16/03/2008...01:04

Transvaloração dos Valores Cristãos

por FRIEDRICH NIETZSCHE

Os alemães privaram a Europa da última grande colheita de civilização que houve para a Europa — a do Renascimento. Entende-se afinal, quer-se entender, o que foi o Renascimento? A transvaloração dos valores cristãos, o ensaio empreendido com todos os meios, com todos os instintos, com todo o gênio, de levar os valores opostos, os valores nobres, à vitória… Até agora houve apenas essa grande guerra, até agora não houve nenhum questionamento mais decisivo que o do Renascimento — minha questão é sua questão –: também nunca houve uma forma mais fundamental, mais direta, mais rigorosamente desencadeada em toda a frente e em pleno centro, de assalto! Tomar de assalto a posição decisiva, a própria sede do cristianismo, aqui levar os valores nobres ao trono, quer dizer, infiltrá-los nos instintos, nas mais profundas necessidades e apetites daqueles que estavam sentados ali… Vejo diante de mim uma possibilidade, de um perfeito feitiço e colorido extraterreno: –parece-me que ela resplandece com todos os arrepios de refinada beleza, que nela está em obra uma arte tão divina, tão diabolicamente divina, que em vão se rebuscam milênios em busca de uma segunda possibilidade semelhante; vejo um espetáculo tão rico de sentido, tão maravilhosamente paradoxal ao mesmo tempo, que todas as divindades do Olimpo teriam tido ensejo para uma imortal gargalhada — César Bórgia como Papa… Entendem-me?… Pois bem, isso teria sido uma vitória, pela qual, eu, hoje, reclamo sozinho -: com isso o cristianismo estaria abolido!… E o que aconteceu? Um monge alemão, Lutero, veio para Roma. Esse monge, trazendo no corpo todos os instintos vingativos de um padre malogrado, revoltou-se em Roma contra o Renascimento… Em vez de, com a mais profunda gratidão, entender o descomunal que havia acontecido, a superação do cristianismo em sua sede – entendeu seu ódio tirar desse espetáculo somente seu alimento. Um homem religioso só pensa em si — Lutero viu a corrupção do Papado, enquanto era precisamente o contrário que se podia pegar com as mãos: a velha corrupção, o peccatum originale, o cristianismo, não estava mais sentado na cadeira do Papa! Mas sim a vida! Mas sim o triunfo da vida! Mas sim o grande Sim a todas as altas, belas, temerárias coisas!… E Lutero restabeleceu a Igreja: tomou-a de assalto… O Renascimento – um acontecimento sem sentido, um grande em-vão! — Ah, esses alemães, o que eles já nos custaram! Em vão — isso foi sempre obra dos alemães. — A Reforma; Leibniz; Kant e a assim chamada filosofia alemã; as guerras de ‘liberdade’; o Reich – cada vez um em-vão para algo que já estava aí, para algo irrecuperável… São meus inimigos, eu o confesso, esses alemães; desprezo neles toda espécie de falta de higiene em conceito e valor, de covardia diante de todo honesto sim e não. Há um milênio, enredam e confundem tudo o que tocam com seus dedos, têm na consciência todas as meias-medidas – os três oitavos de medida! — de que a Europa está doente – têm também na consciência a mais anti-higiênica espécie de cristianismo que há, a mais incurável, a mais irrefutável, o protestantismo… Se não pudermos dar cabo do cristianismo, a culpa será dos alemães…” (NIETZSCHE, F. “Aforismo 61″, de O Anti-Cristo. In: Obras Incompletas. 2a. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.)

2 Comentários

  • A visão histórica de Nietzsche é completa e totalmente errada. O Renascimento italiano foi destruído pela aliança entre o Imperador Carlos V de Espanha com os franceses, e com Henrique VIII de Inglaterra, para além dos problemas internos entre as cidades-estado italianas que apressaram a sua queda. Nietzsche viveu como um louco e morreu louco.

  • Não, não foi errada já que Lutero(uma fatalidade de monge)segundo o própio Nietzsche, restabeleceu aquilo que já estava em declínio, caminhando para a morte, ou seja, o cristianismo… daí ele faz uma apologia a César Bórgia e a negação da moral, a real situação da igreja na época.O renascimento trouxe consigo o “espirito” grego , a clareza de vivo , a vida trágica… No entanto a contra-reforma retornou com o dualismo barroco,desta vez ente protestantes e católicos e o crepúsculo foi justamente na Alemanha com Lutero ou como disse M.Weber os Luteranos e sua nova ética.

    Nietzsche louco e tantos outros malucos dedicaram boa parte do seu tempo estudando-o,tais como: Sartre , Heiddeger, Deleuze, Karl Popper,Bertrand Russell… todos loucos.


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