por REINALDO JOSÉ LOPES
As barreiras éticas que ainda cercam o uso médico das células-tronco embrionárias acabam de sofrer um golpe que pode se revelar decisivo. Cientistas de uma empresa americana conseguiram obter as preciosas células, consideradas a chave para a cura de inúmeras doenças, sem destruir os embriões dos quais elas provêm.
Se o procedimento for fácil de reproduzir em laboratório, significará o fim da principal objeção ética contra a pesquisa com CTEHs (células-tronco embrionárias humanas): afinal, para muita gente, a destruição de embriões humanos apenas para obter suas células equivale a um assassinato.
Tranqüilizante
“Essas pessoas consideram que não é certo sacrificar uma vida para salvar outra. Nesse sentido, o nosso método deve ser capaz de tranqüilizar todo mundo”, disse o coordenador do estudo, Robert Lanza, da companhia ACT (Advanced Cell Technology), em Massachusetts. A pesquisa está na edição desta semana da revista científica britânica “Nature”.
O que Lanza e seus colegas fizeram foi unir duas pontas experimentais já bem estabelecidas: as técnicas usadas para derivar linhagens de CTEHs e uma espécie de biópsia precoce, hoje recomendada para pais cujos filhos correm risco de ter doenças genéticas sérias. Nessa biópsia, embriões gerados por fertilização in vitro se desenvolvem até o estágio de oito células. Uma dessas células é retirada e tem seu DNA analisado. Se tudo estiver bem, as sete restantes são implantadas no útero. Segundo Lanza, cerca de 1.500 crianças que passaram pelo procedimento nascem anualmente nos EUA.
O truque de Lanza e colegas foi justamente usar a célula que sobrava para obter as CTEHs (veja quadro nesta página). “A mesma técnica havia sido utilizada em camundongos com sucesso, e eles conseguiram adaptá-la para humanos”, lembra Lygia da Veiga Pereira, especialista em células-tronco da USP. Para o experimento, a ACT obteve embriões descartados por clínicas de fertilização. Após cultivá-los até oito células e extrair as que seriam usadas para criar as linhagens, os pesquisadores as misturaram com linhagens já existentes de CTEHs, para que o contato favorecesse o surgimento da principal característica dessas células, a pluripotência (capacidade de se transformar em qualquer tipo de tecido).
O truque não funcionou com todas as células individuais (conhecidas como blastômeros), mas a eficiência do método foi boa: duas linhagens com seis embriões. A capacidade de produzir de neurônios a células do fígado, também foi comprovada. “As células são absolutamente normais em todos os aspectos”, disse Lanza.
Para Alysson Muotri, pesquisador brasileiro do Instituto Salk, na Califórnia, “esse é realmente um trabalho político e ético”. “Cientificamente é fraco. Não fosse pela questão ética, jamais estaria na “Nature’”. Como o governo George W. Bush é contra as atuais técnicas de uso das CTEHs, e o mesmo acontece com vários governos do mundo, a idéia seria um caminho para permitir financiamento público para uma proposta eticamente aceitável.
“Os autores não têm 100% de certeza de que o procedimento não interfere com o desenvolvimento normal caso haja a implantação no útero”, diz Muotri. “Apesar de não achar que estamos matando alguém, não temos prazer nenhum em destruir embriões”, diz Pereira. “O que não se pode é utilizar isso como justificativa para impedir a derivação de linhagens pelo método conhecido”, afirma a pesquisadora da USP.
Oposição católica
Embora a pesquisa de Lanza busque um padrão ético que possa ser aceito pelos opositores das CTEHs, uma barreira deve permanecer tão forte quanto antes: a imposta pela Igreja Católica. O primeiro obstáculo é a oposição histórica do Vaticano à fertilização in vitro e à manipulação de embriões humanos, vistas como contrárias à dignidade do casal e da criança.
Richard Doerflinger, da Conferência de Bispos dos Estados Unidos, afirmou que o experimento da ACT “levanta mais questões éticas do que as que resolve”. Além de considerar “altamente antiético” o fato de que os embriões usados na pesquisa acabaram sendo descartados, Doerflinger argumentou que a célula retirada do embrião para o teste talvez ainda pudesse dar origem a um ser humano completo -coisa que Lanza e colegas negam. [FOLHA 24/8/06]
3 Comentários
29/08/2006 às 20:24
O curioso desta discussão (um pouco estafada) é que quase ninguém fala dos doentes já tratados, em muitos centros de referência na europa, com células *adultas*, enquanto que com as “famosas” células embrionárias, até hoje, não se conseguiu fazer nada. As células embrionárias são células “selvagens” que se comportam como cancros (são indiferenciadas, tal como as células tumorais). Não admira que o próprio responsável pelo banco de células do Reino Unido, admita que, até agora, o banco foi inútil (e caro!)
22/08/2008 às 09:16
As celulas tronco salvam vidas, curam doenças, da a oportunidade de continuar vivendo a muitos, “Em uma guerra sempre haverá baixas”.
Na atualidade em que vivemos somos movidos a tecnologia nescessitamos de aperfeisoamento o mundo e tecnologico. Aos opositores restam analisar de forma critica “Se fosse seu filho o doente voce apoiaria a pesquisa?”
04/04/2009 às 15:53
As celulas tronco são um meio de salvar muitas vidas, embora sejam muito criticadas. Acho que as pessoas que criticam deveriam se colocar no lugar de muitas mães que vivem desesperadas com seus filhos doentes.
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