23/05/2008...11:59

De Traduções e Mundos Possíveis

http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Id%E9ias&subsecao=Colunas&idjornal=72

Jornal Opção – Edição de 14 a 20 de março de 2004

O prazer da leitura VII

A tradução não é uma escolha entre palavras, é uma escolha entre mundos

por GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS

Um dos grandes prazeres da leitura, como tenho dito várias vezes, é a leitura em outras línguas. Quando comecei meus estudos filosóficos, minhas preocupações estavam mais voltadas a questões da filosofia moderna e contemporânea. No entanto, desde meus estudos de doutorado na Universidade de Indiana, meu interesse pela filosofia antiga foi crescendo cada vez mais. Tal interesse aumentou quando cheguei ao Brasil, o que me levou, com grandes sacrifícios, a tentar aprender o grego clássico e ler os filósofos antigos no original. É basicamente isso que venho fazendo nos últimos anos.

O assunto que me ocupa há várias semanas, portanto, está intimamente relacionado ao prazer proporcionado pela descoberta desse mundo criado, visto, pensado e falado naquela língua, a dos antigos gregos. Dependendo dos pensadores que tenhamos em mente, 2.500 anos ou mais nos separam de suas obras, e de sua língua. Mas quão separados realmente estamos de seu modo de pensar e de seu mundo mental? Talvez não muito, em aspectos fundamentais.

Eu já tinha planejado começar meus estudos de grego antigo na minha última estada nos Estados Unidos (uns sete anos atrás), quando comprei um livro de texto para o efeito. Quando voltei, sempre havia alguma razão que me levava a adiar o começo desse tão almejado projeto. O livro ficou empoeirando nas estantes do meu apartamento por um bom tempo. Até que, lendo e relendo Platão, no que é considerada uma tradução muito boa, deparei-me com o termo “utopia”, o que me deixou perplexo. Fiquei assim por boas razões, o tradutor decidiu não fazer uma nota de rodapé esclarecendo o leitor de que o termo não foi usado por Platão nem poderia tê-lo usado, já que a palavra não existia entre os gregos daquela época. O leitor poderia ter sido lembrado que o termo fora cunhado (para chegar a ter o sentido que tem hoje) no início do século 16! Com efeito, o termo foi inventado pelo filósofo inglês Thomas More e apareceu pela primeira vez na obra que leva aquele nome, Utopia, em 1516. O novo vocábulo é a junção de duas palavras gregas que, juntas, significariam “não-lugar”. Utopia, na obra de More, é o nome de uma ilha, a ilha, então, do não-lugar, a ilha do lugar nenhum, a ilha que não existe. Daí, claro, pode-se inferir que é a ilha que não existiu, não existe, nem existirá simplesmente porque jamais poderia existir. Para um contemporâneo, “utopia” já adquiriu aquele significado, na maioria das vezes pejorativo, de “sonho irrealizável”, “projeto impossível”, que não é o que Platão necessariamente p ensava. Fiquei chocado, em síntese, porque nem todo leitor tem que saber disso, isto é, que Platão não usou esse termo porque não poderia tê-lo usado. Se o leitor consulta um dicionário, muito provavelmente lerá que “utopia” vem de duas vozes gregas que significam tal e tal. O que o levaria, naturalmente, a imaginar que o termo está em Platão. Mas não está nem poderia estar.

O problema é que se tratava de uma tradução considerada muito boa. Pois se era uma boa tradução e, mesmo assim, tinha esse e outros problemas importantes de tradução, que esperar de outras que não o são? Isso me mostrou a necessidade de começar imediatamente meu aprendizado de grego, o que não deixou de ser um desafio que chegou a parecer uma muralha infranqueável. Foi e continua sendo uma empreitada difícil, sem dúvida, mas não impossível.

Depois de ter adquirido um certo domínio dos conhecimentos gramaticais necessários, nas minhas primeiras tentativas de traduzir do grego clássico tendia a procurar, para cada palavra do grego, uma do português, do inglês, do alemão ou do espanhol. Esse erro, talvez inevitável, parece estar relacionado à idéia mencionada num artigo anterior segundo a qual o mundo tem objetos e estes possuem suas etiquetas. Bastaria aprender as etiquetas das outras línguas para entender outros idiomas. Mas não é bem assim. O mundo não é constituído por partes. É uma totalidade que, ao mesmo tempo em que condiciona a linguagem, faz parte dela e por ela é construído, moldando aos poucos nossa mente. Fui assim percebendo que o modo correto de traduzir era fazê-lo em blocos semânticos, não privilegiando as partículas. Isto é, o correto é traduzir, para cada frase grega, uma frase que dissesse o mesmo numa dessas línguas. O mesmo ou o mais próximo que seja possível. Ainda assim há problemas, porque a estrutura do grego intercala as partes das frases em outras frases de uma maneira pouco intuitiva para nós. Além disso, a ordem das palavras não corresponde ao que entendemos por ordem compreensível, por exemplo, no português. Vou dar um exemplo. O inglês e o alemão guardam resquícios dessa estrutura grega no uso de prefixos e preposições. Pensemos no inglês, que é mais conhecido. Uma simples pergunta que em português ou espanhol se faria respeitando a seguinte ordem: “Com quem vai você?” ou “Con quién va usted?”, em inglês se diria “Who are you going with?”. O “com”, ou seja, o “with”, vai no final. Uma tradução literal que também respeitasse a ordem daquela pergunta resultaria num cômico: “Quem estás tu indo com?”, o que reproduz a ordem, mas não o pensamento. Trata-se, no entanto, de respeitar a idéia, o pensamento, mas também o estilo, incluídas as nuanças e matizes — o que falando se consegue com o tom. Sim, o tom pretendido pelo autor: se for sarcástico ou irônico, se for dito como brincadeira ou como grosseria etc. A tradução deve procurar resgatar, então, não só a idéia, o pensamento, mas o tom, o calor, a emoção pretendida ou insinuada pelo autor, o implícito por trás do explícito. Na tradução, no entanto, essas são verdadeiras armadilhas.

Os diálogos platônicos são um prato cheio para armadilhas desse tipo e por várias razões. Uma delas é, justamente, o fato de Sócrates ter sido extremamente irônico. E da parte de seus interlocutores não é diferente: ironia vai, sarcasmo vem. Quem pensa que a filosofia é repleta de textos nos quais só se encontram os frutos de uma inteligência fria, sem emoção nem paixão, deve ler os diálogos platônicos e se despertará para uma outra realidade. Platão, aliás, não foi o primeiro nem o último a escrever passagens cheias de profunda emoção. Algumas delas — como as últimas passagens do Fédon e que descrevem o que supomos terem sido os derradeiros momentos da vida de Sócrates — são mesmo comovedoras.

As primeiras linhas de um dos primeiros diálogos de Platão, o Eutífron, mostram como as nuanças da linguagem e o colorido com o qual o autor quer pintar a cena com palavras podem passar despercebidas, dependendo de quem é o tradutor. Na primeira cena desse diálogo, Eutífron encontra Sócrates na porta do tribunal, longe de seu lugar habitual em Atenas, o Liceu, onde o filósofo costumava interrogar seus interlocutores levando-os ao desespero. E diz: “Que novidade ocorreu, Sócrates, que tu, deixando para trás tuas habituais ocupações no Liceu, venhas a te ocupar aqui, perto do Pórtico do rei?”. A tradução para o português de Márcio Pugliesi e Edson Bini é muito semelhante à que acabo de dar, com a diferença de preferirem “que coisa extraordinária aconteceu” a “novidade”, e “conversações habituais” a “ocupações habituais”. Mas no original não se diz nem “extraordinária” nem “conversações”. Sabemos, porém, que as ocupações de Sócrates eram essas conversações, e os tradutores querem já passar a idéia ao leitor de que algo de muito grave deve ter ocorrido, quando o original omite isso. Uma tradução clássica para o inglês, a de Harold North Fowler, de 1914, prefere “strange things” e “accostumed haunts” para “novidade” e “ocupações habituais”. “Haunt”, porém, está muito mais para “lugar freqüentado” do que para “ocupação freqüente”. Já a tradução de Hugh Tredennick, de 1954, publicada pela Penguin Books, escolhe esta outra versão: “What revolution has taken place in your affairs…”, preferindo “que revolução tem acontecido nos teus assuntos” às mais ponderadas “que novidade”, “que coisa extraordinária” e “coisa estranha”. A palavra que pode ser traduzida por “novidade” ou “coisa estranha” (neôteron), possui, de fato, o significado de “mudanças políticas revolucionárias”, como consta do afamado Greek-English Lexicon de Liddel & Scott, cuja primeira edição é de 1889. Mas, penso, o contexto do diálogo ainda não permite uma tradução dessas. De qualquer forma, o leitor que tenha em suas mãos essas várias traduções, e possa compará-las com o original, perceberá a diferença na tradução que o leque enorme de sentidos pode permitir. O tradutor, além de intérprete, é uma espécie de co-autor. É que as palavras escondem mundos e, ao traduzir, podemos escolher qual deles criar.

2 Comentários

  • Fascinante!

  • Uma das coisas difíceis, professor, é se achar poucas pessoas que tenham estudado o grego clássico para trocarmos impressões.Até mesmo na internet é difícil. Seria legal se houvesse alguma comunidade de estudos da língua grega, o Sr. conhece alguma?


Fechado para comentários.