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Folha Online – pensata – 13/3/08
Clima de Guerra
por HÉLIO SCHWARTSMAN
… A primeira coisa que me veio à mente foi o “Ensaio sobre a Origem das Línguas”, divertido texto de Jean-Jacques Rousseau em que o autor atribui às condições atmosféricas determinadas características dos idiomas. Assim, “nos climas meridionais, onde a natureza é pródiga, as necessidades nascem das paixões; nas regiões frias, onde ela é avara, as paixões nascem das necessidades, e as línguas, tristes filhas da necessidade, ressentem-se de sua áspera origem”. Enquanto, no sul das “paixões voluptuosas” a primeira palavra foi “amai-me”, no norte ela foi “ajudai-me”.
… Várias eminências pardas do pensamento filosófico ocidental seguiram a mesma direção. Nietzsche, por exemplo, em “Vontade de Potência”, escreveu: “Temos de parar de pensar se nos recusarmos a fazê-lo na prisão da linguagem”. Heidegger vai na mesma linha: “O homem age como se ele fosse o formador e o mestre da linguagem, quando, na verdade, a linguagem é a mestra do homem”. E também Barthes, como sempre exagerando: “O homem não existe antes da linguagem, seja como espécie, seja como indivíduo”. Até o geralmente mais preciso Wittgenstein diz algo parecido: “Os limites de minha linguagem são os limites de meu mundo”.
Bem, todos eles estão errados. Quem volta a demonstrá-lo com elegância é Seteven Pinker, em seu mais recente livro, “The Stuff of Thought” (a matéria do pensamento). As frases destes grandes filósofos são versões mais ou menos vigorosas daquilo que em lingüística se conhece por Hipótese Sapir-Whorf (SWH), assim batizada em referência ao lingüista Edward Sapir (1884-1939) e seu aluno antropólogo Benjamin Lee Whorf (1897-1941).
O que a SWH basicamente diz é que existe uma relação sistemática entre as categorias gramaticais da língua que uma pessoa fala e o modo como ela compreende o mundo e nele atua. É claro que, em algum grau, língua e pensamento se relacionam, ou os idiomas seriam inúteis, pois não poderiam nem comunicar idéias. Mas o que a SWH sustenta, pelo menos em suas formulações mais radicais, é que ela determina o pensamento.
… Mas, voltando à questão da linguagem, evidências empíricas fornecidas por pesquisas no campo da neurociência indicam que o cérebro teria um idioma próprio, o mentalês. É nele que armazenamos informações em neurônios e as processamos e depois as “retraduzimos” para a língua natural por nós falada. Se há um filósofo que estava quase certo é Kant, ao propor que nosso cérebro pensa sobre intuições de espaço e tempo e através de categorias como quantidade (unidade, pluralidade), qualidade (realidade, negação) e relação (causalidade, comunidade).
É uma boa notícia para poetas e visionários. Não apenas a tradução é possível como também, pelo menos num sentido profundo, todos os homens compartilham um idioma comum e não é impossível que venham a entender-se. …
1 Comentário
24/03/2008 às 00:44
Sabe em que livros se pode encontrar o pensamento dos professores Sapir e Whorf exposto, no que diz respeito a essa Hipótese Sapir-Whorf?
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