14/04/2008...10:23

Liberdade Naturalizada

http://www.esmtg.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=206&Itemid=110

DENNETT, Daniel. A Liberdade Evolui. Trad.: Jorge Beleza. Lisboa: Temas e Debates, 2005. 365 p.

por PAULO SOUSA (ESPAA)

Por estranho que pareça, há pessoas racionais a discutir se são livres ou não. Parece um contra-senso. Este debate poderia ocorrer sem a participação de seres ao mesmo tempo livres e racionais que se esforçam por se convencer uns aos outros, sem saberem de antemão se vão consegui-lo? A verdade é que quem colocou a hipótese da impossibilidade da liberdade fê-lo de uma forma suficientemente convincente para fazer com que muita gente tente provar que isso não é assim. Daniel Dennett é um dos que abraçaram essa causa.

Nesta obra, Dennett começa por rebater os habituais argumentos que apoiam a tese de que a liberdade não pode existir na realidade. Analisa cuidadosamente a visão determinista da realidade inspirada em Laplace e conclui, de uma forma surpreendente, que não só não podemos provar a tese determinista como, em qualquer dos casos, essa tese não implicaria a ausência de liberdade. Aquilo que conhecemos de física, de informática, de matemática e de ciências cognitivas conjuga-se para formar uma imagem ultra-simplificada de um mundo regulado por normas fechadas e universais (“deterministas”) que não impedem os possíveis organismos de evoluir para formas capazes de se antecipar às mudanças do meio e de reagir a estas de forma a auto-preservar-se ou mesmo de se auto-replicar. As leis físicas que determinam o comportamento de partículas atómicas ou sub atómicas não se aplicam a organismos complexos.

A ciência, que durante anos foi apresentada como o demónio que destruiria a liberdade, é apresentada por Dennett como a chave para a compreensão desta. Tradicionalmente, a análise da liberdade a partir de uma perspectiva científica tem sido encarada como uma tentativa maldosa de a espatifar sem possibilidade de conserto. A tentativa de analisar a liberdade (ou a moral) através das leis que governam os processos químicos ou biológicos da natureza parecer uma insuportável falta de respeito pelo carácter especial da “pessoa humana” e da sua inefável liberdade. Dennett, pelo contrário, considera que os dados que a ciência nos disponibiliza são os melhores a que podemos ter acesso e que não lhes podemos voltar as costas. Fazê-lo seria um grande desrespeito pelas regras fundamentais do debate filosófico e científico (ou, se o quisermos dizer de uma forma mais prosaica, seria batota descarada). Se pudermos fundamentar objectivamente a noção de que somos livres, será através da ciência que o faremos.

O que à partida podemos dizer com certeza é que somos seres vivos. Como ignorá-lo? A compreensão de como a liberdade é possível passa necessariamente por aí – pela análise do comportamento dos seres humanos e de outros animais e da forma como a evolução permitiu o aparecimento de estruturas neurológicas e culturais que criam a sua estrutura de suporte. A liberdade humana é incomparavelmente mais sofisticada e poderosa do que a de um pássaro que decide o seu voo ou a de um cão que escolhe o lugar onde vai dormir a sesta; mas as estruturas que permitem as decisões de um pássaro ou de um cão são aquelas a partir das quais evoluíram aquelas que nós usamos para planear o nosso futuro. Somos livres, em parte, na medida em que a nossa biologia nos permite que sejamos livres e cria em nós o desejo de nos auto-afirmarmos e de procurarmos a nossa felicidade e o respeito dos outros.

Para além da biologia, foi também na evolução da cultura que a liberdade assentou as suas raízes: ao longo da história humana surgiram formas culturais que se disseminaram de mente para mente (memes) e que modelam a consciência que temos de nós próprios, do mundo em geral e da sociedade em particular. Essas formas de cultura são alguns dos elementos mais poderosos que modelam a forma como a liberdade é sentida e vivida pelas pessoas concretas. Elas tomaram conta do nosso pensamento muito antes de nos apercebermos de que estavam lá, por vezes fazendo-nos aceitar, por exemplo, uma sociedade esclavagista ou proclamar a liberdade de todos. A sua variedade e plasticidade mostra que nas nossas mãos temos o poder de influenciar a forma como os nossos iguais e as gerações que nos cabe educar compreendem a sua liberdade e a forma como devem organizar-se moralmente.

1 Comentário

  • Paulo Sousa

    …Olá! Quero apenas fazer uma pequena correcção: o nome do autor do texto é Paulo Sousa (com S), como e comum em Portugal, e não Paulo Souza (com Z), como é frequente no Brasil.

    Paulo Sousa (a bem dizer, eu) é professor de Filosofia na Escola Secundária poeta António Aleixo (ESPAA), em Portimão, Portugal, e escreveu o pequeno comentário que mereceu a sua/vossa atenção a propósito das comemorações do dia da Filosofia (Novembro)organizados pela Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes (ESMTG), nossa vizinha.
    Um abraço!


Fechado para comentários.