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02/05/2008...11:50

Maio de 68

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=13629

IHU 2/5/2008

‘As estruturas não caminham pela rua!’ O maio de 68, segundo Zizek

“Como revolucionário você é dos loucos que pedem um novo patrão e o terá”, disse Lacan aos alunos, compreendendo a ambigüidade do Maio. “As estruturas não caminham pela rua” é uma das frases mais famosas de quando o novo espírito do capitalismo soube recuperar a retórica anti-hierárquica. A opinião é de Slavoj Zizek em artigo publicado pelo jornal La Repubblica, 17-4-2008.

por SLAVOJ ZIZEK

Em 1968, uma das frases mais famosas que apareceu nos muros de Paris foi: “As estruturas não caminham pela rua!”, expressão que não justifica as grandes demonstrações dos estudantes e dos trabalhadores do Sessenta e Oito em termos de estruturalismo (o que esclarece por que alguns historiadores chegaram a francamente considerar o ano 1968 como o divisor de águas entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo, que foi – assim se diz – muito mais dinâmico e propenso a intervenções de política eficazes). A resposta de Jaques Lacan foi que, em 1968, na verdade, aconteceu exatamente isto: “As estruturas desceram indubitavelmente às ruas”. Os eventos explosivos manifestados foram definitivamente o êxito de um desequilíbrio estrutural; para dizer com as palavras de Lacan, foram o êxito da passagem do discurso do Patrão para o discurso da Universidade. Em que consiste precisamente essa passagem?

The New Spirit of Capitalism de Boltanski e Chiapello (Le nouveau esprit du capitalisme, é o título original do livro de Boltanski e Chiapello – nota da IHU On-Line) examina-o em detalhe, com particular atenção a França. Abraçando o método weberiano, o livro distingue três “espíritos” consecutivos do capitalismo: o primeiro espírito do capitalismo empresarial durou até a Grande Depressão dos anos 30; o segundo espírito do capitalismo trouxe para seu próprio ideal não o empresário, mas o executivo assalariado de uma grande empresa. Dos anos setenta em diante, ao contrário, andou emergindo uma nova figura de “espírito do capitalismo”: o capitalismo abandonou a estrutura hierárquica de modelo fordista do processo de produção, e desenvolveu uma forma de organização baseada em uma estrutura em rede que se sustentava na iniciativa e na autonomia dependentes do trabalhador no lugar de trabalho. No lugar de uma cadeia de comando centralizada e hierárquica, difundiram-se estruturas de rede formadas por uma multidão de participantes, que organizavam o trabalho sob forma de time ou de projetos, visando a satisfazer a clientela, e havia uma mobilização geral dos trabalhadores graça à visão de seu líder. Desse modo, o capitalismo transformou-se e legitimou-se como um projeto igualitário: por meio de uma crescente interação autopoiética e de uma auto-organização espontânea, chegou até mesmo a usurpar a linguagem da extrema esquerda da autogestão dos trabalhadores e do slogan anticapitalista e fez dele um slogan capitalista.

Uma inteira seqüência de eventos histórico-ideológicos foi assim se criando, na qual o Socialismo aparece conservador, hierárquico, administrativo, tanto que a lição de sessenta e oito é “Good-bye, Mr. Socialism”, “Adeus, Socialismo!”, e a verdadeira revolução é aquela do capitalismo digital. Esse capitalismo é a conseqüência lógica, a “verdade” da revolução de 1968. Os protestos anticapitalistas dos anos sessenta integraram a crítica habitual da exploração socioeconômica com argumentos de critica cultural: a alienação da vida diária, a comercialização dos bens de consumo, a falta de autenticidade de uma sociedade de massa na qual “vestem-se máscaras” e sujeitam-se às opressões sexuais e de outras naturezas.

O novo espírito do capitalismo recuperou de modo triunfante a retórica igualitária e anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como uma revolta libertária de sucesso contra as organizações sociais opressivas do capitalismo das coorporações e também contra o socialismo “real, existente”: esse novo espírito libertário está encarnado nos capitalistas “desenvoltos”, vestidos à grande, como Bill Gates e fundadores do sorvete “Bem and Jerry”.

A aposta de Michael Hardt e Toni Negri é que esse novo espírito já é por si só Comunista: como Marx, celebram o potencial revolucionário “desterritorializante” do capitalismo; como Marx, individualizam a contradição dentro do capitalismo, na discrepância existente entre esse potencial e a forma do capital (a apropriação da parte da propriedade privada do excedente). Em breve, reabilitam o velho conceito marxista de tensão entre forças produtivas e relações da produção: o capitalismo já produz “os gérmens da futura forma de vida nova”, produz incessantemente o novo “denominador comum”, de modo que em uma explosão revolucionária, esse Novo deve ser desvinculado pela velha forma social.

Não surpreende que Negri recentemente esteja sempre apreciando mais o capitalismo digital “pós-moderno”, afirmando que ele já é comunista, e que precisará somente pouco, um empurrãozinho, um gesto puramente formal, para que se torne isso abertamente. A estratégia de base do capitalismo atual consiste em cobrir a sua própria abundância, achando um novo modo para incluir outra vez a multidão produtiva independente.

A ironia é que Negri refere-se aqui ao processo que os mesmos ideólogos do capitalismo atual “pós-moderno” celebram à medida que passam da produção material à simbólica, da lógica centrista-hierárquica à lógica da auto-organização autopoiética, da colaboração multicêntrida e assim por diante. Negri que é, em efeito, fiel a Marx: o que se esforça por demonstrar é que Marx tinha razão, que a ascenção do “intelecto geral” é incompatível, em longo prazo, com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno estão fazendo uma afirmação diametralmente oposta: é a própria teoria marxista (e a prática marxista) que fica no âmbito dos constrangimentos da lógica hierárquica centralizada a controle do governo, e, portanto, não pode enfrentar os efeitos sociais da nova revolução informacional.

Há boas razões empíricas para confirmação desta afirmação: ainda uma vez, o paradoxo histórico é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente da validade da tradição dialética marxista entre força de produção e relação de produção, na qual o marxismo deposita confiança na sua tentativa de derrubar o capitalismo. A prejudicar definitivamente os regimes comunistas está a sua própria incapacidade de adaptar-se à nova lógica sustentada pela “revolução informacional”: tentaram pilotar esta revolução com um projeto qualquer em larga escala de planejamento estatal centralizado. O absurdo, portanto, é que o que Negri exalta como uma oportunidade irrepetível para derrubar o capitalismo, os ideólogos da “revolução informacional” o exaltam como a ascenção do novo capitalismo “privado de atritos”.

Mas a passagem a um outro espírito do capitalismo foi realmente tudo o que aconteceu nos eventos de ’68, de forma que todo o entusiamo eufórico pela liberdade, em realidade, não era outra coisa senão um meio de substituir uma forma de domínio por uma outra? Recordemos as palavras de desafio lançadas por Lacan aos estudantes: “Como revolucionários, vocês são loucos que pedem um novo patrão. E o terão”.

Em havendo razão, o sessenta e oito foi um evento único ou foi uma dilaceração, e também ambíguo, em cujo curso várias tendências políticas lutaram entre si pela hegemonia? Isso explicaria o fato de que, enquanto a ideologia hegemônica apropriou-se magnificamente do sessenta e oito, a partir uma explosão da liberdade sexual e da criativadade anti-hierárquica, Nicholas Sarkozy disse, em sua campanha eleitoral em 2007, que seu dever é o de conseguir que finalmente a França supere o sessenta e oito. Portanto há um “maio de ’68 deles” e um “maio de ‘68 nosso” na nossa atual recordação ideológica, a “nossa” idéia de base das demonstrações daquele maio, ao passo que a conexão entre os protestos estudantis e as greves dos trabalhadores é esquecida.

Da liberação sexual dos anos sessenta sobreviveu o hedonismo tolerante facilmente incorporado na nossa ideologia hegemônica. O imperativo do superego de divertir-se, portanto, produz o contrário preciso do “Du kanst, denn Du sollst!” (Você é capaz, então você deve!) de Kant, torna-se um “Deve, porque é capaz!”. Isso significa que o aspecto do superego do hedonismo atual “não repressivo” (as incessantes provocações a que estamos expostos, o que nos impõem ir, afinal de contas, até explorar todos os possíveis modos de prazer, de gozo ) reside no modo em que o gozo necessariamente se transforma em um gozo obrigatório. Esse impulso no puro gozo autístico (por meio de substâncias entorpecentes ou de outros métodos que induzam a um estado de transe) afirmou-se em um momento político preciso: quando o estímulo emancipador de 1968 exaure o seu potencial.

Naquele período crítico (a metade dos anos setenta), a única opção restante era a passagem à ação direta, brutal, um empurrão para a Realidade que assumiu três formas principais: a procura de formas extremas de gozo sexual; o terrorismo político de esquerda (com a Raf na Alemanha e as Brigadas Vermelhas na Itália, e assim por diante, cuja aposta era que, em uma época em que as massas estavam totalmente imersas no sono ideológico capitalista, a crítica habitual da ideologia não era mais operacional, assim que somente o recurso da crua Realidade da violência direta – a ação direta – poderia acordar as massas); e, finalmente, a volta para a Realidade de uma experiência interior (o misticismo oriental). Em comum, todas as três eram caracterizadas com uma mesma alienação por um compromisso concreto sócio-político em um contato direto com a realidade.

Essa mudança de compromisso político para a Realidade pós-política é talvez exemplificada na melhor das hipóteses nos filmes de Bernardo Bertolucci, um rebelde incansável, e em particular na evolução de sua obra, em suas primeiras obras-primas aquelas antes da revolução até a sua mais recente completa rendição estético-espiritualista, como o assustador Pequeno Buda. Esse percurso completou uma volta completa com Os Sonhadores, o último filme de Bertolucci sobre o sessenta e oito parisiense, no qual um casal de estudantes, irmão e irmã, e um jovem estudante norte-americano de passagem iniciam uma profunda amizade na agitação dos eventos para depois, no final do filme, separarem-se, porque os dois franceses permanecem envolvidos na violência política, enquanto o norte-americano permanece fiel à mensagem de amor e de liberdade passional.

Enfim, a grande pergunta: se, como afirma Alain Badiou, o Maio de 1968 foi um final de uma época, que marcou (junto com a revolução cultural chinesa) o consumar-se definitivo de uma grande sucessão de revoluções políticas iniciadas com a Revolução de Outubro, hoje onde as colocamos? Estamos entre aqueles que ainda contam – e com uma alternativa radical – com um capitalismo hegemônico democrático parlamentário, forçados a alienarmo-nos e a agir em vários “sítios de resistência” ou podemos ainda conceber uma intervenção política mais radical?

Este é o verdadeiro legado do sessenta e oito: no coração do sessenta e oito havia uma recusa do sistema liberal – capitalista, um grande NÃO à sua totalidade, mais bem explicitado no famoso slogan: “Procuramos ser realistas, pedimos o impossível!”. A verdadeira utopia é crer que o sistema global existente possa reproduzir-se ao infinito; o único modo de ser verdadeiramente “realista” é pensar que a coisa, no âmbito das coordenadas desse sistema, não possa sempre mostrar-se impossível.

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