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IHU 8/7/2009
O Legado de Hans Blumenberg
Foi publicado pela editora Medusa o ensaio de Hans Blumenberg sobre Platão. Uma obra em que o filósofo alemão se move através da elaboração antropológica sobre a natureza humana para chegar à conclusão de que a pesquisa da verdade é uma viagem sem meta final, mas com muitas paradas devidas à contingência da vida social. A reportagem é de Bruno Accarino, publicada no jornal Il Manifesto, 02-07-2009. A tradução é de Benno Dischinger.
Pagamos imediatamente um débito de gratidão: à casa editora Medusa, ao tradutor Martino Doni e ao organizador Giovanni Leghissa, que nos oferecem uma edição italiana de Saiam da caverna, de Hans Blumenberg (Medusa edizioni, 6489 pp., 65 euros). Estamos em débito pele esmero, mesclado a uma pitada de loucura com que foi realizado um empreendimento que teria feito tremer os pulsos a qualquer um. Quando o nosso país, desde sempre xenófilo e até um pouco neurótico em traduzir tudo e todos, será definitivamente envolvido pela tralha mercantilista que classifica como horripilantes anti-economias as ciências do espírito, olharemos com nostalgia àqueles últimos lampejos de longo alcance que tornaram disponíveis em nossa língua uma série impressionante de textos clássicos e menos clássicos. Pago o débito, procuremos o fio da meada nas últimas páginas: aquelas em que Blumenberg intensifica os interesses antropológicos retomados com esforço no decurso de sua vida, deixando entender que de agora em diante, isto é, desde 1989, terão papel absolutamente prioritário. O que foi pontualmente confirmado pelas obras póstumas até agora publicadas.
O mito platônico da caverna, em torno do qual gira a vencedora cadeia de digressões e dramatizações que compõem o livro, pouco tem a ver com os cavernícolas. Os caçadores e os coletores só podiam desfrutar das cavernas de passagem, em condições nas quais a transição do nomadismo à vida sedentária requeria um acúmulo de circunstâncias insolitamente favoráveis. As cavernas eram habitadas, em épocas nas quais costumamos associar a figura do cavernícola de modo esporádico e fugaz, ao ponto de o mito de Platão não ter nenhum título para designar a imagem geral do progresso: a superação das sombras e a saída à luz. Mas, por que se pensa sempre em fuga da caverna e não também em fuga na ou para a caverna?
Se o imperativo da existência humana é estar longe da realidade ou defender-se, como diz a famosa fórmula de um Blumenberg estudioso do mito e do seu absolutismo, a caverna é um estratagema não acidental, algo mais do que um abrigo fortuito. Blumenberg fala de um deslocamento do baricentro da metafísica ou da ontologia para a antropologia. Somente este deslocamento permite por em foco a profunda racionalidade de quem se recusa abandonar a caverna e se opõe ao atrativo externo de verdades superiores. Porque, em outros termos, aquele que consegue sair e voltar à caverna para “libertar” os seus companheiros, encontra somente desconfiança e é até vítima de uma agressão? Porque falha a estratégia da Paideia e o que há por trás da relutância ao ensinamento? A aversão a um conhecimento superior e definitivo trai a percepção de um risco. Quem sai abandona uma forma de existência tornada familiar e por isso isenta de perigos: deixa-se para trás – só se pode chamá-lo assim – um mundo da vida.
Amestrados – é o caso de dizer – pelos benefícios presumidos da Paideia, sabemos enumerar facilmente as vantagens adquiríveis de quem foge da caverna. Mas, estamos também em condições de fazer o levantamento das refregas com que nos defrontamos? Na linha de Arnold Gehlen e através de outros enfoques de André Leroi-Gourhan, o ofuscamento do olhar que atinge o habitante da caverna clássica é interpretado como o correspondente a uma profusão de estímulos que não podem ser controlados: enquanto o sub-hominídeo não puder contar com sinais que estejam em sintonia com o seu aparato orgânico, ele não conhecerá a desorientação que golpeia quem se encontra num mundo privo de sinalização porque infinito; Os invólucros e as grades não só não obstaculizam, mas favorecem o programa biológico dos humanos.
A obra-prima da caverna foi a invenção da fantasia e aqui ela também encontrou as energias para lançar-se bem além do simples limiar da autoconservação. Se o habitante da caverna não se tivesse oposto ao campo aberto, ao desmesuramento do exterior, ao território do caçador e do coletador, do cultivador e do nômade, a caverna teria sido somente uma estadia. Mas, sua tensão a desnaturalizar-se, a instalar-se no mundo da artificialidade, promove uma candidatura de nível superior: aquela tendente a favorecer a “cultura do cuidado”. Foi assim que, passando pela caverna, “o homem se tornou o animal sonhador”: e, mais propriamente, fantasista. Na caverna se imagina o que não é dado e, ao invés de dar vida a uma altercação com a realidade, se opta por aquilo que é ausente: retirando-se da realidade, pode-se, no entanto, dispor sempre da imagem, do símbolo, do nome e, enfim, do conceito.
Os antecedentes do supérfluo
Sem dúvida, é preciso pensar em instrumentos inicialmente mágicos e não racionais, mas algo extraordinário sucede: os débeis, ineptos para a caça e a predação, permanecem dentro, experimentando o mecanismo da compensação. Com a fantasia representam algo não visto, contam algo não vivido, constroem tramas narrativas como anti-heróis do supérfluo. Os caçadores pensam na sobrevivência, os que não vão para fora adotam as estratégias de um supérfluo que bem depressa sabe se tornar necessidade. Como todos os expoentes – a começar por Peter Sloterdijk – da mais recente e atilada antropologia filosófica, Blumenberg não tem dúvidas quanto ao fato de que o sinal fundamental da antropogênese seja o luxo, não a indigência. E o primeiro traço do luxo é a distância: os débeis se apropriam de uma operacionalidade in absentia et per distans [na ausência e de longe, ndt], quem sabe projetando armadilhas que desempenhem o seu papel sem serem vigiadas e sem sua intervenção. Foi sobre esta base que conquistaram espaço a palavra e a imagem, as duas tramóias destinadas a evitar os contatos diretos e os choques frontais com a realidade. Quanto àqueles que saem e que não podem esquivar-se nem de uns nem de outros, é para eles importante encontrar sempre aberta a via do retorno à “casa”: ao clima confortável que a domesticação da caverna soube determinar.
Jamais a fantasia teria encontrado tal e tão intacta plenitude de possibilidades, um momento tão irrepetível de graça e de felicidade: ao ponto de que todos os nossos retornos à caverna, imaginários ou física e arquitetonicamente reais que sejam, são uma tentativa de reconquistar uma riqueza que é agora percebida como fragmentada e mortificada. Os intelectuais, herdando o papel de quem soube tão brilhantemente gerir a relação entre o real e o possível no interior da caverna, devem produzir uma narratividade que em geral tem desnorteado a fantasia cavernícola. A fascinação imortal do mito de Platão não depende de sua colocação na hierarquia dos seus mitos, nem da mensagem didático-ilustrativa, mas de sua capacidade de poder repropor nos lugares mais impensados uma pergunta radical sobre a origem e sobre o destino dos homens.
O domínio do presente
Demasiado refinado para se deixar ir, por um curto-circuito imprevisto e improvisado, a qualquer proclama da sociologia da atualidade, Blumenberg não é, no entanto, reticente ao fazer entender que os universos midiáticos nos quais estamos imersos nos debatendo, remastigam com frequência as problemáticas cavernícolas da autogestão da existência. Nas páginas sobre Jean-Paul Sartre como “fenomenólogo da contingência” se encontra o cinema: os jogos de sombras dos modernos propõem o domínio das artes projetivas, as quais o filósofo evita, como conta em uma de suas intervenções autobiográficas, saindo. Onde, todavia, encontra a contingência e não, platonicamente, a verdade: no cinema a contingência está ausente – assim Sartre -, ali tudo é necessário porque o cinema é uma caverna que tem na cidade o seu mundo externo. O trauma originário não é, para Blumenberg, o individual do nascimento, mas o evolutivo da postura ereta. É na altura daquele estágio da evolução que um ser vivo descobre possibilidades inéditas para ver, mas impacta com a angústia que se acumula em quem é visível. O olhar do outro: não podia acontecer nada pior, e não só porque se multiplicam as possibilidades de ser agredidos, uma vez que se está muito mais exposto do que os quadrúpedes. É então que a palavra-chave ‘Geborgenheit’ [estar resguardado e a salvo, ndt], que tem o dom de mesclar ocultação e segurança, escondimento e proteção, começa a ruminar soluções disparatadas: aquelas excogitadas pela racionalidade iluminista, com o seu apelo a obter sempre mais luz e que são, – tudo somado, – minoritárias e não duradouras.
A via que conduz para fora da caverna não era patrocinada em caixa fechada nem sequer pelos gregos que não ignoravam a potência dos mistérios, dos ritos de iniciação, dos cultos órficos, podendo, assim, apreciar o sentido da virada para trás, para a via do retorno à caverna. As cavernas são creditadas para custodiar a antiga sabedoria e exercem a função de refúgio para os vencidos, prontas para hospedar a densidade dos mistérios mais do que a clareza ilusória do conhecimento. Platão também teria podido deixar de imaginar que os prisioneiros da caverna estivessem acorrentados, em vista do fato de que as verdadeiras cadeias da caverna são suas paredes, que não só deixam uma única saída, mas obstruem, rejeitam e fazem voltar o que pressiona contra elas para quebrá-lo.
Turista e desencantado
Também a cobiça exploradora pode, então, conhecer golpes no vazio. A ‘curiositas’ uma das figuras mobilizadoras de A legitimidade da era moderna, o livro ao qual está ligada a fama mundial de Blumenberg, é submetida aqui a uma declinação diversa. Como não pode deixar de observar o jesuíta espanhol Baltasar Gracián (1601-1658), quem sai da caverna entra num processo realista e vai ao encontro da desilusão de um mundo que não satisfaz as expectativas de quem na caverna se fortaleceu com uma espécie de aprendizado. O estupor e a maravilha não faltam, mas para os que decidiram sair têm um quê de irreal, porque continuam a operar os efeitos protetores da caverna, que são comparativamente os únicos a serem reais. Após alguns dias, o estupor e a admiração dão lugar ao terror que surpreende o turista da mundanidade: se entrar no mundo, – comenta Blumenberg, – significa aprender a arte de ver, ganhar distância dele é a arte de tornar a não ver, de reduzir a atenção.
Em termos biológicos, à redução da atenção corresponde a redução da atividade cerebral, tornada possível pelo sono profundo e não molestado que é típico das cavernas primitivas, naquela que pode ser pensada como a origem mais livre de perturbações de toda a história humana. Não é preciso sequer pensar nas complicações psicanalíticas do sono como sucedâneo da pré-natalidade, basta fazer o experimento mental deste‘unicum’ imunitário para entender que é irrenunciável. Fugir da caverna e satisfazer a curiosidade? E quem no-lo faz fazer?
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Da fenomenologia de Husserl ao confronto com a obra de Gehlen
“Uscite dalla caverna” [Saiam da caverna] (1989) é a última obra publicada em vida por Hans Blumenberg, onde ele se confronta com a antropologia filosófica de Arnold Gehlen e a obra de Jean-Paul Sartre. Nascido em 1926, Blumenberg é laureado naUniversidade de Hamburgo. Interrompido o doutorado pela segunda guerra mundial, cujo fim significou para Blumenberg dois anos de cárcere enquanto soldado do exército alemão, retomou os estudos, obtendo a habilitação ao doutorado com uma tese crítica sobre a fenomenologia de Husserl. Docente em muitas universidades, faleceu em 1996. Sua fama é devida sobretudo a textos como “Naufrágio com expectador”, “A legibilidade do mundo”, “Elaboração do mito”, “Tempo da vida e tempo do mundo” (Il Mulino). A publicação póstuma da correspondência com Carl Schmitt (Il Manifesto, 17 de abril de 2008) reacendeu recentemente o interesse por “A legitimidade da idade moderna“ (Marietti).
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