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Moral e Ciência

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IHU

12/5/2008

Ciência e moral, a utopia do diálogo

Dois estudiosos de fama internacional se confrontam sobre a relação entre os desenvolvimentos da técnica e os limites propostos pela ética. O jornal Corriere della Sera, 23-04-2008, publicou um extrato do livro de Edoardo Boncinelli e Emanuele Severino intitulado Diálogo sobre ética e ciência. lançado na Itália pela Editora San Raffaele. O texto aqui apresentado compreende dois trechos distintos: o primeiro é relativo à parte inicial do confronto crítico entre os dois estudiosos, enquanto o segundo provém das conclusões tiradas pelos autores em forma de post scriptum no final do volume.

Edoardo Boncinelli, cientista de fama internacional, foi presidente da Sociedade italiana de biofísica e biologia molecular.

Emanuele Severino, filósofo e membro da Academia dos Liceus, ensina na Universidade Vita-Saulte San Raffaele de Milão.

Ciência e ética

Boncinelli: Creio que sob nenhum ponto de vista possa subsistir um conflito entre ciência e ética, porque se trata de disciplinas que se ocupam de problemas diversos. O que costumeiramente é definido como conflito entre ciência e ética é, na realidade, o conflito entre éticas diversas, ou então, entre portadores de éticas diversas, onde a ciência é apenas a fornecedora dos argumentos. Há cinqüenta anos não se podia discutir sobre algumas coisas pelo simples motivo de que não eram possíveis; tomemos o exemplo da fecundação assistida. A ciência pôs sobre a mesa oportunidades que antes não existiam e que levaram a discussões; mas quem discute sobre elas não são os cientistas com os éticos; quem discute são os portadores de um tipo de ética com os portadores de outra ética. Ou melhor: os portadores de um tipo de ética com os portadores de muitas outras éticas, porque nos encontramos, de uma parte, ante um monólito que é a ética católica, e, de outra, ante toda uma vintena de posições bastante diversas, já que a assim chamada ética laica é, na realidade, unificada somente por uma tolerância maior pelo progresso, por maior atenção aos interesses do indivíduo e por um apelo reduzido ao magistério da tradição. Da parte laica, e não só na Itália mas em todo o mundo, há uma gama vastíssima de posições, tanto que a contraposição feita por Giovanni Romero em seu belíssimo livro, Bioética católica e bioética laica, publicado por Bruno Mondadori, é útil, mas ligeiramente forçada. Em tudo isto, a ciência não entra, a não ser, repito, como fornecedora ocasional.

Severino: Certamente sim, a tendência é que haja esta imagem da ciência como simples fornecedora de ocasiões, ou como simples instrumento em vista da realização de fins que não pertencem ao instrumento; mas, ao contrário, vejo uma profunda solidariedade entre ética e ciência. É preciso começar a perguntar-se sobre o significado destas palavras. Ética é uma palavra grega. Não que antes dos gregos não houvesse problemas de caráter moral, embora, com o pensamento grego, a ética conquiste uma conotação que poderíamos dizer inaudita. Então, o que é a ética antes e depois desta conotação inaudita? Os povos vivem e crêem poder viver melhor caso se aliem com aquilo que eles retêm que seja para eles a potência suprema, e isto é bastante natural, já que, para viver, me apoio naquilo que retenho como estável e capaz de sustentar. Então, este agarrar-se ao que se retém como a potência suprema é a possibilidade de viver num ambiente tranqüilizador. A palavra ética indica precisamente o lugar em que se vive, o costume. Ética quer dizer; viver num lugar tranqüilizador, porque a gente se encontra de acordo e não em contraposição com a potência. Quando vivo num lugar e sei que este é ameaçado, e sei que não tenho instrumentos para defender-me, vou a outro lugar. Ethos em grego indica, ao invés, o costume, que é ao mesmo tempo o ambiente no qual a gente pode se defender.

Mas, defender-se de que? Da dor, da morte, da angústia, do sofrimento, dos perigos. Ora, com o pensamento grego, esta conduta assume uma radicalidade que qualifico como inaudita: a potência com a qual a gente se alia para sobreviver e para se defender do perigo é aquilo que o pensamento grego chama de “verdade”. Quando a gente se alia com uma potência fictícia, a aliança é insegura; é, portanto, inevitável que emerja a exigência de aliar-se com o que é a verdadeira potência, que o ethos seja a aliança com a verdadeira potência. Mas, para fazer isto é preciso que comece a existir a idéia ou o significada da palavra verdade. E, é somente porque o pensamento grego clareia o significado radical da verdade que pode existir uma aliança com a verdadeira potência.

Ora, tudo o que dissemos da ética devemos dizê-lo também da ciência que, de fato, não é aquela simples ocasião de oportunidade, aquela neutralidade com respeito aos fins dos quais falamos. Não, também a ciência merece que dela se diga aquilo que já dissera Nietzsche: a ciência nasce do medo, assim como a ética, porque defender-se aliando-se à potência significa procurar andar além do medo.

O que nós hoje dizemos ser “ciência” é o desenvolvimento de todas as técnicas postas em ato pelos homens para não ter medo e para conseguir sobreviver. Qual é a ética da ciência? A ciência tem e é em si mesma uma ética. E, por que? Porque ela é aquele conjunto de procedimentos que, sobretudo hoje, dá aos homens a fé, a convicção de que ela seja o instrumento que mais eficazmente do que outros permite afastar o medo. Então ética significa defender-se do medo aliando-se à potência, que hoje vem da ciência identificada principalmente com a potência tecnológica; neste sentido não há cisão entre ética e ciência.

Na tradição, a verdadeira potência é aquela verdade cujo conteúdo é sobretudo o Deus e, portanto, a potência de um conhecimento indiscutível que afirma de modo indiscutível: o verdadeiro potente é Deus. Hoje não se fala mais assim, também quando se diz uma coisa semelhante. Mudou o protagonista, mudou a qualificação do potente. Hoje o verdadeiro potente é a técnica. A técnica é a herdeira da função de tranqüilização que, na tradição, era cumprida por Deus.

* * *

Boncinelli: Hoje se fala tanto de dialogar. Mas, um verdadeiro diálogo, não formal e com pleno entendimento das razões de um por parte do outro é raro e difícil. Talvez pertença às tantas fábulas da modernidade. Fala-se em particular de diálogo entre ciência e filosofia, mas, certamente não posso dialogar com os filósofos, também os mais próximos a mim por formação e convicção, pelo menos com aqueles que conheço, salvo pouquíssimas exceções.

A explicação que me dei invoca a natureza diversa da vocação de quem se dedica à ciência e de quem se dedica à filosofia.

O cientista quer chegar a alguma conclusão, mesmo que provisória e incompleta, sobre temas que podem ser considerados de nenhuma relevância (à parte o fato de que a ciência, e não as elucubrações teóricas, mudou o mundo, também se isto não agrada a todos.

O filósofo, ao contrário, quer pôr tudo em discussão, quer encontrar o fio do ovo – que sempre existe, porque o conhecimento perfeito não é deste mundo – e, definitivamente, não quer deixar mais nada em pé.

De outra parte, não existe conceito que, discutido longamente, não perca todo o seu significado. Querendo, pode-se completar o quadro com outro elemento de distinção: o cientista experimental sabe, desde o início, que sozinho jamais poderá fazer nada. Pode, no máximo, aspirar a dar uma contribuição que, unida à de tantos outros, conduzirá a algum resultado, teórico ou prático. Conseqüentemente, ele pode não ser um medíocre, mesmo que ninguém jamais admitirá de bom coração que ele o seja.

O filósofo, ao invés, ou se limita a fazer-se de historiador da filosofia, ou pensa em dar uma contribuição pessoal. Todo filósofo aspira a ser um grande filósofo. Acrescentarei, enfim, que, diversa daquela do filósofo, a visão do cientista sobre os fenômenos a estudar é intrínseca e irremediavelmente local. Quando aspira à globalidade, em geral em avançada idade, ele o faz quase sempre pela má filosofia, também quando se chama de Albert Einstein. É claro que o modo de se colocar diante de todas as questões resulta ser muito diverso nos dois casos.

Severino: Desde sempre, mas, sobretudo na idade moderna, o que se diz ser “ciência” é especialização, que separa certo campo de objetos, ou de coisas, de todos os outros e o analisa com base em precisos critérios e métodos. Em geral, a análise do significado da especialização – isto é, do separar e do isolar – não entra no mesmo campo. Não entra, portanto, nem mesmo a análise do sentido da totalidade, da qual a especialização isola o próprio campo. Estas análises pertencem, desde sempre, à filosofia. Quando um cientista considera as relações entre o próprio campo e a filosofia, não fala, portanto, em nome da própria disciplina. Transfere-se ao plano da filosofia, com maior ou menor consciência; transfere-se a ele inevitavelmente – e, de outra parte, também quando se fecha no próprio terreno ele sempre se apóia em algo que lhe é externo, isto é, no sentido que o pensamento filosófico atribuiu à “coisa”, ao objeto.

Também os indivíduos seguem (e traem) certas regras específicas de comportamento. Neste sentido, delimitam por sua vez um domínio particular de coisas e são eles mesmos, os indivíduos, especializações. Movem-se, porém, sempre, querendo ou não, no interior das grandes regras éticas seguidas (e traídas) dos povos aos quais pertencem. Também quando dão realce às próprias regras de comportamento, em certo momento percebem o tabuleiro grego sobre o qual jogam a vida e sobre a qual agora todas as vidas se preparam para serem jogadas. Mas, se hoje sequer a um cientista é consentido dominar toda a riqueza da própria disciplina, como pode a filosofia compreender realmente o fenômeno ciência em seu conjunto? Ou compreender a “história do Ocidente”?

A filosofia do nosso tempo tende a responder que isto é impossível. E, de fato, se as coisas vêm do nada e para lá retornam, elas são essencialmente estranhas umas às outras, isto é, não pode existir nem ser conhecido algum princípio que as unifique. O sentido grego da “coisa” está na base de todo separar, isolar, especializar-se do Ocidente. Hoje aquele sentido se exprime na afirmação de que o mundo inteiro é um conjunto de fragmentos e que o conhecimento autêntico é especialização. Caso contrário, também esta afirmação lança um olhar sobre o mundo; e não sobre uma parte dele, mas sobre o mundo inteiro e, por conseguinte, é também ela um olhar unificante do mundo e vê que esta essência é a própria fragmentariedade do mundo, a própria divisão das coisas. Isto significa que, de qualquer modo, a manifestação do sentido unitário do mundo é inevitável, e que tal manifestação continua a ser a tarefa da filosofia.

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