20/06/2008...16:58

“A Introdução do Nazismo na Filosofia” 2

http://moysessf.multiply.com/journal/item/154/heidegger…

Os dois tempos de Heidegger

Biógrafos e comentadores do filósofo alemão ignoram a ruptura que ocorre em seu pensamento a partir de 1935, que resultaria em uma crítica à técnica e ao nazismo

por HANS ULRICH GUMBRECHT

Depois dos estudos biográficos detalhados das duas últimas décadas, o fato de o filósofo alemão Martin Heidegger [1889-1976] ter buscado ativamente durante muitos anos a proximidade da ideologia e do Estado nazistas não mais deveria provocar sentimentos de espanto ou calafrios intelectuais.
A linguagem dos fatos é demasiado clara para deixar um espaço para idealizações, mas por outro lado também demasiado nítida para fomentar especulações demonizantes sobre a fidelidade absoluta de Heidegger à linha do partido ou mesmo sobre uma influência política decisiva do filósofo, conforme empreendeu recentissimamente uma vez mais o filósofo Emmanuel Faye [autor de "Heidegger -L'Introduction du Nazisme dans la Philosophie" (Heidegger - A Introdução do Nazismo na Filosofia, Albin Michel, 27,55/R$ 81)].
Desde o início dos anos 30, e provavelmente até o fim da Segunda Guerra, Heidegger quis provar ser um bom nazista e um bom alemão -sendo nesse empenho ignorado, para sua amarga decepção, pelos donos do poder e suas instituições, com uma coerência que hoje se afigura quase grotesca.
Uma pergunta, que hoje merece a nossa atenção com vista a esse estado dos fatos, é uma pergunta não mais referida a fatos, formulada en passant por Jacques Derrida em um dos seus primeiros seminários realizados na Alemanha. Ela indaga se Heidegger poderia ter se transformado em um dos grandes pensadores do século passado mesmo sem a sua proximidade ao nazismo.
Há muito tempo, Richard Rorty já deu uma resposta pessoal negativa num texto que fantasia “um outro mundo”, em que Heidegger está casado com uma mulher de origem judaica, devendo abandonar a Alemanha como perseguido político.
Mas quais seriam as conseqüências, se ao final da discussão -e apesar de Rorty- preponderasse a opinião de que a proximidade de Heidegger ao nazismo foi efetivamente uma condição decisivamente importante para o significado da sua filosofia? Podemos prognosticar que tal resultado hoje provavelmente não questionaria em nada a grandeza intelectual de Heidegger, pois ajuizamos o valor de idéias e argumentos filosóficos menos pelo seu efeito prático-político (como ainda há um quarto de século) e mais pelo seu potencial de provocar movimentos de pensamento que desafiam nosso entendimento cotidiano.
Mas não daríamos, por outro lado, a impressão de reabilitar intelectualmente o nazismo, caso identificássemos a sua ideologia e história política como pressupostos da filosofia de Heidegger?

O destino do povo
Uma tal reflexão sobre possíveis respostas deve, porém, ser precedida inicialmente pela outra pergunta, hermenêutica, de como a pergunta inicial abrangente de Derrida pode ser traduzida em perguntas parciais mais específicas. Aqui estão em pauta simultaneamente as razões da continuidade do fascínio de Heidegger por parte do nazismo e as suas modalidades multiplamente mutantes no período anterior a 1933, no longo ano entre a tomada do poder por Hitler e o fracasso do reitorado de Heidegger na Universidade de Friburgo e, finalmente, no tempo remanescente até o término da guerra.
Com isso o olhar se abre para um nexo imaginável entre a história do nazismo e a evolução da filosofia de Heidegger -abstraindo inteiramente o fato de reconhecermos essa evolução condensada no evento de uma “virada” (Kehre), o que hoje parece convencer um número apenas reduzido de conhecedores.
Indubitável é tão somente que durante o período do Terceiro Reich ocorreu um deslocamento da ênfase no pensamento de Heidegger, das condições existencialistas da “existência” humana e da sua “autenticidade” ["Eigentlichkeit"] na direção do “desvelamento do ser” enquanto “evento da verdade”.
Sobretudo em “Ser e Tempo” [Vozes], seu livro mais famoso, publicado já em 1927, notamos o quanto o jovem Heidegger já apostava no dinamismo alegadamente liberado na história do “povo”, enquanto origem da verdade. Nesse livro aparece a famosa frase sobre o “destino” do homem que estaria no “acontecimento da comunidade, do povo”: nesse sentido Heidegger quis, ao que tudo indica, experimentar a ascensão de Hitler como uma revolução étnico-racial e fomentá-la com planos ambiciosos para si mesmo, mas sem talento político.
Isso é documentado por textos filosoficamente centrais bem como textos constrangedoramente oportunistas daqueles anos e, sobretudo, pelo estilo de Heidegger na gestão do seu breve reitorado em Friburgo.
Ele promoveu o culto, então incipiente, de vítimas e próceres do movimento nazista; apreciava também que os estudantes e admiradores participassem dos seus seminários vestindo camisas marrons, razão pela qual também fez questão de que, antes de seu discurso de posse de reitor, proferido em 27 de maio de 1933, fosse cantada a “Canção de Horst Wessel” [hino dos nacionais-socialistas no Terceiro Reich].
Uma das razões da renúncia de Heidegger ao reitorado, em abril de 1934, foi o reduzido número de colegas e funcionários do ministério que se deixavam arregimentar no projeto de uma revolução nacional na universidade. Um dos méritos do livro de Emmanuel Faye reside em ter chamado a atenção para a pergunta de Heidegger por “nosso Estado em 60 anos, que seguramente não se sustentará mais no Führer”.

Deslocamento
De início, essa pergunta mirava o futuro do movimento étnico-racial. Mas o consenso dos especialistas aponta para um nítido deslocamento das coordenadas filosóficas desde a “Introdução à Metafísica” [ed. Tempo Brasileiro], o curso do semestre de verão de 1935, publicado somente em 1953, que despertou também um interesse especial por causa das suas numerosas alusões a uma crise do nazismo e da sua filosofia oficial, que há muito tempo não mais incluía a filosofia heideggeriana: “Por fim, o que hoje é apregoado como filosofia do nacional-socialismo”, afirma-se naquele livro, “mas não tem a menor relação com a verdade e grandeza inerentes a esse movimento (a saber, com o encontro da técnica determinada em escala planetária e do homem da Idade Moderna), realiza as suas expedições pesqueiras nessas turvas águas dos “valores” e das “totalidades’”.
Bons argumentos de natureza filológica sugerem que a explicação sobre o nexo entre a “grandeza” do nacional-socialismo e o encontro do homem com a “técnica em escala planetária”, posto por Heidegger entre parênteses, apenas tenha sido escrito nos anos 50, pois em todas as outras passagens correspondentes da “Introdução à Metafísica” a “fúria desoladora da técnica inteiramente desenfreada” é creditada exclusivamente à “Rússia e América”.
A crítica de Heidegger ao nacional-socialismo que se desviara -apenas passageiramente, segundo a indubitável esperança de Heidegger- do seu caminho permanece, de início, concentrada nos sintomas da falta de disposição para a revolução nacional. Somente textos posteriores suportam a impressão de que ele agora acreditava que o próprio nacional-socialismo estava contaminado pela técnica totalmente descontrolada.

Nova ênfase
Mas o significado filosófico da “Introdução à Metafísica” reside no corte especialmente nítido, efetuado nessa obra, de um deslocamento de ênfase partindo das perguntas existenciais pela existência humana até as circunstâncias de eventos epifânicos do desvelamento do ser, do qual se falara apenas muito marginalmente em “Ser e Tempo”.
Pela primeira vez aparece na obra de Heidegger, desde 1935, um tópos que não faz mais emergir por assim dizer teluricamente a verdade a partir do destino do povo, mas a desloca para uma dimensão cuja estrutura hierárquica evoca a encenação da revelação monoteísta. “A “polis” e o sítio da história, o lugar, no qual, a partir do qual e para o qual acontece a história. (…) Salientes no sítio da história, o poeta, pensador, sacerdote e dominador simultaneamente se tornam “apolis”, sem cidade nem sítio, “solitários” estranhos, sem saída em meio ao ente na totalidade.”
Com esse papel dos poetas, pensadores, sacerdotes e dominadores aparece agora uma filosofia que restringirá o papel da existência a “cuidar” com serenidade o ser que se desvela a si mesmo.
Espanta que nos numerosos comentários biográficos e históricos sobre a evolução da filosofia de Heidegger, que não podemos ignorar, praticamente nunca se fala dessa cesura central na história do nazismo, ocorrido entre o “fracasso do reitorado” e o curso do início do semestre de verão de 1935. Refiro-me à destituição do poder e ao assassinato da cúpula da SA em 30 de junho de 1935, na famigerada “noite dos punhais”, identificada pelo próprio Heidegger, em registro retrospectivo, como uma virada.
Aqui ocorreu uma auto-repolarização do nacional-socialismo nos planos da política interna e da ideologia, do totalitarismo “ascendente” da revolução étnico-racial na direção do totalitarismo hierarquicamente “saliente” daquele Estado, que a partir de agora confiaria crescentemente nos serviços de elite prestados pela SS.

Diagnóstico paradoxal
O nacional-socialismo, no qual Heidegger apostara, estava vencido desde o verão de 1934, mas o filósofo ainda não aceitara esse fato no verão de 1935. Tanto mais digno de nota, inclusive mais paradoxal, é o diagnóstico de que na tópica das suas reflexões se processou uma reorientação, que podemos descrever como aproximação objetiva, mas decerto não-intencional, à nova estrutura do entorno político.
Ela seria seguida pouco mais tarde por uma extensão da crítica heideggeriana à técnica ao nacional-socialismo, cuja “grandeza interna” ele não obstante continuou reconhecendo sem mudar de opinião.
Nessa concentração cada vez mais intensa na técnica enquanto destino destrutivo da humanidade mas também crescentemente como lugar do autodesvelamento do ser está uma razão central do fascínio continuado do pensamento heideggeriano até os dias atuais. Naturalmente, podemos fazer especulações infinitas sobre se a sua filosofia também teria enveredado por esse caminho sem a proximidade do nacional-socialismo. Mas podemos mostrar tão-somente que o nacional-socialismo efetivamente desempenhou esse papel central na vida e filosofia de Heidegger.

[Hans Ulrich Gumbrecht é teórico da literatura e professor no departamento de literatura comparada da Universidade Stanford (EUA). É autor de, entre outros, "Modernização dos Sentidos" (34). Tradução de Peter Naumann. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1112200518.htm]