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Entrevista com Paulo Freire

por NYE RIBEIRO SILVA

Com simpatia e simplicidade, Paulo Freire recebe a Dois Pontos em seu escritório em São Paulo, onde, sentado entre montanhas de livros, fala sobre sua grande e apaixonante experiência de educador, sobre a prática educativa e as relações entre educadores e educandos. Ali, num diálogo face a face, seus pensamentos fluem com clareza e nitidez, como água de uma fonte. Cada gesto seu revela uma idéia gigante, e as palavras vêm carregadas de vivência e sabedoria - palavras geradoras, palavras vivas.

Percebo-me diante de um profeta da “pedagogia da esperança” - um pensador comprometido com a vida, com a prática, cujas idéias vão transpondo fronteiras e alcançando novos continentes. Seu discurso cativante nos conduz a um exercício profundamente dialético, resvalando conhecimento aliado à experiência fecunda, construída pela práxis de quem - em meio a tantos desafios - só reforçou o seu amor pela humanidade e em nenhum momento perdeu a “estranha mania de ter fé na vida”.

Sem dúvida, o professor Paulo Freire figura hoje entre as mais acatadas personalidades do País, e seu papel de educador e filósofo da educação é reconhecido no mundo inteiro. Constantemente tem sido convidado a proferir conferências em inúmeras universidades dos Estados Unidos, da Europa e em vários países da África, onde também goza de grande prestígio.

Até mesmo durante os seus longos anos de exílio, Freire esteve sempre entre nós, registrando suas experiências, escrevendo, com os pés no Chile e o coração no Brasil, para onde deveria voltar e dar continuidade ao seu projeto: a educação como prática concreta de libertação e construção da História, em que educadores e educandos assumem o papel de agentes de mudança - “Uma sociedade onde a exigência de justiça não signifique nenhuma limitação de liberdade e a plenitude da liberdade não signifique nenhuma restrição do dever de justiça”.

Hoje [1996], com 74 anos, considera-se um aprendiz. Um ser inacabado, disposto a percorrer novas etapas de sua permanente aprendizagem. Numa posição lúcida, de quem nunca perde a consciência crítica da realidade, reafirma a sua esperança no Brasil, no homem e, especialmente, no educador - aquele que ensina aprendendo. E continua sonhando! “O sonho faz parte natural da minha presença no mundo”, afirma. Paulo Freire sonha com uma sociedade mais humana, na qual o amor seja possível. Paulo Freire sonha com a invenção de uma sociedade ética, estética, livre e decente.

D. P. - Quando se fala em alfabetização de adultos, no Brasil, necessariamente se fala em Paulo Freire e em seu trabalho como professor-educador, ligado à educação popular: Como foi que tudo começou?

Freire: Essa questão me traz de volta uma pergunta que eu mesmo já me fiz algumas vezes: como é que cheguei até aqui? Como é que comecei a girar a minha vida em torno de um certo núcleo de preocupações - no fundo preocupações pedagógicas e políticas - ligadas obviamente ao problema da produção do conhecimento, à questão do ensino, do aprender propriamente dito? Começaria dizendo a você que eu não acredito que ninguém nasce sendo isto ou aquilo, não acredito que ninguém nasce mais ou menos predeterminado. O que eu acho é que todos nós, homens e mulheres, somos “seres programados para aprender”. Repetindo a afirmação do grande cientista - François Jacob, numa entrevista que ele deu ao Correio da Unesco, eu acrescentaria: somos seres programados para aprender; mas também para ensinar. Eu não separo jamais uma coisa da outra, e não tenho dúvida de que, milenarmente, no campo da História, foi exatamente essa percepção que nos levou a descobrir que era possível ensinar. Isto é: o ensino não foi o começo, o começo foi o conhecer, foi a aprendizagem. Foi aprendendo que a gente descobriu que era possível ensinar a aprender. Eu parto daí. Agora, enquanto ser programado para aprender e para ensinar, e portanto para conhecer, eu posso me fazer na minha prática social um profissional especializado exatamente em ensinar e aprender.

É interessante observar certos gostos que as crianças revelam em seus brinquedos. Dizemos, por exemplo: este menino é um médico nato, veja como ele gosta de brincar de medicina, veja como ele, na sua “prática de médico”, gosta de fazer o tratamento de uma ferida que não houve. Tudo indica que esse menino será um médico, ele já nasceu um médico. Não. Eu acho que o que acontece é que nós, na infância - de um lado programados para saber e condicionados pelo nosso aparelho genético; e de outro condicionados pela cultura de que fazemos parte - expressamos certos gostos e certas coisas que chamamos tendências.

E é exatamente vivendo essa herança com que chegamos ao mundo, e juntando a essa herança genética a herança cultural, é vivendo a unidade diversa dessas heranças, a contradição delas na prática de que fazemos parte com os outros, que nós vamos nos inclinando cada vez mais para isto ou para aquilo. Ninguém nasce feito, a gente se faz, a gente se constrói social e historicamente. E eu não poderia escapar a isso. Tornei-me professor enquanto aluno. E foi gostando de ser aluno, gostando de exercer a minha curiosidade, de procurar a razão de ser dos fatos e dos objetos, é que fui gostando de aprender e, dessa forma, descobrindo também o gosto de ensinar. Então, eu não cheguei por acaso à docência. Cheguei, vivenciando um certo tipo de experiência que me constituiu professor, e é isso que eu sei fazer até hoje.

D. P. Educação e política - como é que o senhor transpôs o campo da educação para o campo da política - um caminho natural?

Freire: Aí eu discordaria totalmente do verbo que tu usaste. Eu não transpus coisa nenhuma, eu simplesmente vivi plenamente o que já é. O que eu quero dizer é que a prática educativa é também uma prática política. Fazendo-se educação, necessariamente, se faz política. Faz parte da natureza do ser, da prática educativa e docente, a natureza política da educação. É isso que eu chamo de “poeticidade” da educação - a qualidade de ser política que a educação tem. De tal maneira que não é por uma pura teimosia do educador que se faz política fazendo-se educação. A prática educativa é tão necessariamente política quanto é gnosiológica. A prática educativa não pode escapar à produção do conhecimento. É tão necessariamente gnosiológica quanto ética e quanto estética. A prática educativa tem uma “boniteza” nela mesma, como também uma moralidade indispensável. E é por isso que a prática educativa vai mais além dela mesma, o que vale dizer que não há prática educativa que não gire em torno de sonhos e de utopias.

Imagine um educador que me diga: quando ensino sintaxe não tenho outra preocupação senão a de que o aluno aprenda a sintaxe do verbo haver, por exemplo. Eu, enquanto professor, quando ensinava o aluno a conjugar o verbo haver, me preocupava intensamente em que o aluno fosse ético. E não apenas que ele falasse gramatical e sintaticamente certo.

D. P. E como exercer essa prática educativa gnosiológica? Como transportar tudo isso para a prática?

Freire: Na prática, o que vale é o próprio testemunho que o educador dá de sua coerência. Por exemplo, a professora que jamais faz um pacto com o aluno para não dar aula. Que testemunho de moralidade pode um educador dar a seus alunos se, aproveitando-se de um feriado, ela já sugere, marotamente, que os alunos não venham à aula. Ou, que testemunho ético pode dar uma professora que dá aula sem conhecer o conteúdo daquilo que vai transmitir? Um professor que desrespeita o sonho, o apetite de vida do aluno? Ou, ainda, que tenta impor ao aluno sua opção política? Este é um testemunho autoritário, desrespeitoso, que é feio e, portanto, não é estético.

D. P. - E nem ético, não é?

Freire: E nem ético, porque a estética anda muito perto da ética. Dificilmente você tem uma coisa feia, decente.

D. P. - Autoridade e cumplicidade - um binômio desejável? Como estabelecer um clima de cumplicidade em sala de aula, que venha favorecer a aprendizagem sem anular a autoridade do professor?

Freire: Cumplicidade enquanto companheirismo, que não deve resvalar para a complacência. Cumplicidade que é sinônimo de participação - uma presença afetiva e sobretudo ética. Que se manifesta através de uma curiosidade que vai se tornando cada vez mais crítica na busca em comunhão que devem fazer educador e aluno. Eu acho que nesse sentido ela será eficaz, estética, ética, politicamente e gnosiologicamente. É o professor que não tem a pretensão de ser igual ao aluno, porque isso é uma coisa falsa, mas que consegue ser cúmplice.

É importante perceber que a cumplicidade não nivela. Ela significa lidar com a diferença de forma respeitosa e democrática. Quer dizer: eu sou diferente do aluno, mas não permito que a minha diferença se transforme em antagonismo. Sou diferente, mas sou tão sujeito quanto ele no processo de aprender e de ensinar.

Tenho uma autoridade diferente da autoridade do aluno, uma autoridade que se funda num princípio ético e democrático. Eu até diria, em certo sentido, que a minha autoridade tem uma invenção da liberdade do aluno, pois a liberdade do aluno precisa da autoridade do professor. Ela é indispensável ao seu crescimento, mas também pode atrofiá-lo ao exacerbar-se enquanto autoridade. O grande empenho ético e democrático da autoridade é limitar-se para poder limitar a autoridade do educando.

E é exatamente esse corpo de relações diferenciadas e contraditórias entre a liberdade e a autoridade, entre o que já sabe o saber sabido e que ainda não sabe o saber sabido - é isso que constitui a cumplicidade entre o educador e educando, fazendo com que os dois continuem crescendo.

D. P. - Quais seriam as bases para o diálogo, para uma relação afetiva entre educador e educando?

Freire: Tem gente que pensa que o diálogo é pura técnica, ou então, uma espécie de favor que o educador faz ao educando. Para mim, o diálogo é uma exigência da minha finitude consciente. Quer dizer, no fundo mulheres e homens somos seres históricos e, como tais, seres inacabados. Acontece que a árvore do meu quintal, sendo um ser vivo, é também um ser inacabado, assim também como o casal de pastores-alemães que tenho ali. Mas há uma diferença fundamental entre o meu inacabamento histórico e o deles: é a consciência que dele tenho. Quer dizer: eu sou uma inconclusão que se percebe como tal. E é exatamente a percepção de nossa inconclusão que nos transforma em seres necessariamente educáveis. Eu não sou educável porque a professora, o papa ou o filósofo disse que devo ser. Sou educável porque sendo inacabado sei que sou. Seria uma contradição enorme que, sendo e eme reconhecendo como um ser inacabado, eu não me inserisse num processo de busca.

D. P. - Há alguns anos o senhor vem sendo considerado por muitos brasileiros, especialmente os educadores, como o profeta da Pedagogia da Esperança. O que tem a dizer sobre isso?

Freire: Na questão anterior eu explicava que a educação é exatamente esse processo de busca. E é por isso que, necessariamente, ela é esperançosa. Eu diria até que, mais do que ela - a existência humana é naturalmente esperançada. E apesar de todas as razões diárias que todos nós temos para perdermos a esperança, a desesperança na existência humana é acidente e não necessidade.

Sei que um brasileiro esperançado aos 74 anos, como é o meu caso, é algo espantoso. Com a sem-vergonhice que se generalizou neste país, com a falta de pudor, a falta de respeito à coisa pública… Não se pode assistir a um programa de notícias no Brasil, por mais desvirtuados que sejam todos eles; não se pode ler um jornal sem que você se depare com um permanente jogo de desrespeito à coisa pública, com falcatruas, acusações falsas. É a polícia matando mais do que os bandidos… enfim, são contradições terríveis!

Sei que é muito difícil manter a esperança num país como este. Não só num país, mas num mundo como este! É difícil, mas é absolutamente fundamental que se mantenha a esperança. Aos 74 anos eu posso afirmar que tenho um segundo de desesperança para, logo em seguida, lutar contra a minha própria desesperança e me impor a mim mesmo o clima fundamental da esperança.

Claro! Pois, se eu sou um ser inacabado e inserido num permanente processo de busca, eu não posso buscar sem esperança. O processo de busca é em si mesmo esperançoso e se define como a esperança que se vive. Não importa que você busque algo que não encontre, mas que busque sempre com a esperança de encontrar. A esperança deve fazer parte, inclusive, do processo de buscar.

D. P. - Em seu livro Educação e mudança o senhor combate o pessimismo sociológico - que afirma que “a educação acaba reproduzindo mecanicamente a sociedade”- e enfatiza a relação educador-educando, apontando o educador como o grande agente de transformação social. Como é que o senhor vê essa questão no contexto atual da educação do Brasil?

Freire: Eu falava há pouco sobre a esperança. Pois educação é isso. A prática educativa é uma prática política por natureza, mas, por natureza, é também uma prática esperançada. A prática docente exige de nós testemunhos permanentes. Acredito que o grande caminho da educação está muito mais no discurso do corpo do que no discurso da voz. O que não significa que não fale para se conformar, para informar e para formar. Mas o que eu quero dizer é que a fala que contradiz o gesto não tem força. É preciso haver uma indispensável coerência entre o que se diz e o que se faz - o meu discurso não pode diferenciar-se do meu gesto. Meu discurso tem que ser coerente com o meu corpo. A maneira como o meu corpo se move no mundo tem que ser coerente com o discurso que fala do movimento do mundo.

Agora, ao mesmo tempo, eu acho que nós, educadores e educadoras deste país, precisamos nos mobilizar, precisamos nos organizar e precisamos brigar. Eu também acredito muito na briga!

D. P. - Então, o senhor é a favor do diálogo e, ao mesmo tempo, da “briga”?

Freire: Sim. Houve quem pensasse que, por defender o diálogo, eu negasse o conflito. Não. Eu jamais neguei o conflito. O conflito está aí e é fundamental no processo de desenvolvimento, no processo histórico.

A briga me faz, a briga me constitui, a briga me forma; ela é pedagógica. O que eu acho é que, como a briga é histórica, a forma de brigar muda. Por exemplo, no momento atual, com a globalização da economia é preciso que a classe trabalhadora invente novas maneiras de brigar. O que ela não pode é parar de brigar. A forma como ela brigou há vinte anos atrás não faz mais sentido.

A classe docente precisa também reinventar suas brigas. Precisamos, todos nós, brigar para que sejamos mais decentemente tratados. Há um desrespeito vergonhoso e aviltante do Poder Público neste país, desde que inventaram a sociedade brasileira até hoje, com relação à educação de modo geral e com relação à prática docente. A história da educação brasileira é muito clara nisso.

Quem quiser se enfronhar com relação ao desrespeito do Poder Público com a tarefa pedagógica é só ler um pouco sobre a história do Brasil. A briga da gente tem que ser tal que, um dia, nenhum homem do governo tenha mais a coragem e o direito de fazer o seguinte discurso: os professores têm razão: ganham pouco, mas nós não temos dinheiro. Esse discurso precisa ser proibido. E quando eu digo proibido não é com a ação da polícia; é não haver mais condição ética nenhuma, nem política, para que um chefe de Estado possa fazer esse discurso. E eu não tenho dúvida nenhuma de que é possível chegar a esse dia se nós brigarmos, mas se brigarmos coerentemente e ganharmos a compreensão da sociedade civil.

D. P. - Uma briga para que a educação se torne prioridade neste país? Este é um sonho possível?

Freire: Sim. Eu defendo a tese de que um bom governo é aquele que é “insanamente são”. Ou seja: um governo “loucamente sadio”. Eu acho que a sanidade não existe só nela, existe na loucura também. Seria preciso que tivéssemos governos que no seu discurso de candidatura dissessem, por exemplo: se eu for eleito vou pagar mil reais a uma professora que inicia sua carreira docente. E naturalmente o seu secretário de finanças vai dizer: Você está louco? E a resposta será: Não. Eu estou louco é para poder ser são.

(Com essas palavras, sei que os financistas estarão rindo de mim amanhã, mas eu também estarei rindo deles!). Mas eu não tenho dúvida nenhuma de que esse é um problema de decisão política. Não é possível que alguns profissionais ganhem tão distantemente do que ganha uma professora. A prática docente é ou não é prioritária neste país? E quando é que ela vai ser prioritária?

Eu acho que se nós orientássemos a política de gastos do Brasil, se fechássemos alguns projetos - que me perdoem agora os cientistas e os técnicos - mas, quem sabe, se fechássemos, por exemplo, este projeto da Amazônia, que custa bulhões, e jogássemos esses bilhões durante quatro anos na educação deste país. Veja o exemplo do Japão - ele passou um século investindo em educação. Eu não estou querendo que se faça aqui a educação do Japão - a compreensão da disciplina do japonês não é a nossa. Mas a questão é a prioridade. Educação e Saúde têm que ser prioridade, e a prioridade se expressa através da verba. Prioridade apenas no discurso, prioridade apenas na regulamentação não tem valor algum. Eu quero ver é prioridade no orçamento. Eu quero saber é se temos dinheiro para investirmos na formação permanente deste corpo docente, para reorientarmos o trabalho das universidades deste país - num país de analfabetos, a universidade não pode deixar de se preocupar com a educação de base, com a alfabetização. A alfabetização é uma coisa seríssima. É um dos capítulos fundamentais da filosofia geral de educação no Brasil.

E para concluir esse meu discurso raivoso - eu acho que nós, educadores brasileiros, precisamos proclamar a nossa indignação. Eu não morreria em paz sem proclamar que sou um pedagogo indignado.

D. P. - Qual a sua posição com relação aos avanços tecnológicos do País e aos investimentos que vêm sendo feitos nesse sentido?

Freire: Uma das preocupações, enquanto pedagogo e enquanto homem, que me acompanha desde o início de minhas atividades, é exatamente esta que eu chamo de humanizante, de humanista. Quero, porém, fazer um parêntese para dizer que a minha postura adocicada, açucarada; a minha postura humanista não tem nada beligerantemente contra a tecnologia e contra a ciência. Eu não nego a tecnologia e nem me oponho a ela. A minha posição é sempre a de quem suspeita, de quem se pergunta, porque é, de quem sabe que os avanços das revoluções tecnológicas pode também corresponder algo negativo do ponto de vista da presença humana no mundo.

Isso não significa que será sempre negativo, de jeito nenhum, pois a tecnologia também é obra dos homens e das mulheres. A tecnologia é invenção nossa, mas é preciso estar alerta para os avanços tecnológicos e seus efeitos. A modernização, às vezes, nos escraviza ao invés de contribuir para a nossa libertação. Daí a necessidade da clareza da posição política do educador e da sua coerência. Se eu sou a favor da liberdade, da desocultação, eu preciso saber usar as invenções tecnológicas a meu favor, como instrumento de crescimento de minha curiosidade em torno da própria liberdade, e não como instrumento domesticador de meus anseios e meus desejos.

D. R. - Voltando à sua obra Educação e Mudança - ali, o senhor analisa as possibilidades e as limitações da educação, na tentativa de se engajar social e politicamente na luta pela transformação das estruturas opressivas da sociedade classista. Afirma que a educação é, essencialmente, um ato de conhecimento e de conscientização e que, por si só, não leva uma sociedade a se libertar da opressão. Que outros caminhos teria então a sociedade nessa busca?

Freire: É. Mas há uma outra coisa importante que eu afirmo quando digo que a educação não é a chave única de abertura da porta da transformação social-política da sociedade. Ela não é a única, mas sem ela nada se faz. Essa complementação do meu discurso é fundamental para mostrar exatamente a relação dialética entre educação e transformação. Se ela sozinha não faz, é porque ela precisa contar com outras dimensões da organização política do Estado e da sociedade. Ela precisa de partidos políticos sérios, fortes, democráticos, respeitosos. Ela precisa, de um lado, de estimular e, de outro, ver crescer a eticidade da política e na política. Ela precisa do desenvolvimento econômico. Sozinha ela não produz esse desenvolvimento, mas, sem ela, ele não se faz.

Fala-se muito, hoje, numa modernização do Brasil, e grandes áreas deste país não saíram sequer do tradicionalismo. E a gente já está na pós-modernidade. O trágico é que há uma contemporaneidade dos não-contemporâneos. Um professor brasileiro, hoje, fala na universidade sobre pós-modernidade em educação e, no entanto, convive com uma realidade em que 33 milhões de brasileiros morrem na miséria. Essa possibilidade de conviver com contrastes tão absurdos é o que caracteriza inclusive grande parte do Terceiro Mundo. Eu tenho a possibilidade de discutir com o meu colega de Berlim, de Washington, de Paris sobre pedagogia crítica. (Acabo de receber uma carta da Alemanha, onde me pedem para escrever um texto para um número especial de uma entrevista alemã sobre educação crítica). Eu convivo com eles, troco grandes idéias, mas, ao mesmo tempo, convivo na minha sociedade com milhares de brasileiros que não podem ler. Há pouco tempo estive em Porto Alegre, onde fui homenageado por secretaria de Educação que está fazendo uma das boas revoluções pedagógico-políticas deste país, nos dias de hoje, e numa perspectiva séria, ética, estética, bonita. Fazendo um enorme trabalho de mudança pedagógica e um extraordinário trabalho de alfabetização de adultos de acordo com as minhas sugestões. Lá, mais uma vez, eu vi o que significa, aos 70 anos, viver o direito de ler, demandar a exigência de escrever. Eu não posso aceitar que homens e mulheres, aos 70 anos, que tenham sido proibidos de ler pela sua sociedade, morram sem ler. Eu acho que isso é um desrespeito enorme à vida humana.

Mas, voltando ao cerne de sua pergunta, eu penso que a educação de que nós precisamos é aquela que, ao mesmo tempo em que se preocupa com a formação técnica e científica do educando se preocupa também com o que chamo “desocultação das verdades”. Essa proposta de uma pedagogia desocultadora não tem nada a ver com o que está embutido no discurso neoliberal da educação, que é um discurso ocultador, que é um discurso que se diz pragmático e que, por isso mesmo, não ultrapassa o puro treino técnico que não discute a razão de ser do próprio treino. E essa onda neoliberal é um dos riscos trágicos que a gente sofre hoje, no Brasil, neste final de milênio.

D. P. - Somando suas experiências com educação e política, seu trabalho como escritor, conferencista, suas viagens por todo Brasil, América Latina, África e Europa, quem é o Paulo Freire, hoje? Qual é o seu grande sonho, neste momento?

Freire: Eu tenho sido um educador à disposição do sonho, da utopia da libertação. Esse tem sido o meu grande sonho. Aos 74 anos, eu me recuso a não sonhar. O sonha faz parte da minha natureza inconclusa e da consciência de minha inconclusão. Sonho não é coisa de maluco. Sonho é coisa de quem vive de quem existe - existir é mais do que viver-, e sonhar é uma necessidade da existência humana. Sonhar com um projeto de vida, com um projeto de sociedade. Você já imaginou renunciar a esse sonho, deixar de sonhar com um projeto de uma nova sociedade - que é justamente o local onde você pode ou não se fazer?

Então, o sonho faz parte natural da minha presença no mundo. E, como educador, o meu grande sonho tem sido o exercício de uma liberdade que se limita, que não se reconhece a si mesma como a proprietária dos outros, como a proprietária do mundo. O meu sonho é a invenção de uma sociedade menos feia, uma sociedade em que seja possível amar e ser amado. Uma sociedade ética, estética, livre e decente.

D. P. - Seria possível inventar condições para que esse sonho se concretize um dia? E que condições seriam essas?

Freire: Veja como a sociedade brasileira é estruturadamente malvada. As classes dominantes deste país são feias, perversas. Milhões e milhões de brasileiros estão simplesmente proibidos de sonhar. Uma das condições necessárias para sonhar é que você tenha o amanhã. Não se sonha a partir do outro, a não ser quando você apanha um momento do outro para transformá-lo no objeto do seu sonho do amanhã.

O amanhã não é uma categoria, um espaço mais além de mim mesmo, à espera de que eu chegue lá. O meu amanhã é o hoje que eu transformo. Mas é impossível sonhar se você não tiver hipóteses de amanhã, se você não tiver sonhos de amanhã. A grande maioria da população brasileira está proibida de sonhar porque nem sequer comeu hoje, e espera desesperadamente pela morte.

Eu não sei como é possível dormir tendo a coragem cínica de dizer que a realidade é assim mesmo, que não há o que fazer. Quando tu me perguntas: - Paulo, tu ainda sonhas? Eu te respondo: - Sim, sonho. Eu sonho, no mínimo, com que não seja possível dizer que não é possível sonhar, com que não seja possível admitir que a vida tem que ser o que está sendo. Não! Eu protesto! A vida não é, necessariamente, o que está sendo. Ela pode e deve ser mudada.

Eu não dormiria bem se não tivesse dito isso a você, pois é falando a você hoje e a outros jornalistas amanhã, é denunciando, é escrevendo livros - nos quais critico duramente esse fatalismo imoral - é dessa forma que eu continuo sonhando. E que eu, concretamente, lanço o meu protesto. Que eu, concretamente, não aceito que, 33 milhões de brasileiros morram porque têm que morrer, e que não aceito que eles continuem morrendo para que minorias vivam o gozo ilegítimo que deram a si mesmos.

[Fonte: Dois Pontos, Belo Horizonte, v. 9, n. , p. 6-13, mar./abr. 1996]