Os desafios de uma nova ética
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IHU Online 316, 23-11-2009
Entrevista com RICARDO TIMM DE SOUZA
A ética só tem sentido “se estiver no fundamento das ações, e não se postar meramente como corretivo das ações”. A opinião é do professor Ricardo Timm de Souza, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em entrevista à IHU On-Line, por e-mail, ele garante que os desafios éticos do futuro já estão definidos no presente, e que a ética não permitirá “qualquer tipo de automatismo tecnocientífico ocupe a posição decisória a respeito daquilo que exige prudência”. Souza é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Ele também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs).
IHU On-Line – Qual será a ética do futuro pós-humano, em que homens e máquinas serão um só? Os conceitos tradicionais de ética deverão ser alterados, nesta circunstância?
Ricardo Timm de Souza - Ninguém tem condições de profetizar a respeito de todas as variáveis que o futuro apresentará, pela complexidade do que se anuncia; o que se pode dizer é que hoje, aqui e agora, a ética deve sofrer uma revisão categorial e axiológica profunda, que a coloque no lugar e posição nos quais sempre deveria ter estado: no fundamento das relações, entre pessoas, entre pessoas e seres vivos, entre pessoas e o ambiente, entre pessoas e o mundo. A ética é a filosofia primeira, como diz Lévinas , pois, para pensar, é necessário existir, e a existência só perdura se ocorrerem atos eticamente “positivos”, integrados à história dos indivíduos e das comunidades.
IHU On-Line – Qual deve ser a responsabilidade ética dos cientistas e dos profissionais que trabalham nas áreas das nanotecnologias, por exemplo?
Ricardo Timm de Souza - Saber e tornar transparente a quem realmente servem: às forças do poder, revestidas de cientificismo cego e entusiasmo tecnológico e que, em nome de uma idéia vaga de “desenvolvimento” – interesses econômicos -, tudo permitem, ou a forças da vida e da sustentabilidade socioecológica, que, geralmente, não estão na agenda real das estratégias de governo de corporações e países ou blocos de poder decisório em termos geopolíticos.
IHU On-Line – Como estabelecer uma ética na atualidade, tendo em vista todas as manipulações genéticas que vêm ocorrendo?
Ricardo Timm de Souza - As manipulações genéticas agudizam, mas não se desviam da rota traçada desde as origens do ocidente e radicalizadas na modernidade baconiana: conhecer a natureza para dominar e manipular. A ética, hoje como sempre, só tem sentido se estiver no fundamento das ações, e não se postar meramente como corretivo de ações.
IHU On-Line – Pensando nas mudanças que ocorrem e ocorrerão de maneira mais acentuada nas relações sociais, provocadas pela bioética, biotecnologia, nanotecnologia, que desafios éticos serão impostos no futuro? Como está se dando essa discussão?
Ricardo Timm de Souza - Os desafios éticos do futuro já estão muito claros no presente: não permitir que qualquer tipo de automatismo tecnocientífico ocupe a posição decisória a respeito daquilo que exige prudência; é da percepção desse fato que se poderá haurir elementos necessários para o estabelecimento das estratégias que se farão necessárias para evitar que se estabeleça de forma definitiva – se ainda não o foi – o caos socioecológico sancionado por simbólicas de idolatria do poder e dos interesses econômicos.
IHU On-Line – O senhor disse que precisamos repensar conceitos de base e categorias filosóficas sólidas que fundamentem a discussão conseqüente sobre temas que mudaram com o desenvolvimento científico e tecnológico. Como a filosofia está dialogando com essas transformações?
Ricardo Timm de Souza - A filosofia costuma chegar tarde às discussões urgentes do dia-a-dia, em parte pelo fato de gerar e gerir conceitos que têm um tempo próprio para sua validação em termos de categorias interpretativas; o certo, porém, é que não será no passado – com suas propostas de soluções para problemas do passado – que se poderá vislumbrar soluções sólidas para as questões presentes: é o presente que oferece sua própria e árdua chave de leitura. Cabe à filosofia tomar consciência desse fato e assumir a condução do processo de “metareflexão” a respeito dos grandes temas trazidos à baila aqui e agora pela aceleração e complexidade de variáveis envolvidas nas grandes questões decisórias – de sobrevivência – da contemporaneidade.