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21/05/2008...11:08

“patologias da crença”

http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=3F5C0A0E-F731-42AA-AC32-4399855F0D25&nwsCode=F3A54981-90AA-4136-8F0D-2FBA09FD0F9F

Revista Cult 122

Entrevista com Jean-Claude Guillebaud

Para o ensaísta francês, é preciso combater todo tipo de clericalismo, principalmente o econômico

por EDUARDO SOCHA

A palavra está um pouco fora de moda, mas Jean-Claude Guillebaud, 68, é acima de tudo um polímata. Recusando a estreita visão de mundo que caracteriza a fragmentação contemporânea do saber (hoje celebrada principalmente na figura do “especialista”), Guillebaud não teme escrever sobre tudo aquilo que considera fonte dos grandes impasses morais vividos pela condição pós-moderna. Sim, parece genérico demais, e tal ousadia envolve certamente o perigo de encontrar, a qualquer momento, o ridículo de um pensamento diletante e estéril. Porém, nos seis livros lançados até agora – que tematizam desde questões bioéticas até as consequências dos movimentos libertários e hedonistas da década de 1960 e 1970, passando pelas convulsões atuais do embate entre fé e razão no início deste século – Guillebaud apresenta a destreza intelectual garantida pelo intenso trabalho de leitura e pesquisa, ou seja, a destreza de quem já superou há algum tempo o risco de diletantismo.

Antes de se tornar um dos ensaístas mais respeitados na França (venceu o prêmio Jean-Jacques Rousseau e o disputado prêmio Renaudot na categoria ensaio), Guillebaud foi repórter especial do jornal Le Monde e editor de humanidades das Éditions du Seuil, de onde saíram os livros de Lacan, Barthes, Deleuze, Morin, Serres, entre outros. A experiência consolidada por estas duas atividades ao longo de mais de trinta anos resultou num estilo claro, dinâmico, carregado de estatísticas, constatações de fatos e de detalhes do dia-a-dia, que consegue dialogar, ao mesmo tempo, com as correntes sociológicas e filosóficas mais polêmicas da cena atual.

Seu último livro, A força da convicção (Editora Bertrand Brasil), lançado há poucos meses no Brasil, faz parte desse projeto cuja unidade pretende fornecer um amplo diagnóstico sobre as grandes mutações da pós-modernidade. Dividido em três partes, o autor examina inicialmente o suposto esvaziamento das crenças no âmbito moral e político, que teria mesmo motivado o surgimento de expressões como a “era do vazio” e o “fim da história”. Guillebaud constata que as antigas convicções, na realidade, deram lugar a “patologias da crença” e defende a necessidade de uma reflexão de essência teológica para compreender as formas regressivas de credulidade que se disseminam com o avanço do capitalismo global: a idolatria pelo individualismo de consumo, o dogmatismo dos processos de privatização, a cultura transitória do zapping e da devoção publicitária, a transcendência religiosa presente nos discursos elogiosos à globalização, são apenas algumas delas. Na terceira parte do livro, o autor propõe o fortalecimento institucional de crenças, mas de crenças paradoxalmente amparadas na razão, distantes do dogmatismo e da idolatria. Pois o que interessa a Guillebaud é atacar toda forma regressiva da religiosidade, não a própria religiosidade, denunciando assim o caráter absurdo do ateísmo militante.

Nesta entrevista, gentilmente concedida à CULT por telefone, Guillebaud conversou sobre os principais temas do seu último livro: a crença patológica na economia, o terrorismo fundamentalista, a falta de projetos da União Européia, terrorismo, e principalmente a reativação contemporânea do debate entre fé e razão.

CULT – O senhor foi repórter durante muitos anos do jornal Le Monde e atualmente contribui para a revista Nouvel Observateur. Como sua experiência no jornalismo influenciou sua atividade de ensaísta?
JCG – Trabalhei como jornalista até meados dos anos 80, quando resolvi abandonar a carreira para coordenar a seção de Ciências Humanas das Editions du Seuil, em Paris. Nessa época, tive contato com os trabalhos de Edgar Morin, Michel Serres, René Girard, acompanhando de perto todos os grandes colóquios internacionais junto a estes pensadores, inclusive dois encontros no Brasil, em Campinas e no Rio. Fui me envolvendo cada vez mais com esse trabalho editorial, cobrindo deste antropologia até ciências cognitivas. Depois de dez anos, disse para mim mesmo que talvez valesse a pena fazer meus próprios livros, tirando proveito daquilo que aprendi no jornalismo, ou seja, ser claro e tornar acessíveis algumas das questões contemporâneas que à primeira vista nos parecem difíceis. Então comecei este projeto de escrever sobre aquilo que chamo de distúrbios contemporâneos, as grandes mutações que estamos vivendo. Comecei a publicar em 1995, e A força da convicção é o sexto livro deste projeto.

CULT – Já no início do livro, nota-se que seu método rejeita toda interpretação setorizada da realidade, propondo uma visão totalizante, quer dizer, indo na contra corrente da tendência contemporânea que privilegia a figura do especialista. Esse tipo de abordagem faz alusão ao conceito do “pensamento complexo”, de Edgar Morin. De que forma Morin orientou seu trabalho?
JCG – Fui editor do Morin por quase vinte anos, então conheço muito bem a produção dele. Morin sempre se preocupou com esta fragmentação crescente do conhecimento. Ou seja, quando as discussões se limitam a pensamentos parciais e especializados, quando os economistas só falam de economia, os geneticistas só falam de genética, os sociólogos só de sociologia, corremos o risco de não dispormos mais de uma representação consistente do mundo. O verdadeiro perigo, que Morin e eu discutíamos na época, é aquilo que hoje se convenciona sob o nome de reducionismo, o modo que cada um tem de explicar tudo através de sua própria especialidade.

CULT – Seu livro critica as teorias recentes que afirmam um certo esgotamento das crenças no plano moral e político, sobretudo após os movimentos libertários dos anos 1960 e após o colapso político do antigo bloco socialista; ou seja, a tese de que estaríamos vivendo uma “era do vazio”, segundo a expressão de Gilles Lipovetsky, ou ainda, o “fim da história”, segundo a de Francis Fukuyama. Qual a ilusão fundamental nestas teorias que o senhor procura denunciar?
JCG – A ilusão fundamental é acreditar que uma sociedade pode se organizar apenas mediante um certo padrão de racionalidade. Nos anos 1980, acreditaram – e essa era justamente a tese de Lipovetsky, mas também de muitos outros – que a crença era um fenômeno arcaico, que iria desaparecer em pouco tempo. Pensaram que já fazia parte do passado, e que as sociedades modernas seriam governadas não mais por crenças, mas pelo saber tecnocientífico, de um lado, pelo jogo dos interesses e pelo jogo transitório das convicções, de outro. Mas foi um erro espantoso ter cogitado isso, pois é evidente que quando as crenças são expulsas pela porta da frente, voltam corrompidas pelas janelas…

CULT – É o que o senhor chama de “patologias da crença”?
JCG – Sim, voltam da pior forma possível, como as seitas New Age, a tirania publicitária, o fascismo do marketing. Ou seja, em vez de grandes religiões, seitas. Em vez de padres, gurus. É ilusório pensar que isso se refere a credulidades inofensivas. Na Europa, aumentou enormemente nos últimos anos a onda do esoterismo, da paranormalidade, da astrologia, destes abrigos da fé. Cada dia novas formas de credulidade aparecem. É como se houvesse uma carência e uma demanda de crenças que não pudessem mais ser satisfeitas. Fiquei muito surpreso ao constatar estatisticamente essa proliferação de credulidades. Mas existe algo mais grave do que isso. Boa parte do conhecimento que geralmente se apresenta como saber racional, por exemplo, o economicismo, carrega uma série de crenças mal disfarçadas, ancoradas na mais ingênua credulidade. É flagrante.

CULT – Como assim?
JCG – O discurso econômico está todo impregnado de crenças. De início, a moeda já está fundamentada numa crença, num acordo social. Até aí, sem problemas. Mas quando a economia passa a se apresentar como ciência, como se explicasse algo próprio à natureza das coisas, aí se trata de uma impostura. Aqui na França, toda semana aparecem artigos nos jornais falando sobre a disposição moral do cidadão francês, resumindo, se o cidadão está alegre ou triste. Nesta semana, por exemplo, o humor do francês está em baixa, e os editorialistas de jornais importantes, como Le Monde e Nouvel Observateur, comentam esse dado com uma seriedade que me assusta. O curioso é que ninguém se pergunta como este dado é calculado. Aí você faz uma busca rápida no site do Institut National de la Statistique et des Études Économiques (órgão público para estatísticas) e descobre que este indicador para a disposição moral do francês, acredite ou não, é calculado de acordo com seu desejo de compra. Quer dizer, se o cidadão está com vontade de comprar, então significa que está de bom humor. Mas não poderíamos dizer o contrário? Afinal, quantas pessoas não falam “ah, hoje estou deprimido, acho que vou comprar um par de sapatos”. É uma crença tão tola quanto a crença em cartomantes, mas isso não impede que ela apareça em jornais sérios e se apresente como verdade científica. Veja outro exemplo. Todo dia, mas o dia inteiro mesmo, a mídia fala sobre o tal crescimento econômico. Dizem à população francesa que se o PIB crescer 2,2% em 2008, será o paraíso. Se a taxa for de 1,8%, será o inferno. A gente tem a impressão às vezes de que a taxa de crescimento substituiu o purgatório. Mas aí a gente descobre como se calcula o crescimento e percebe que a metodologia utilizada é no mínimo estranha. O naufrágio do petroleiro “Erika” na região da Bretanha, um dos maiores desastres ecológicos do mundo, poluiu cerca de 500 km da costa francesa. O processo judicial contra a empresa responsável começou recentemente e provavelmente ela será condenada. Penso que o naufrágio de um petroleiro que polui 500 km da costa marítima, mata mais de 200 mil pássaros, é uma catástrofe enorme, não? Pois bem, do ponto de vista econômico, não foi. Na verdade, foi algo formidável. Porque o naufrágio fez aumentar a atividade de várias empresas de limpeza e de setores associados, com seus caminhões e equipamentos para retirar os dejetos, o que ativou um ciclo de produção altamente lucrativo. Tanto que contabilizaram o desastre ecológico como algo positivo para o crescimento econômico.

CULT – Não há revisão destes indicadores? O governo mesmo não reavalia seus parâmetros?
JCG – É difícil entender como isso acontece. O presidente Sarkozy chamou agora dois economistas bastante conhecidos, dois Prêmios Nobel de Economia, Amartya Sem e Joseph Stiglitz. Ele deu a missão de revisar os parâmetros que medem o crescimento e reconsiderar principalmente o “critério qualidade de vida”. Quer dizer, foram necessários mais de 30 anos para se dar conta disso. Tudo para mostrar que esses números do economicismo, que se apresentam diariamente como dados científicos, não passam de credulidades temporárias.

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