14/06/2008...21:07

Filosofia do Nazismo

Jargão da Autenticidade

Sátira sobre o discurso reitoral de Heidegger, A Auto-Afirmação da Universidade Alemã (1933)

por CHRISTIAN SCHUETZE

Excelentíssimo Senhor Presidente, Senhores Ministros, Secretários de Estado, Relatores, Chefes de Secção e Assistentes, caríssimos homens e mulheres da nossa vida cultural, representantes da ciência, da indústria e dos trabalhadores autônomos da classe média; ilustríssimo público desta reunião festiva, Senhoras e Senhores!

Não é por acaso que estamos aqui hoje reunidos neste dia de celebração. Num tempo como o nosso, em que os verdadeiros valores humanos têm que ser, mais do que nunca, nossa mais profunda inquietação (Anliegen), uma afirmação (Aussage) é esperada de nós. Eu não pretendo apresentar-lhes nenhuma solução patente, mas livremente trazer para a discussão uma série de problemas terríveis que agora se põem em cena. O que precisamos não é de opiniões prontas e incapazes de nos tocar profundamente; o que precisamos é de um diálogo genuíno que nos mobilize em nossa humanidade. É o saber relativo ao poder do encontro (Begegnung), no nível da formação de âmbito humanitário (des zwischenmenschlichen Bereichs), que nos guia juntos até aqui. As coisas que contam têm seu domicílio nesse âmbito humanitário. Eu não preciso dizer-lhes o que penso disso. Vocês todos, que num sentido especial e excelente têm a ver com ‘gente’ (mit Menschen), me entenderão.

Num tempo como o nosso – eu havia dito isso antes – em que a ótica das coisas como que em toda parte começa a vacilar, tudo depende, mais do que nunca, dos indivíduos que conhecem a essência das coisas mesmas, das coisas como tais, das coisas na sua autenticidade (Eigentlichkeit). Nós precisamos de gente aberta e capaz disso. Quem são esses homens? – vocês podem me perguntar, e eu lhes respondo: são vocês! Enquanto aqui reunidos, vocês indicam mais claramente do que o poderiam com palavras, que estão prontos para dar peso à sua inquietação (Anliegen). Eu gostaria de lhes agradecer por isso. E também por vocês, pela sua profissão de fé (Bekenntnis) nessa boa causa, energicamente oporem-se a essa onda de materialismo (Materialismus) que ameça inundar tudo o que nos cerca. Dizendo de forma abreviada: vocês aqui vieram para receber uma indicação do caminho a seguir, para escutar. Vocês esperam desse encontro humanitário uma contribuição para o restabelecimento do clima de humanidade compartilhada, daquele quente aninhamento que parece em grande medida faltar à nossa sociedade industrial…

Mas, o que significa isso para nós na nossa situação concreta, aqui e agora? Pronunciar a pergunta significa colocar a questão. Mas há ainda mais. Significa nos expormos a ela, nos entregarmos a ela. Disso não podemos esquecer. Só que o homem moderno esquece disso muito facilmente na pressa e na engrenagem diária. Vocês, todavia, que pertencem à calma da terra, conhecem tudo isso. Nosso problema brota de uma região da qual somos chamados a cuidar. A salutar perplexidade (Betroffenheit) que emana dessa situação força a abertura de um horizonte que nós não nos devemos obstruir pelo fácil desvio para o aborrecimento. É preciso pensar com o coração e sintonizar no mesmo comprimento de onda a antena humana. Ninguém hoje melhor do que ‘gente’ para saber daquilo que no fim interessa. [SCHÜTZE, Christian. Gestanzte Festansprache. In: Stuttgarter Zeitung, Dec. 2, 1962. Apud: ADORNO, Th.W. Jargão da Autenticidade (Jargon der Eigentlichkeit). 1962-64]