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IHU 18/7/2008
As grandes religiões dialogam em Madri para melhorar a sua imagem
O renascentista e nacional-católico Pátio dos Austrias do Palácio de El Pardo acolheu [ante]ontem cerca de cem líderes das principais religiões do mundo, convocados pelo rei da Arábia Saudita, Abdalá ben Abdelaziz. A grande singularidade desta Conferência Internacional para o Diálogo consiste em que a sua convocação se deu por iniciativa de Meca, berço do islã, e de um país que não pratica precisamente o pluralismo confessional. Segue a íntegra do artigo de Juan G. Bedoya publicado no El País, 17-7-2008. A tradução é do Cepat.
Também sobressaíram as mensagens à unidade e ao entendimento, distanciadas das tradicionais disputas entre líderes políticos disfarçados de religiosos, que tantas desgraças causaram – e causam ainda hoje – à humanidade.
Agora cabe proclamar que o islã e o resto das confissões são “moderação e tolerância”. O rei saudita explicou isso com estas palavras: “As religiões que Deus quis ditosamente conceder aos seres humanos deverão ser meios para a sua felicidade. Devemos dizer ao mundo que a diferença não tem que conduzir ao enfrentamento. As tragédias vividas não foram motivadas pelas religiões, mas pelos extremismos que alguns de seus seguidores adotaram e pelas crenças políticas”.
Outra novidade desta conferência internacional é sua vontade de transcender a dialética, por bondosa que seja, para estabelecer medidas concretas “pela paz e a justiça”. Não será fácil consegui-lo, pelas experiências passadas. Disse-o o secretário-geral da Liga do Mundo Islâmico, Abdalá al Turki, organização que convocou este fórum a pedido do rei Abdalá: “Espero que esta conferência não seja estéril, como outras anteriores, mas que termine com propostas e observações concretas”. Essas conclusões serão conhecidas nesta sexta-feira e começaram a ser discutidas [ante]ontem em várias mesas de encontro.
A vistosidade do pátio principal do Palácio de El Pardo plasmava o sucesso diplomático do encontro, inaugurado depois das 14 horas pelos reis da Espanha e da Arábia Saudita. Boa parte dos convidados compareceu ornada pelas vestimentas de sua religião. Entre eles estava o representante de Bento XVI, o cardeal Jean-Louis Tauran, vestido com a pomposidade dos príncipes da Igreja romana. Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, falará [hoje] no encerramento do encontro.
Ocuparam lugar destacado no Pátio dos Austrias o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o fundador da liga pelos direitos dos afro-americanos nos Estados Unidos, Jesse Jackson. Por parte do Governo espanhol, cujo presidente, José Luis Rodríguez Zapatero, se sentou, silencioso, à esquerda do rei Abdalá, compareceram os ministros de Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, e da Justiça, Mariano Fernández Bermejo.
O rei Abdalá apontou outra das idéias que buscam destacar o respeito de sua confissão pelas outras religiões, ao menos na literatura dos livros sagrados. “Oh, gente! Vos criamos de um varão e de uma fêmea, e vos convertemos num povo e tribos para que vos conheçais”, disse.
Depois de agradecer a generosa resposta ao seu convite para se reunir em Madri, o rei proclamou: “Trago comigo uma mensagem da nação islâmica representada em seus teólogos e pensadores que se reuniram na cidade santa de Meca, uma mensagem que anuncia que o islã é a religião da moderação, da ponderação e da tolerância”.
Maomé, o profeta dos muçulmanos, deixou clara essa idéia de respeito às crenças alheias, mas nem sempre ela é praticada, para infelicidade do mundo árabe e da humanidade inteira. Mas o rei Abdalá a reiterou [ante]ontem de forma taxativa: “Todos acreditamos num único Deus, que estabeleceu que as religiões das pessoas sejam diferentes. Se Ele quisesse, teria imposto uma só religião a toda a humanidade. Nós nos reunimos aqui para confirmar que as religiões que Deus nos quis conceder serão meios para a felicidade e não de disputa e de enfrentamento”.
Também o rei da Espanha se referiu ao pluralismo religioso, num brevíssimo discurso. Disse: “A Espanha conta com uma conhecida tradição como terra de enriquecedora encruzilhada de culturas e religiões. Somos um país que construiu sua democracia em torno da tolerância, da convivência e do respeito mútuo. Desde o mútuo respeito às nossas respectivas crenças, o diálogo deve dirigir-se a facilitar o melhor conhecimento mútuo, sublinhar aqueles valores em que nos colocamos de acordo, e promover a colaboração e o entendimento recíproco”.
Nos debates abertos [ante]ontem, participaram o ministro da Cultura libanês, Tarik Mitra; o consultor do Banco Islâmico de Dubai, Husein Hamed Hasan; o presidente da Fundação norte-americana Appeal Conscience, o rabino Arthur Schneier, e o presidente da Associação Internacional do Diálogo na Índia, o doutor M. M. Verma.