que la primera universidad construida en el continente no es la de Harvard, sino la de Santo Domingo.

Al final del diálogo, “un filósofo, profesor universitario, viejo como yo, se acercó y me dijo: hoy he aprendido muchísimo. Yo sabía que le había hecho un hueco. Entonces hay que decirles, sí, de acuerdo, somos pobres, pero en cuestión de cultura vamos a ver”.

A economia da gratuidade como alternativa

Postado em geral em 29/01/2010 por Edson Gil

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=29425

IHU 29-1-10

A gratuidade dos bens públicos é fundamental para se chegar a um mundo mais justo. Mas os desafios que isso traz também devem ser cuidadosamente pensados. Essa foi a tônica principal da mesa “Economia e Gratuidade”, debate integrante do seminário “FSM dez anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível”, que está sendo realizado entre 25 e 29 de janeiro em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A reportagem é de Igor Ojeda e publicada pelo jornal Brasil de Fato, 27-1-2010.

O primeiro a falar foi o economista Ladislaw Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que fez uma introdução didática sobre o tema. Ele iniciou sua exposição usando como exemplo as ruas das cidades de todo o mundo. Segundo Dowbor, andando pelas vias urbanas, ninguém imagina que, na verdade, elas não são gratuitas: estas geram custos necessários, como o de manutenção. Assim, os cidadãos pagam para caminhar nas ruas de suas cidades na medida que pagam impostos. “Em termos econômicos, a rua é um bem produzido, é um bem de consumo coletivo”, disse.

De acordo com ele, de forma geral, os trabalhadores do mundo capitalista têm uma parte de sua capacidade de consumo garantida pelo salário que recebem. Já o desfrute dos bens coletivos é proporcionado pelo pagamento de impostos. Portanto, o desafio, segundo Dowbor, é “pensar como financiar esses bens, porque o custo existe”.

O professor da PUC-SP alertou também para a ilusão que há na sociedade brasileira de que as campanhas eleitorais não são realizadas com financiamento público, ou seja, de que quem arca com tais despesas são os próprios candidatos ou partidos. De acordo com ele, na realidade, as empresas que financiam as candidaturas incluem tais gastos nos custos de produção, que são repassados aos produtos consumidos pela população. “Além disso, em vez de termos nos cargos eletivos políticos que representam os cidadãos, temos bancadas de empreiteiras, bancadas de empresários do agronegócio, bancadas da mídia etc.”.

Para Dowbor, um campo através do qual se pode discutir a questão da gratuidade é a internet, cujo acesso, para ele, deveria ser por meio de preços muito mais baixos do que são hoje. Um dos usos que se poderia fazer desse instrumento é a transmissão de conhecimento nas escolas.

Riscos

O filósofo Patrick Viveret, do Centro Internacional Pierre Mendes, iniciou sua exposição com a crítica da monetarização das análises econômicas e sociológicas (como por exemplo, indicadores como o PIB, que não levam em conta as riquezas não monetárias) e até da moeda que, para ele, é um bem público a serviço da troca, mas cuja apropriação pelo capital a tornou um fim em si mesmo, ou seja, motor de uma economia especulativa.

Ainda segundo Viveret, no período em que vivemos uma crise econômica mundial de grandes proporções, a economia da gratuidade se torna essencial como estratégia de transformação. No entanto, ela traz “custos ocultos”, que podem resultar em graves problemas. Citando Marcel Mauss, ele explica que a gratuidade e a doação podem trazer embutidas relações de dependência e dominação, pois, se a pessoa que recebeu uma doação não quer ser dominado, deve doar algo equivalente: “é a lógica da doação/contra-doação”. Nesse sentido, ele critica os ex-estados socialistas como a URSS que, para ele, se chocaram com dificuldades antropológicas. “O ser humano precisa de espaço de afirmação. Se negamos isso, fabrica-se a dependência”.

De acordo com o filósofo francês, to que está por trás do fracasso tanto do modelo capitalista como do socialista real é a desmedida do “produtivismo” adotados por ambos, que estaria no centro da atual crise ambiental. Para ele, deve-se fazer uma ligação direta entre tal desmedida e o que ele chama de “mal viver”. Portanto, deve-se ligar também a necessidade da existência de bens comuns com a necessidade do bem-estar, “para que as lógicas de posse possam ser ultrapassadas”.

Saúde como negócio

Já a boliviana Nila Heredia, presidente da Alames (Associação Latino-America de Medicina Social), fez uma análise sobre o tema da mesa a partir de uma perspectiva sobre a saúde. Segundo ela, estabeleceu-se um senso comum na civilização ocidental segundo o qual, se uma pessoa adoece, isso é um problema privado. “Isso nos leva a supor que as pessoas têm culpa, por não terem se cuidado”.

Portanto, para ela, ao limitar a questão da saúde às doenças, o sistema capitalista gerou tanto um sentimento de culpa nas pessoas como a ideia de que a saúde pessoal depende de cada um, e não do Estado. “Para nós, a saúde tem como objetivo fazer com que as pessoas não adoeçam, o que contraria as lógicas econômicas interessadas que existam doentes, pois isso é negócio”, disse.

Como exemplo de tal lógica econômica, ela cita o surto de gripe suína. “A OMS fez uma declaração apressada de que o surto era uma pandemia. Por quê? Para que as empresas pudessem desestocar suas vacinas e remédios que sobraram da gripe aviária e que iriam expirar em breve”, criticou.

Na sua fala, Lilian Celiberti, da Articulación de Organizaciones Feministas MARCOSUR, explicou a existência de uma divisão sexual do trabalho, na qual a contraposição público x privado se reflete na contraposição homem x mulher. “Está estabelecido que, enquanto a mulher se ocupa do âmbito privado, ou seja, o cuidado com a casa, os filhos etc, o homem se ocupa do âmbito público”, disse.

Segundo ela, como está naturalizado que é a mulher que deve assumir as tarefas de cuidado, os homens perderam a capacidade de desenvolver uma ética do cuidado.“O caminho para outro mundo supõe modificar essa divisão sexual do trabalho. Não apenas porque o trabalho gratuito realizado pelas mulheres é invisível, mas também porque temos que mudar a visão de que o indivíduo é auto-suficiente, quando na verdade precisamos do outro”, afirmou.

Banco comunitário

Finalizando o debate, João Joaquim de Melo Neto Segundo, fundador do Banco comunitário Palmas, na periferia de Fortaleza, apresentou a experiência ao público presente. Ele contou que diversas comunidades tradicionais e consideradas pobres de todo o Brasil estão excluídas do sistema bancário e financeiro por não oferecerem boas expectativas de lucro. Daí a necessidade de se criar bancos comunitários sob princípios distintos. “Entendemos que economia e solidariedade tem tudo a ver”, disse.

De acordo com ele, no Conjunto Palmeira, comunidade da periferia de Fortaleza onde vive, já funciona um sistema financeiro paralelo (inclusive com moeda própria) baseado na solidariedade. “Banco comunitário é um serviço financeiro, solidário, em rede, de natureza associativa e comunitária, voltado para a reorganização das economias locais na perspectiva da geração de trabalho e renda”, resumiu. Nesse sentido, o objetivo é equilibrar a produção em um determinado território sem estimular a concorrência.

J.D. Salinger (1/1/1919-27/1/2010)

Postado em geral em 28/01/2010 por Edson Gil

Um apanhador no campo de centeio

Religião nos limites da Crítica da razão pura

Postado em geral em 27/01/2010 por Edson Gil

KANT, I. Crítica da razão pura. 5. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2001.

Clique na referência bibliográfica acima para abrir arquivo em formato PDF com as passagens da Crítica da razão pura em que Kant fala explicitamente de religião.

Ciência, razão e mito

Postado em geral em 27/01/2010 por Edson Gil

GUSDORF, Georges. Mito e metafisica. São Paulo: Convívio, 1980. Cap.6

O mito da ciência. A ciência é necessária, mas não suficiente. Ela é tributária de uma escatologia. A própria razão não pode fundar absolutamente e garantir a ciência. Necessidade de uma captação de ser ontológica. Perso­nalidade e historicidade da razão. A consciência mítica como escatologia da razão. [Clique na referência bibliográfica acima para abrir o arquivo PDF.]

O pior dos pecados

Postado em geral em 24/01/2010 por Edson Gil

por JORGE LUIZ BORGES

Cometi o pior dos pecados
que um homem possa cometer:
Não fui feliz.
Que os glaciares do esquecimento
me arrastem e percam, desapiedados.
Meus pais me engendraram
para o jogo arriscado e formoso da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Eu os defraudei. Não fui feliz.
Cumprida não foi sua jovem vontade.
Minha mente se aplicou
às simétricas porfias da arte,
que entretece o nada.
Me legaram valor, não fui valente.
Não me abandona, sempre está ao meu lado
a sombra de haver sido um infeliz.

Antes de morrer

Postado em geral em 24/01/2010 por Edson Gil

Antes de morrer, forcejo por fazer um sinal aos companheiros. Estender–lhes a mão e balbuciar uma palavra íntegra. Dizer–lhes o que imagino seja essa marcha, para onde estamos indo. E que é preciso acertarmos, todos juntos, o passo e o coração. (Nikos Kazantzakis)

Deixa de ser bobo!

Postado em geral em 24/01/2010 por Edson Gil

http://www.konzept.com.br/artigos-erk/erk7-etica.htm

A Respeito da Ética

por ED RENÉ KIVITZ

Deixa de ser bobo, todo mundo faz. Essa é a frase mais usada para justificar o comportamento ilícito. Dentro dela estão embutidas práticas como a do médico que solicita um “por fora” argumentando que a remuneração do plano de saúde não é satisfatória; do empresário que molha a mão do pessoal que libera carga na alfândega; do pai de família que trabalha sem carteira assinada e do empregador que contrata o pai de família; do vendedor que dá uma comissão ao comprador para fechar negócio; do comerciante que compra nota fria para tributar menos ou sonegar; do consumidor que compra produto pirateado porque senão não poderia comprar; da sacoleira que trabalha no mercado informal para sustentar quatro filhos; e assim por diante, numa lista de comportamentos interminável assimilados como “naturais” neste mercado selvagem.

O cenário comporta múltiplas abordagens, e qualquer um que acredite estar diante de um problema de fácil solução certamente está fazendo uma análise simplista. Por exemplo, basta lembrar que o comportamento ilícito tem suas variáveis. Pelo menos duas, para ser simples sem ser superficial. A primeira diz respeito aos agentes. A segunda, aos eventos. Quanto aos agentes, os não éticos podem ser divididos entre os que fazem por estilo de vida, como os criminosos que montam uma estrutura de mercado e governo paralelos; e os que fazem por necessidade, como os que se colocam à beira da calçada e estão mais para sobreviventes do que para imorais. Já em relação aos eventos, devemos admitir que há distinção entre a transgressão como recurso emergencial, como a do camarada que aceita ser achacado pela autoridade que criou a dificuldade para vender a facilidade, e a transgressão como meio de vida, como a da autoridade que vive criando dificuldade. De minha parte, embora coloque tudo no pacote do fracasso ético, aceito dialogar com quem acredita que “uma coisa é coisa e outra coisa é outra coisa”.

Ética, moral e lei

Na busca de caminhos para o comportamento ético, podemos entrar pela porta das definições elementares. Devemos, por exemplo, fazer distinção entre ética e moral. O Frei Leonardo Boff ilumina nossa caminhada dizendo que “Ethos, ética, na língua grega designa a morada humana. O ser humano separa uma parte do mundo para, moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda. A ética não se confunde com a moral. A moral é a regulação dos valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, uma certa tradição cultural etc. Há morais específicas, também, em grupos sociais mais restritos: uma instituição, um partido político… Há, portanto, muitas e diversas morais. Isto significa dizer que uma moral é um fenômeno social particular, que não tem compromisso com a universalidade, isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens. Mas, então, todas e quaisquer normas morais são legítimas? Não deveria existir alguma forma de julgamento da validade das morais? Existe, e essa forma é o que chamamos de ética”.

Moral identifica um modo de agir humano, regido por normas e valores, por hábitos e costumes. A moral se relaciona com o comportamento prático do homem. Ética é uma reflexão teórica que analisa, critica ou legitima os fundamentos e princípios que regem um determinado sistema moral.

. Ética é princípio; moral são aspectos de condutas específicas;

. Ética é permanente; moral é temporal;

. Ética é universal; moral é cultural;

. Ética é teoria; moral é prática.

As leis estão no campo da moral, e devem ser avaliadas a partir de seus pressupostos éticos. Para que você entenda melhor, a afirmação de que todos os seres humanos são iguais perante Deus é uma afirmação ética, um princípio universal, e a lei que considera crime a segregação racial é uma aplicação moral, bem como a lei que condena a escravidão.

A ética deve ser, portanto, aplicada moralmente através dos códigos legais. As leis são instrumentos de regulamentação social. De acordo com Clive Staples Lewis, teólogo inglês, Sas leis são necessárias, pelo menos por três razões. Em primeiro lugar, para promover uma arrumação e harmonização no interior de cada ser humano em particular. Depois, para promover a justiça e a harmonia entre os seres humanos. Finalmente, com o objetivo geral da vida humana como um todo, com o fim para o qual o homem foi criado, que se consolida na possibilidade de um mundo justo e fraterno habitado por seres humanos plenamente realizados, o que muitos de nós chamaríamos céu ou paraíso.

Em termos práticos, Lewis está dizendo que “a lei protege a pessoa”, e por isso o Ministério da Saúde obriga advertências nos produtos tóxicos como fumo e álcool. Além disso, “a lei promove a justiça”, o que justifica a tributação como instrumento de distribuição de renda. Por fim, a lei viabiliza a utopia, que se expressa, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Cristianismo: ética, moral e consciência

É certo que o Cristianismo possui suas premissas éticas (grade de valores) que determinam sua moral (leis, mandamentos e costumes). Mas também é certo que a proposta do Cristianismo não é um chamado para que se viva em obediência a leis e mandamentos morais. O Cristianismo convida a uma nova consciência, isto é, desafia cada ser humano a interpretar a lei (moral) à luz da ética.

É fácil de explicar as razões deste desafio à consciência. Tenho basicamente quatro justificativas. Em primeiro lugar, todos sabemos que nem tudo o que é legal é ético, isto é, nem sempre a observância da lei é o melhor caminho para a realização do ideal ético e promoção da justiça. O aborto, a eutanásia e a pena de morte podem se tornar legais, mas ainda assim continuarão a suscitar discussões éticas.

A segunda justificativa da valorização da consciência acima da lei, é que a lei não é suficientemente abrangente. Uma vez que o ser humano é um universo infinito, também as relações entre seres humanos será um universo infinito. A lei nunca será abrangente o suficiente para promover a justiça em todos os espectros possíveis da complexidade das relações humanas. Cada sociedade vai desenvolver seus códigos morais em razão da necessidade da sobrevivência e da convivência. O Dr. Drauzio Varella discute bem essa questão em seu livro Carandiru, que retrata o dia-a-dia daquele que foi o maior complexo penitenciário da América Latina.

Um terceiro argumento está baseado no fato de que a lei se flexibiliza diante da ética. A lei, que em tese é rígida em sua norma, se submete à ética, que é dinâmica em sua hierarquia de valores. Por esta razão é que o sujeito que rouba para dar de comer aos filhos pode ser absolvido pelo tribunal: a vida é um valor maior que o direito à propriedade. Acredito que foi isso o que Jesus tentou ensinar ao afirmar que “o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”, isto é, a lei deve estar a favor da vida.

Finalmente, a lei é reguladora dos fatos sociais, e nesse caso, não havendo o fato que a justifica, a lei perde seu sentido. Quem ficaria parado de madrugada numa rua deserta só porque o sinal está fechado? O policial que lavrasse uma multa por avanço de sinal às duas da madrugada numa rua deserta estaria cumprindo a lei? Novamente voltamos ao paradoxo entre o sábado e o homem.

Fica claro, portanto, que somente o tolo obedece sempre, e somente o sábio é capaz de desobedecer a lei sem transgredir a ética. Poucos são os capazes de andar na ilegalidade sem cair na imoralidade. E isso faz do Direito uma ciência extraordinária e bela, pois visa a justiça, acima da lei. Está explicado porque o Cristianismo, em vez de apresentar um novo código moral, faz um convite desafiador à nova consciência.

Princípios éticos à luz do Cristianismo

Em relação à questão da vida profissional e das relações no mercado, posso dar exemplos de princípios éticos derivados dos valores cristãos. falando de resultados, o Cristianismo, por exemplo, é diferente do Pragmatismo. O Pragmatismo diz que o que dá certo é certo, enquanto o Cristianismo diz que o que é certo vale mais do que o que dá certo. Isto é, nem tudo que dá certo é certo. Algumas coisas, inclusive, nós fazemos sabendo que resultarão em prejuízo para nós – darão “errado” – mas preservarão nossa dignidade e honra, isto é, a nossos valores éticos. O caráter sempre vale mais do que os resultados.

Falando de gente, as pessoas sempre valem mais do que os papéis que desempenham: o faxineiro é tão digno quanto o presidente da corporação. Os relacionamentos sempre valem mais do que os negócios. A fraternidade está acima do lucro. A solidariedade está acima das posses.

Falando de dinheiro, a justiça vale mais do que a prosperidade, e o bem comum vale mais do que a riqueza pessoal. O bem estar individual não pode existir às custas da indiferença social. Lembre da figura do vampiro que suga o sangue de todo mundo até sobrar apenas o sangue dele: o genocídio é uma espécie de suicídio. Riqueza sustentável é riqueza compartilhada. Dinheiro vivo é dinheiro circulando, repartido, distribuído.

Caminhos pessoais

Alguém já disse que a melhor maneira de mudar o mundo é fazer um circulo ao redor de si mesmo e começar as mudanças a partir do lado de dentro do círculo. Os alemães dizem que devemos pensar globalmente e agir localmente, o que deve ter dado origem ao seu provérbio que diz que “em pequenas vilas, pequenas pessoas estão fazendo pequenas coisas que estão mudando o mundo”. Nesse caso, mesmo sabendo que esta questão não será equacionada sem a mobilização social e as transformações estruturais promovidas pela ação política, sugiro alguns compromissos pessoais-individuais.

#1 Jamais negocie os valores arraigados em sua consciência. Caráter não tem preço. É melhor dormir mal porque falta cama, do que dormir mal porque a consciência pesa. As pessoas que me procuram à guisa de dilemas éticos geralmente estão em defesa de seu padrão de vida, em vez de em luta pela sobrevivência. O problema de muita gente não é a impossibilidade de fazer o que é certo, mas a dificuldade ou recusa em assumir o ônus do que é certo. Muito raramente me deparo com pessoas que não sabem o que fazer. Geralmente encontro pessoas que não têm coragem de fazer o que sabem que devem fazer.

. É melhor ter pouco com o temor de Deus do que grande riqueza com inquietação. (Provérbios 15.16)

. É melhor ter pouco com retidão do que muito com injustiça.(Provérbios 16 .8)

. Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranqüilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas.(Provérbios 17.1)

. Melhor é ser pobre do que mentiroso. (Provérbios 19.22)

. Melhor é o pobre íntegro em sua conduta do que o rico perverso em seus caminhos. (Provérbios 28.6)

#2 Faça distinção entre a prática eventual do ilícito e o estilo de vida ilícito. A Bíblia também recomenda: “Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo? Não seja demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes do tempo? É bom reter uma coisa e não abrir mão da outra, pois quem teme a Deus evitará ambos os extremos” (Eclesiastes 7.16-18). Não encaro isso como “licença para ser imoral de vez em quando”, mas como recomendação da sabedoria para julgar e discernir a partir de uma hierarquia de valores.

#3 Pratique a “ética temporal ascendente”. Este é um conceito muito interessante desenvolvido por Lourenço Stelio Rega, em seu livroDando um jeito no jeitinho (Editora Mundo Cristão). Este princípio foi utilizado, por exemplo, pelo apóstolo Paulo, que não se posicionou claramente contra a poligamia, mas exigiu dos líderes cristãos que “fossem maridos de uma só mulher”. Naquele contexto social, a transição brusca da poligamia para a monogamia implicaria a condenação de muitas mulheres, que não possuíam quaisquer direitos legais, à miséria e à prostituição. Por isso, mesmo sendo a monogamia o ideal moral cristão, o apóstolo soube conviver com a poligamia o tempo necessário para promover a transição, de modo a evitar maiores complicações sociais.

#4 Participe dos processos de transformações sociais. A mobilização da população é o instrumento de transformação social em um estado de direito. O regime democrático implica mais do que o voto, na verdade, exige que o voto seja precedido pelo esclarecimento e sucedido pelo acompanhamento dos eleitos. A militância, geralmente associada à política partidária, deve ser encarada em seu espectro mais amplo, que inclui a sociedade civil em todas as suas dimensões de representatividade. Cumpra seu papel como cidadão. Comprometa-se com uma causa. Assuma uma postura. Associe-se com pessoas e organizações que trabalham para o bem comum. Incentive a solidariedade. Seja um doador. Faça trabalho voluntário. Divulgue boas notícias. Denuncie. Assine listas. Candidate-se. Proteste. Faça campanha. Não se omita. Faça alguma coisa. E se for o caso, chame sua turma e levante uma bandeira.

Conclusão

Geralmente se ouve que as pessoas se perguntam se vale à pena ser honesto. A profecia de Rui Barbosa se cumpriu: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Mas receio que a questão seja um pouco pior: as pessoas já não se perguntam se a honestidade vale a pena, mas sim se a honestidade é possível.

Mas não perdi a fé. Não perdi a esperança. Não deixei de acreditar na dignidade do ser humano. Aprendi que o mundo está dividido em três grupos de pessoas. Os otimistas ingênuos. Os pessimistas frustrados. E os realistas engajados. Espero somar entre os que estão de mangas arregaçadas.

Troque o how to pelo to be!

Postado em geral em 24/01/2010 por Edson Gil

http://www.ibab.com.br/artigo-016.html

por ED RENÉ KIVITZ

Em apenas 17 segundos, encontrei aproximadamente 62.700.000 referências para a expressão "how to" (como fazer) num site de busca na Internet. Você encontra explicações variadas e detalhadas para fazer quase qualquer coisa num processo "soluções passo a passo" no jogo "faça você mesmo". A lista de sugestões é interminável: como dar um nó de gravata, como fazer de seu cachorro uma estrela de comerciais de tv, como perder peso, como conseguir um empréstimo, como administrar conflitos familiares durante as festas de final de ano, como se vestir para uma entrevista profissional, e milhares de outras não menos "interessantes".

Em minha rápida pesquisa, encontrei também algumas variações do tema, como por exemplo "how stuff works" (como as coisas funcionam). Faz sentido. Há uma lógica por trás desta cultura. Partindo do princípio que todas as coisas podem ser resumidas a relações de causa e efeito passíveis de serem decodificadas em regras e manuais, então qualquer coisa pode ser construída, fabricada, executada e controlada, desde que se entenda como a tal coisa funciona. Não importa se esta tal coisa é sua esposa com a auto-imagem abalada por estar acima do peso, seu filho que vai mal na escola porque você e sua esposa vivem como cão e gato, ou o departamento financeiro da sua empresa às voltas com a taxa de juros e a carga tributária.

Há ainda uma terceira expressão própria desta cultura mecanicista: "just do it", ou simplesmente faça. A idéia por trás é "faça, e faça você mesmo, não fique parado, não espere pelos outros, seja pró-ativo; nós estamos aqui para dizer a você como as coisas funcionam, e guiar você passo a passo para que você seja capaz de fazer quase qualquer coisa".

Eis o triângulo do pragmatismo contemporâneo: "how stuff works", "how to do", e "just do it" – como as coisas funcionam, como fazer as coisas, e faça, simplesmente faça. Esta é a síntese da cultura mecanicista, prima irmã do individualismo (eu me basto, posso fazer tudo sozinho, desde que tenha um manual nas mãos) e do superficialismo (nada é tão complexo que não possa ser decodificado, reduzido a um método, e resumido num manual). Por esta razão já encontramos manuais para a relação pais e filhos, como se o ditado popular que afirma que "mãe é tudo igual, só muda de endereço" fosse mesmo verdadeiro.

Uma organização que se ocupa apenas com "how to" (como fazer as coisas) está longe de encontrar o caminho do sucesso, pois a trilha mais excelente é a do "to be" (ser). E para o "to be" não existe "how to".

Fé e crença

Postado em geral em 22/01/2010 por Edson Gil

por JACQUES ELLUL

Toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião.

De um único verbo, crer, originam-se dois substantivos que representam ações radicalmente opostas: crença e fé. Porém quando quero usar uma forma verbal para expressar a minha fé tenho ainda de usar crer, a não ser que escolha uma fórmula ainda pior, ter fé.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas crêem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé é, em primeira instância, ouvir, como Barth tão freqüentemente nos faz lembrar. A crença fala e fala, atola-se em palavras, interpola os deuses, toma a iniciativa. A fé requer um posicionamento inteiramente oposto: a fé espera, permanece atenta, colhe sinais, sabe o que fazer das parábolas mais delicadas; ela ouve pacientemente o silêncio até que o silêncio seja preenchido pelo que ela toma sendo a inquestionável palavra de Deus, palavra da qual se apropria.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

Deus particulariza, singulariza a pessoa a quem ele diz “eu te chamo pelo teu nome” (Isaías 45.4). A fé separa cada pessoa das demais e faz única cada uma delas. Na Bíblia a palavra santo significa separado, à parte. Ser santo é ser separado de todos os outros, é ser único em razão da tarefa que não pode ser desempenhada por nenhuma outra pessoa, tarefa que se recebe pela fé.

Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, e têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir. Isso leva a um elevado grau de eficiência; o crente é uma pessoa que faz o que precisa ser feito, mas toda a sua atividade é, no fundo, vazia. Os crentes tem uma realidade própria tão pequena que só são capazes de viver e expressar essa realidade dentro de uma unidade convencionalmente estabelecida. São gente de ajuntamentos. Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, dependem da certeza de que esses outros realmente acreditam, e assim têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. Multiplicar o número de liturgias, compromissos e atividades dá aos crentes a completa satisfação; rodeados por isso tudo eles não tem necessidade de questionar a verdade ou realidade da sua própria crença: a atividade os mantém ocupados.

Nesse cenário a diversidade de crenças torna-se intolerável. A dúvida e as incertezas são radicalmente destrutivas para a crença, e em razão disso a crença não pode tolerá-las. A crença é inimiga da diversidade. A diversidade é sempre uma fonte de novos questionamentos e propicia um ambiente para a autocrítica. Diante da diversidade corremos o risco de nos depararmos outra vez com a dúvida. Para evitar esse inimigo a crença precisa ser e é de fato rapidamente transformada em senhas, ritos e ortodoxia.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida. A fé coloca à prova cada elemento da minha vida e do meu contexto social; não poupa nada nem ninguém. Ela é implacável em me levar a questionar todas as minhas convicções: cada uma das minhas moralidades, crenças e posições políticas. A fé me impede de atribuir significado definitivo a qualquer área da atividade humana. Ela me desprende e me livra do dinheiro, da família, do meu emprego e da minha capacidade intelectual. Ela é o caminho mais certo para me levar a admitir que a única coisa que sei é que nada sei. A fé não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação. Ela faz com que eu me depare com minha condição de incompleto, e desmascara minha incredulidade (naturalmente a fé é a arma mais certeira e letal contra as crenças em geral).

A crença é confortadora.

A crença é confortadora. A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Ao contrário, a fé continuamente nos coloca no fio da navalha. Embora saiba que Deus é Pai, ela nunca minimiza o seu poder. “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” (Marcos 4.41). Essa é uma pergunta da fé. Para a crença as coisas são simples: Deus é Todo-Poderoso. Com a crença nós normalizamos Deus, para que possamos nos sentir confortáveis diante do seu poder. Apenas a fé é capaz de apreciar a imensidão de Deus e a sua verdadeira natureza.

A dúvida, que constitui parte integral da fé, diz respeito a mim mesmo; não diz respeito à revelação de Deus ou ao seu amor nem à presença de Jesus Cristo. Trata-se da dúvida a respeito da efetividade, até mesmo da legitimidade, daquilo que faço e a respeito das forças a que me submeto na minha igreja e na sociedade. Além disso, a fé coloca a si mesma à prova. Se discirno o tumulto da fé dentro de mim, tenho de adotar como primeira regra não enganar a mim mesmo, não me deixando abandonar à crença indiscriminadamente. Passarei a ter de sujeitar minhas crenças a uma crítica rigorosa. Terei de dar ouvidos a todas as negações e ataques dirigidos a elas, de modo que possa compreender o quão é sólido o objeto da minha fé. A fé não apóia meias-verdades e meias-certezas. Ela me obriga a enfrentar o fato de que não sou nada, e ao fazer isso recebo todas as coisas de presente.

A crença está associada a coisas, a realidades e a comportamentos que são elevados ao status de valor definitivo, a ponto de serem merecedores de que se morra por eles. A crença veste realidades humanas finitas para que se apresentem como sendo realidades definitivas, absolutas e fundamentais. Através da crença tudo que pertence ao âmbito da Promessa, da Palavra de Deus e do Reino é transformado em efeito colateral, em palavras doces e piedosas, em meios de tornar a vida mais fácil e num processo de auto-justificação.

A fé trabalha de forma oposta. Ela reconhece o Definitivo em sua verdade incontestável, e assim atribui pouca importância a qualquer coisa que se apresente como substituto desse Definitivo. Não se trata de olhar para uma fonte externa de uma realidade definitiva; o Reino dos céus está agora entre e ou dentro de vocês. A partir de agora você é que constitui o reino. A fé é a exigência de que encarnemos o Reino de Deus agora, neste mundo e nesta época.

Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro.

Ninguém jamais progride da crença para a fé, muito embora a fé em muitos, com muita freqüência, degenere em crença. Você não pode chegar à fé por meio de qualquer religião ou crença antiga, através de alguma vaga exaltação espiritual ou de emoções estéticas. De um ponto de vista cristão, crer não é melhor do que não crer; ter uma religião não é melhor do que não ter. A crença é uma estrada que não leva à fé. Não é possível transformar uma convicção pessoal a respeito do valor de rituais num ato de postura solitária diante de Deus. A implicação disso é verdadeira: toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião. Elas induzem a escolhas espirituais que não substituem a fé, impedindo-nos de descobrir, de ouvir e aceitar a fé revelada em Jesus Cristo.

Kierkegaard defende a idéia de que, para uma pessoa criada com toda a cultura do Natal, que teve todas as suas pequenas necessidades espirituais satisfeitas pela igreja, é mais difícil receber o choque da revelação, descobrir o Único, e entrar na noite escura da alma, do que para aquele que não fez outra coisa na vida a não ser buscar continuamente sem nunca chegar a uma resposta satisfatória. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro. Não existe caminho que leve de um pouquinho de religião (de qualquer tipo) a um pouquinho mais e finalmente à fé. A fé destrói toda a religião e tudo que entendemos como espiritual. Por outro lado, a passagem da fé para a crença é possível e uma ameaça constante. É o caminho do retrocesso ao qual a igreja e vida cristã estão sempre sujeitos. A fé está constantemente degenerando em múltiplas crenças. Nenhum termo expressa melhor essa mudança imperceptível do que “ter fé”. Quando nós tomamos posse da fé, quando alegamos sermos proprietários dela, naturalmente estamos pensando que podemos dispor dela do modo que desejarmos. A única coisa que temos o direito de dizer é “a fé me tem”. Todo o resto é mera crença.

Fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós. Sou intimado por uma Palavra que é eterna, universal e pessoal aqui e agora. Aceitar a intimação. Dispor-se a agir de forma responsável, entrando numa aventura ilógica, sem saber sua origem nem o seu fim. Assim é a fé.

A apologética tenta provar que o cristianismo responde às perguntas da humanidade, que ele é verdadeiro e superior às outras religiões. Fica evidente que isso limita nossa discussão ao nível religioso. Somos capazes de demonstrar que o cristianismo pode conduzir um debate razoável. Ocorre porém que esses debates entre intelectuais são totalmente estéreis; um jamais chega a convencer o outro. Nenhum apologeta chegou a trazer um incrédulo para a fé, mesmo os que sabiam que haviam vencido a retórica do adversário. A abordagem meramente lógica e intelectualista leva a um beco sem saída. O intelecto não é capaz de invocar ou demonstrar o caminho da fé.

Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.

A crença é um refúgio e um escape da realidade. Em nossa busca natural por proteção nos agarramos a ela como uma garantia ou uma apólice de seguros. Radicalmente oposta à crença é a fé. Fé é assumir riscos, deixar para trás segurança e tranqüilidade, desprezar garantias: é pisar, como o discípulo, para fora do barco no mar da Galiléia. Se vivemos pela fé, não há necessidade de implorar que ele nos salve do perigo. Torna-se suficiente saber que ele está ali, mesmo que o perigo se mostre mortal; o que quer que o amor de Deus queira fazer ou esteja fazendo em nós será feito, não importa o quê.

Porquê crer? Usando “crer” no sentido de “participar da fé”, não temos nenhum resposta. Acreditar porquê? Com vistas a quê? Para realizar o quê? Para conseguir o quê? São questões sem sentido. Cremos por razão nenhuma. Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita. Isso vai parecer chocante, especialmente para os protestantes, que falaram tanto de salvação pela fé, da fé como condição da salvação, que chegaram a dizer “você crê, por isso será salvo”. Mas temos de ficar voltando à fé e a sua gratuidade. Se Deus ama e salva a humanidade sem pedir preço algum, ele quer a contrapartida de ser crido e amado sem propósito algum; Deus quer ser crido e amado sem que seja por mero interesse pessoal, simplesmente por nada. Isso é escandaloso, e ainda assim tão fácil de compreender se considerarmos o amor. No momento em que um homem e uma mulher se amam por alguma razão concreta, qualquer que seja, dinheiro, prestígio, beleza ou posição, o amor deixa de ser. O amor é sem causa e sem interesses pessoais ; o amor é sem razão.

A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões.

A fé é uma constante ação recíproca; ela nunca fica estagnada ou se acomoda. Não se pode encarnar a fé de um modo estático e definitivo. A fé é um perene novo ponto crítico. A fé portanto é a contínua presença da tentação e uma visão cada vez mais clara da realidade. Ela implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana. A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. A fé é levada a prosseguir em criticar, julgar e radicalmente rejeitar todas as reivindicações religiosas humanas. Precisamos ser cautelosos nesse ponto. Não são pessoas que estão sendo julgadas ou criticadas aqui; a vontade de poder das pessoas e a expressão disso na forma de religião é que é criticada, julgada e rejeitada. Mas a crítica da religião feita pela fé pode estar enraizada apenas na sua crítica de si mesma.

A fé me leva a tomar parte de tudo, e ao mesmo tempo me mostra tudo sob uma luz que não é a razão, a experiência ou o senso comum. Não se trata de uma operação intelectual, é sim uma atitude existencial. A fé traz a luz a nova pessoa manifestada em amor e lucidez.

Hoje em dia a fé dos cristãos na igreja se desencaminhou. A sua obsessão com o conteúdo da sua fé (teólogos discutindo termos técnicos) ao invés da paixão pelo movimento e pela vida da fé, acabou desencadeando a nossa crise mundial. Mas o imutável permanece imutável. O Último, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro não mudou. A fé é nossa responsabilidade de fazer com que o Transcendente, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro Ser, torne-se uma realidade ativa dia após dia em nosso contexto, hoje onde quer que estivermos. A fé só move montanhas quando fala ao onipotente criador – quando me sujeito a ouvir a palavra da fé.

Extraído de Fé Viva: Crença e Dúvida num Mundo Perigoso. San Francisco: Harper and Row, Publishers, 1983.

Tradução: Paulo Roberto Purim
Revisão: L. Ivan Volcov

Postado originalmente em: A Bacia das Almas – Onde as idéias não descansam, de Paulo Brabo

Link para o texto original: Fé e Crença

O Pronunciamento

Postado em geral em 21/01/2010 por Edson Gil

http://www.baciadasalmas.com/2010/o-pronunciamento/

por PAULO BRABO

Os quatro eram teólogos e estavam mortos, mas suas indignações não descansavam.

– Numa crise dessa magnitude – disse o primeiro – seria impreterível que Deus não se esquivasse, como tem feito com demasiada frequência, de um pronunciamento oficial. O ideal seria que ele lesse
pessoalmente, em cadeia planetária, uma nota redigida por nós.

– Se ele continua se recusando a liberar os recursos celestiais para as operações de salvamento e reconstrução – disse o segundo – o absoluto mínimo que ele deveria fazer seria manifestar de forma inequívoca sua solidariedade pelas vítimas e familiares. Repito: o absoluto mínimo.

– O que também não pode ser contornado indefinidamente – exigiu um o terceiro, abrindo seu laptop e apontando para uma pasta
impossivelmente repleta do seu Google Reader – é o caso do
comportamento temerário de Pat Robertson e de seus asseclas. Esses andam dizendo, em nome de Deus mas evidentemente sem o seu endosso, que a calamidade é intervenção divina, castigo aplicado devido à impenitente simpatia dos atingidos pela ortodoxia errada. Seria conveniente que no seu pronunciamento Deus deixasse bem claro o seu distanciamento dessa posição.

– Pelo contrário – asseverou um quarto, como se já viesse aguardando esse momento. – Em seu pronunciamento Deus deverá endossar cada palavra de seu servo Pat Robertson, de modo a expor as mentiras dos liberais e confundi-los publicamente. Tendo em vista a posição oficial da divindade com relação à sua própria soberania, inaceitável é o que andam afirmando os teólogos liberais: que Deus nada tem a ver com o desastre em questão e que, como se não bastasse, nada poderia ter feito para evitá-lo. Desnecessário apontar que é essa a posição sem qualquer precedente escriturístico, sendo além de tudo heresia defendida há séculos por ateus desprovidos de qualquer mérito.

E, apesar das suas diferenças doutrinárias, nos dias que seguiram os teólogos conseguiram redigir uma nota contendo sete pontos essenciais sobre os quais os quatro concordavam, a respeito da origem do mal e da posição divina diante das grandes calamidades. Deixaram o documento na caixa de sugestões do céu, que não tem fundo, juntamente com uma carta de apresentação e um abaixo-assinado com poucas assinaturas, mas de prestígio.

A resposta demorou meses a vir, e chegou endossada por um número impossivelmente abundante de selos, rubricas e carimbos, cada um atestando a passagem do processo por uma repartição celeste.

“O último pronunciamento oficial da divindade foi abraçar uma plena humanidade e morrer, e no intervalo entre uma coisa outra investir seus esforços em mitigar os sofrimentos dos homens e reparar as injustiças a que se submetem mutuamente, tendo deixado instrução para que seus seguidores vivessem e morressem dessa mesma forma. Não existe qualquer previsão para uma revisão deste pronunciamento, e a divindade não encontra-se disponível para esclarecimentos adicionais. A primeira vez em que foi visto publicamente Deus estava com as mãos sujas de barro, e na sua última aparição pública ostentava as cicatrizes de sua paixão pelos seres humanos. A administração do céu não reconhece outro lugar onde Deus possa ser encontrado, ou outra maneira pela qual possa ser reconhecido”.

– Lamentáveis essas respostas automáticas – disseram os teólogos uns aos outros, e passaram o resto da tarde lamentando a burocracia celestial.

De saco cheio

Postado em geral em 21/01/2010 por Edson Gil

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alívio!

[Mario Quintana]

“Só um deus pode nos salvar”

Postado em geral em 13/01/2010 por Edson Gil

por HOELDERLIN

Mas, amigo! viemos tarde demais. Decerto vivem os deuses,

Mas lá em cima, noutro mundo, por sobre as nossas cabeças.

Infindamente ali agem e pouco parece importar-lhes

Se nós vivemos ou não, tanto os Divinos nos poupam.

[Trad. Paulo Quintela]

Nicolau de Cusa

Postado em geral em 13/01/2010 por Edson Gil

Nicolás de Cusa, cardenal de la iglesia romana, justificará en su Apología su propia causa y la de sus Predecesores Plotino, Dionisio, Eckhart. También para él la pura esencia es inaccesible. Pero más intelectual que espiritual, su método para referirse a la esencia es “el arte de las transmutaciones geométricas”. Las ideas y los conceptos no son para él inmóviles.

En el límite de su desarrollo cada concepto coincide con su opuesto. Explicar, no consiste para él en referirse a una tabla de valores fijos, de tipos universales, sino en encontrar la fórmula matemática que transforma un movimiento oscuro y presentido en una función racional. El entendimiento tiene por función realizar la síntesis de los contradictorios, y si esto es posible es gracias a la presencia en el alma de un reflejo de la Divinidad. Dios es más interior al hombre que él mismo. La verdad no es más el objeto último de una larga carrera, sino el reconocimiento, en el fondo del alma, de un infinito inaccesible. El observador, como el relativista moderno, está siempre colocado en el centro. En el espacio, crea su orden y su jerarquía. En el tiempo, el instante en que vive es un reflejo de la eternidad. Bajo todos los modos del ser, Nicolás de Cusa ve una participación en lo Imparticipable.

Nadie se admirará de que haya deseado una unidad religiosa conforme a la Tradición. Da de la religión fórmulas tan abstractas que todo el mundo puede suscribirlas. Escribe un Examen crítico del Corán. Marcha a Constantinopla para conducir nuevamente al emperador bizantino bajo la obediencia de Roma. Mueve al Papa a escribir una carta al sultán turco ofreciéndole la sucesión de los emperadores de Oriente. Para él las “revelaciones” son múltiples así como los dogmas y, al igual que los ritos, corresponden a verdades parciales. “A través de la diversidad de los Nombres divinos, escribe, es a Ti a quien nombran, en efecto tal eres Tú y tal permaneces, desconocido e inefable”. Pasa de la trascendencia de una teología negativa a la inmanencia de un infinito actual. Su “docta ignorancia” realiza la superación de los contradictorios. Pero sabe bien que lo profano no es capaz de comprender el tesoro que encierra en sí. El conocimiento verdadero es esotérico. Y proclama en una fórmula magnífica: “La sabiduría grita sobre las plazas públicas y su mensaje es que habita sobre las cimas”. (Excertos de O Esoterismo, de Luc Benoist)

O fundamento da moral

Postado em geral em 12/01/2010 por Edson Gil

"Se eu fundamentar minha moral em minha religião, vocês contestarão minha religião em nome de outra religião ou da irreligião (se forem agnósticos ou ateus), e minha moral não passará de uma moral como as outras, de uma moral entre outras, uma moral particular. Só poderei dizer: esta é minha moral, vocês têm a sua, e eu a minha.

"Se eu fundamentar minha moral em minha filosofia, vocês contestarão minha filosofia em nome de outra filosofia ou da não filosofia, e minha moral não passará de uma moral entre outras, sem nenhum direito de se impor.

"Se vocês contestarem a necessidade de fundamentar a moral, porque todos já dispõem de uma, acreditarei decerto que minha moral é a melhor, mas vocês acharão o mesmo da moral de vocês. Todas as morais terão igual direito de julgar o que é bom e o que não é. Então os assassinos de Buchenwald, Dachau, Auschwitz etc. estarão com a faca e o queijo na mão. Terem sido vencidos por uma força superior, mas da qual não será possível dizer que estava, mais do que qualquer outra, a serviço da verdade moral, terem sido vencidos, repito, será seu único erro.

"Caso contrário, deve-se, em primeiro lugar, fundamentar a moral; em seguida, deve-se fundamentá-Ia não no particular — e uma religião ou uma filosofia sempre são particulares, porque existem outras –, mas no universal. O universal é o que deixa de lado todas as particularidades.

"Deixar de lado o que nos separa ou nos distingue é o que é feito no diálogo, quando se escuta. Eu falo, você escuta; você fala, eu escuto. Operamos ambos a redução dialógica, colocando de lado nossas crenças, nossas opiniões, nossas tradições, nossas particularidades de todos os tipos para estarmos exclusivamente atentos ao verdadeiro e ao falso. Realizamos o universal vivo por nossa operação recíproca. O que acontece então? Cada qual pressupõe que o outro pode apreender a verdade que é a sua verdade, mesmo que para cada um deles esta seja apenas a do outro. Ou: cada qual, simplesmente para poder dirigir-se ao outro, falar-lhe, pressupõe o outro como capaz de verdade. Por esse motivo, cada qual pressupõe o outro como seu igual. A partir do momento em que os desiguais dos regimes baseados em privilégios se dirigissem um ao outro de uma maneira que não fosse para julgar, louvar ou criticar, ou comandar sem réplica, colocariam em perigo, pelo simples fato de serem dois seres humanos falando um com o outro apenas para dizer o verdadeiro e o falso, o próprio sistema que os estabelecia como desiguais. É por esse motivo que privilegiados e não privilegiados não dialogavam e muitas vezes não se falavam. Ora, dessa igualdade de todos os homens, implicada no simples fato de se poder travar uma conversa de fato, extrai-se toda a moral — aquela que, diferentemente das morais coletivas particulares, é a mesma para todos e contém todos os direitos e deveres universais do homem.

"A moral baseia-se não nesta ou naquela crença, religião ou sistema, mas neste absoluto que é a relação do homem com o homem no diálogo. … A moral, não a ética. A "ética" de Espinosa supõe o sistema desse filósofo. É portanto uma ética particular, pois somos espinosistas ou não. O mesmo ocorre com a ética nietzschiana do super-homem, ou com a ética epicurista, ou com a estóica, ou com qualquer outra. A ética é a doutri¬na da sabedoria — mas, a cada vez, de uma sabedoria; e a sabedoria é a arte de viver a melhor vida possível. Como viver? Nosso juízo a esse respeito será este ou aquele conforme, por exemplo, concebamos a morte como um ponto final ou uma passagem. Acontece a mesma coisa com as filosofias e as religiões: elas são necessariamente múltiplas, e ninguém pode demonstrar a inexatidão das concepções que não partilha. [...]

"Criticou-se a filosofia de Heidegger por não conseguir fornecer nenhuma diretriz moral. Se nós mesmos, porém, não estivermos em condições de fundamentar uma moral universal, se permanecermos em uma moral de opinião — a nossa –, a ser confrontada com outras morais de opinião igualmente não fundamentadas, estaremos no mesmo ponto que ele: no niilismo moral; e um consenso qualquer sobre os "direitos do homem" nada muda com relação a isso. Quanto à ética, se a filosofia de Heidegger não propôs uma nova visão da vida, como explicar que tenha "repercutido profundamente no coração da juventude alemã”?! …" [CONCHE, Marcel. O fundamento da moral. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. IX-XI]

O papel da filosofia

Postado em geral em 12/01/2010 por Edson Gil

"Perguntarão então qual é o papel da filosofia, se ela não tem de nos libertar da ignorância e nos elevar ao saber. É que só ela nos traz o entendimento da aparência como aparência. Porque vivemos na aparência, mas não sabemos, uma vez que, ao contrário, deixamo-nos levar continuamente a absolutizar aquilo que nos aparece, e, em vez de deixá-lo valer unicamente nos limites da aparência, nós o supomos valendo pelo "ser" mesmo, e pela essência das coisas, o que nos conduz a rejeitar, a "refutar", a abolir as outras versões, que, no entanto, são sentidas, vividas por outros. A filosofia da aparência deve conduzir a uma absoluta benevolência: se "sabemos" que tudo o que dizem sobre a Virgem, mãe de Jesus, não passa de um tecido de absurdos, só podemos lançar um olhar de piedade e de condescendência sobre a pobre velha que acende uma vela numa capela da Virgem, mas, então, não estamos fazendo mais do que adotar outro aspecto da ilusão de reificação de que é vítima a velha senhora — como se a Virgem tivesse de ter um ser, um estatuto ontológico; se, ao contrário, estivermos atentos àquilo que se mostra à mulher devota em seu gesto de adoração, à Virgem como valor inspirador de atitudes e de vida, como centro de radiação que ilumina e inspira certa esfera de existência, então, longe de nos sentirmos levados à condescendência ou ao desdém, adquirimos um tipo de respeito indireto por essa "Virgem" poderosa e ativa (dentro dos limites de uma esfera de existência), mesmo não sendo nada. Os homens da ciência, os filósofos são levados a conceber uma hierarquia em cujo pico se colocam, e o currículo da educação e da instrução lhes parece dever conduzir, de grau em grau, até esse pico: ser "ignorante" ou ser "erudito" faz, para eles, enorme diferença… Mas, a sua existência é realmente mais rica do que a de uma velha ignorante, se eles perderam o poder de adorar (ou um outro poder: por exemplo, aquela forma de generosidade, aquela humildade etc.)? Mas, por outro lado, não são eles também vítimas da mesma ilusão de reificação? Porque pensam ter de ir para além da aparência, para o "ser-verdade" e para a "essência" das coisas — enquanto estão vivendo como toda gente, na aparência, em que o que conta, no desenrolar cotidiano da vida, é uma multiplicidade de coisas singulares que o tempo arrasta consigo. Certamente eles teriam, contudo, razão se existisse esse "ser-verdade" — ou "essência" — das coisas (ou qualquer coisa daquilo que hipostasiam acima da vida em seu curso cotidiano), mas para a filosofia da aparência, ao ignorar que a aparência é o todo, não fazem mais do que substituir a aparência pela ilusão." [CONCHE, Marcel. Orientação filosófica. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 380-382.)

Serenidade é…

Postado em geral em 12/01/2010 por Edson Gil

…ver as coisas em sua verdade.