Bill Morris e a justiça natural

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506190-bill-morris-e-a-justica-natural

IHU, 28 de janeiro de 2012

29719.jpgDepois da remoção de Dom Bill Morris, as lideranças pastorais da Igreja de Toowoombaencomendaram um relatório sobre os procedimentos seguidos. O relatório do juiz aposentado de Queensland Bill Carter foi agora tornado público. Foi acompanhado por um comentário do canonista deMelbourne Pe. Ian Waterssobre os aspectos canônicos do relatório. Esses documentos fazem uma leitura perturbadora.

A análise é do jesuíta Andrew Hamilton, em artigo publicada no sítio Eureka Street, revista eletrônica dos jesuítas da Austrália, 22-1-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Carter se concentra na questão da justiça natural. Morris comentou ao Papa Bento XVI: "Mediante esta triste questão, eu acredito que me foi negada a justiça natural".

O relatório descreve a justiça natural como o dever geral de justiça que jaz sobre tomadores de decisão, especialmente quando suas decisões são prejudiciais ao bom nome e aos interesses da pessoa afetada. A justiça natural requer que as evidências para decisões prejudiciais sejam reveladas para a pessoa afetada, que então pode responder a elas.

Dado que a obrigação da justiça natural carrega um peso moral assim como legal, Morris tinha o direito de esperar que o seu direito a ela seria respeitado nas negociações vaticanas com ele. A demissão e o julgamento público feitas contra ele são claramente nocivos à sua vida e à sua boa reputação.

A fim de decidir se Morris recebeu a justiça natural, Carter examina então os intercâmbios documentados entre ele e o Vaticano. A questão inicial levantada diz respeito ao seu uso do Rito Geral da Reconciliação na diocese. Ele cessou essa prática quando for instruído. Mais tarde, ele esclareceu para o seu povo uma referência de passagem à discussão europeia sobre padres casados e mulheres presbíteras. Isso ocorreu em uma carta propondo iniciativas pastorais explicitamente baseadas em um sacerdócio masculino celibatário.

Evidentemente, foi apenas depois da sua remoção que se decidiu que ele recebera um documento não assinado da Congregação para os Bispos, levantando os males da igreja Toowoomba e a necessidade de um bispo forte. Algumas das alegações mais específicas eram falsas. A maioria delas eram tão gerais que exigiriam evidências detalhadas em sua justificação. O pedido deMorris de responder a cada acusação e de se encontrar com as autoridades vaticanas competentes foi negado. Carter observa:

É fortemente discutível que a decisão da Congregação dos Bispos ou do seu prefeito tinha sido tomada sem evidências ou com base em provas que eram fatualmente falsas. A ele, o bispo, foi negado o conhecimento da autoria desse documento. Ele não foi informado de qualquer uma das evidências feitas para apoiar o que só pode ser considerado como efeitos seriamente prejudiciais de sua reputação como Bispo da Igreja. Ele também não foi convidado a responder, a comentar ou a explicar o núcleo dessas alegações. Em síntese, foi-lhe negado o direito a ser ouvido.

O relatório conclui que Morris não recebeu a justiça natural no processo que levou à sua remoção. Carter escreve de uma forma comedida, mas a indignação perante esse processo jaz perto de vir à tona.

Em seu comentário, o Pe. Waters explica que o direito canônico prevê a justiça natural em processos para a demissão de sacerdotes, mas não de bispos. Ele concorda que, no processo descrito no relatório, um inquérito administrativo secreto sem direito de defesa pelo acusado, foram negadas a Morris a imparcialidade processual e a justiça natural.

O relatório é perturbador. Nele, um homem com um profundo respeito pela lei e pelos valores morais que ela consagra olha para o que é feito na Igreja Católica e expressa desagrado perante o que vê. Certamente, a autoridade do relatório é limitada, porque Carter teve acesso apenas ao que estava disponível a Dom Morris. Mas a questão que ele apresenta é que foi negado a Morris o acesso e a resposta ao material que ele tinha o direito de ver.

Sua crítica não pode ser refutada apontando para a diferença entre as tradições legais romana e inglesa. O ponto em questão não é lei, mas sim a moral. O argumento saliente precisaria afirmar que o dever de respeitar o bom nome dos outros em processos legais só se aplica em algumas culturas. Mas o relativismo moral desse gênero é justamente visto com maus olhos pelas Igrejas.

Para os cristãos católicos que veem o papado como uma parte crucial da Igreja de Cristo, o memorando também é perturbador. Na fé católica, o papa desempenha o mesmo papel de Pedro no fortalecimento da fé dos irmãos. OPapa Bento XVI disse que, ao demitir bispos, os papas não estão vinculados por processo. Mas o relatório mostra que, por trás dessa aparente ausência de processo, de fato, jaz um processo injusto que prejudicou a reputação de um bom homem.

Torna-se difícil louvar aos cristãos de outras Igrejas o lugar do papado na proclamação do Evangelho.

Finalmente, o relatório é perturbador porque chama a atenção para o sofrimento e a dor que muitas pessoas sofreram com essa questão e a tensão que ele colocou sobre a confiança entre os católicos. Aquelas pessoas cujas vidas, compromissos e reputações foram afetados em diversas formas incluem o próprio Dom Morris, o povo da diocese, Dom Brian Finnegan, administrador apostólico, as lideranças pastorais, os bispos australianos e até mesmo o Papa Bento XVI.

No coração da Igreja, está a reconciliação. O coração não funciona bem quando as veias estão coaguladas.

Para ler mais:

28/01/2012 – Caso Morris e as lições para hierarquia da Igreja

26/10/2011 – Encerrando o caso de Dom Bill Morris 18/05/2011 – Dom Morris e o alimento da Eucaristia

16/05/2011 – Dom Morris, um Gaillot australiano? 14/05/2011 – Bispos da Austrália irão discutir expulsão de Morris durante visita "ad limina"

12/05/2011 – A remoção de Dom Morris. Uma análise 12/05/2011 – Remoção forçada é uma mensagem para todos os bispos, diz Dom Morris

09/05/2011 – Carta Pastoral de William Morris, bispo australiano

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Governo retira de MP artigo que dificultaria aborto legal

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506210-apospolemicagovernoretiradempartigoquedificultariaabortolegal

IHU, 28 de janeiro de 2012

Depois da polêmica com feministas e do mal-estar ocorrido na reunião passada do Conselho Nacional de Saúde, o governo federal decidiu retirar da Medida Provisória que cria o cadastro de gestantes um artigo que fazia referência aos direitos do nascituro. A retificação, que saiu ontem no Diário Oficial da União, ajudou a acalmar os ânimos, mas ainda não conseguiu satisfazer os movimentos sociais. A reportagem é de Lígia Formenti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-1-2012.

por LÍGIA FORMENTI

"O ideal seria tirar toda MP ", afirmou a coordenadora executiva do movimento Católicas pelo Direito de Decidir, Rosângela Talib. Um desfecho que o governo evita a todo custo, de olho principalmente em preservar um dos benefícios criados pela Medida Provisória – o auxílio de R$ 50 para o deslocamento das gestantes até as consultas de pré-natal e ao local em que será realizado o parto. Como é ano eleitoral, a criação do benefício não poderia ser proposta numa MP editada agora.

A decisão de subtrair o ponto considerado mais polêmico foi tomada pela Presidência da República a pedido do Ministério da Saúde, informou o secretário de Atenção da pasta, Helvécio Magalhães. E foi anunciada pela presidente Dilma Rousseff anteontem, durante uma reunião com representantes de movimentos sociais. "Ela acaba com um mal-entendido em torno do assunto", disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Publicada no dia 28 de dezembro, a MP determina a criação de um banco de dados com informações sobre grávidas e sobre atendimento prestado, principalmente àquelas consideradas com gestação de risco. A ideia visa a melhorar o acesso das gestantes à assistência de qualidade e a responsabilizar diretores dos serviços por eventuais falhas de atendimento.

Referência

Desde a sua edição, movimentos sociais apontaram falhas no dispositivo – todas encampadas pela maioria dos integrantes do Conselho Nacional de Saúde. A primeira delas é a referência ao direito ao nascituro – uma brecha, avaliam, para que obstáculos sejam colocados à interrupção da gravidez, mesmo nos casos previstos em lei.

Mesmo dentro do governo, a inclusão do tema havia sido criticada. "Pode parecer paranoia, mas não é", afirmou Elizabete Saar, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, durante um relato pessoal feito na reunião do conselho. Ela disse ainda considerar que o assunto deveria ter sido melhor debatido, o que teria evitado um desgaste desnecessário para o próprio governo.

A falta de discussão sobre o assunto também foi criticada por representantes dos movimentos sociais. E, sobretudo, pelo fato de o texto ter sido editado no formato de Medida Provisória. "Foi uma punhalada pelas costas", definiu a conselheira Lurdinha Rodrigues, durante a reunião realizada na quarta-feira passada.

Nessa reunião, o grupo tentou pedir a retirada total da MP, mas foi convencido pelo ministro da Saúde, também presidente do conselho, a adotar uma medida mais branda. Eles decidiram criar um grupo de trabalho, com prazo de 15 dias para avaliação do texto.

Avanço

Esse grupo vai continuar a discussão, afirmou Jurema Werneck, do Grupo Crioula. "O reconhecimento do erro foi um avanço. A retirada do termo foi importante, mas isso não invalida outros temas que precisam ser debatidos", afirmou. Entre eles está a própria criação do cadastro.

A ideia, de acordo com Padilha, é inspirada numa iniciativa realizada em Cuba para tentar reduzir a mortalidade. "Esse banco não resolve o problema", afirmouLígia Bahia, representante no conselho da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. "Isso só vai resolver quando estudantes de Medicina deixarem de fazer partos sozinhos, quando houver assistência pré-natal de qualidade, quando a mulher não precisar ouvir da equipe médica que tem de voltar para casa porque ainda não chegou a hora do parto ou peregrinar de hospital em hospital para saber se há vagas de atendimento."

Miranda afirmou que as conclusões do grupo de trabalho poderão ser apresentadas num segundo momento para o relator da MP.

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Acesso à água desencadeará as grandes guerras do século

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506202-acesso-aaguadesencadearaasgrandesguerrasdoseculo

IHU, 28 de janeiro de 2012

Se as guerras do século XX foram motivadas pela exploração do petróleo, os conflitos do século XXI estarão centrados no controle dos hídricos, previu o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. “Quem controla a água controla a vida”, disse.

A reportagem é de Micael Vier B. e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 27-01-2012.

Boaventura apresentou palestra em São Leopoldo, hoje, no Fórum Social Temático 2012, evento preparatório para a Cúpula dos Povos da Rio + 20. Ele fez um apelo para que o tema da água motive a agregação dos movimentos sociais, reunindo em torno dele povoados rurais e urbanos, movimentos de mulheres e indígenas.

Ao sinalizar dois grandes paradigmas em torno da temática, o sociólogo disse que enquanto comunidades consideram a água um bem comum vinculado à sua história, identidade e espiritualidade, a tese defendida pelo Banco Mundialsubmeteu a exploração da água às leis do mercado.

As dimensões do problema revelam que 17% da população mundial não possuem acesso à água potável, enquanto 40% dos moradores do planeta não têm saneamento básico. Mesmo Manaus, cidade cercada com a maior quantidade de água doce no mundo, apresenta problemas de coleta e tratamento de esgoto.

Em países do continente africano, afirmou Boaventura, o problema aflige diretamente a população feminina, na medida em que muitas mulheres chegam a consumir seis horas diárias na busca por alguns litros de água. “Essas pessoas realizam um esforço extraordinário para garantir a sustentabilidade de suas famílias”, enfatizou.

Dados oferecidos na palestra indicam que entre 40 a 90 milhões de pessoas foram deslocadas de suas propriedades no último século em decorrência de grandes projetos de mineração e barragem, a exemplo do que ocorre atualmente no Estado do Pará com a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Como alternativa, Boaventura enalteceu o surgimento de um novo conceito de segurança humana, pautado pela democratização da água, pelo respeito ao valor atribuído a ela pelas diferentes culturas e por um processo de implementação do que denominou de uma “cultura da água”, a começar nas escolas.

Segundo o sociólogo, daqui a dez anos a humanidade estará travando esse mesmo diálogo em torno do ar, que já começa a ser explorado enquanto mercadoria, embora seja, assim como a água, uma falsa mercadoria na medida em que não é produzido pelo homem, mas a ele concedido de forma gratuita.

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Public Eye Awards

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506203-valevenceopubliceyeawardspremiodepiorempresadomundo

IHU, 28-1-12

Vale ganha premio de pior empresa do mundo

Após 21 dias de acirrada disputa, a mineradora brasileira Vale foi eleita, nesta quinta, 26, a pior corporação do mundo noPublic Eye Awards, conhecido como o “Nobel” da vergonha corporativa mundial. Criado em 2000, o Public Eye é concedido anualmente à empresa vencedora, escolhida por voto popular em função de problemas ambientais, sociais e trabalhistas, durante o Fórum Econômico Mundial, na cidade suíça de Davos.

A informação é do Movimento Xingu Sempre Vivo, 27-01-2012.

Este ano, a Vale concorreu com as empresas Barclays, Freeport, Samsung, Syngenta e Tepco. Nos últimos dias da votação, a Vale e a japonesa Tepco, responsável pelo desastre nuclear de Fukushima, se revesaram no primeiro lugar da disputa, vencida com 25.041 votos pela mineradora brasileira.

De acordo com as entidades que indicaram a Vale para o Public Eye Award 2012 – a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale (International Network of People Affected by Vale), representada pela organização brasileira Rede Justiça nos Trilhos, e as ONGs Amazon Watch e International Rivers, parceiras do Movimento Xingu Vivo para Sempre, que luta contra a usina de Belo Monte -, o fato de a Vale ser uma multinacional presente em 38 países e com impactos espalhados pelo mundo, ampliou o número de votantes. Já para os organizadores do prêmio, Greenpeace Suíça e Declaração de Berna, a entrada da empresa, em meados de 2010, no Consórcio Norte Energia SA, empreendimento responsável pela construção de Belo Monte, foi um fator determinante para a sua inclusão na lista das seis finalistas do Public Eye deste ano.

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Presságio

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/pressagio-do-futuro

piauí, 12/08/2011

por BERNARDO ESTEVES

Presságio do futuro

Completa vinte anos este mês uma iniciativa notável que oferece uma alternativa à forma como os cientistas divulgam seus trabalhos. Trata-se do arXiv, um grande repositório no qual são postados artigos antes que sejam aceitos para publicação nas revistas especializadas. Adotado por boa parte dos físicos e por pesquisadores de outras ciências exatas, o portal aponta para o que pode ser o futuro da publicação científica.

As revistas técnicas – que os pesquisadores chamam de periódicos – são hoje as responsáveis pela validação e pelo controle de qualidade da ciência. Antes de serem publicados, os artigos submetidos são lidos e questionados por especialistas daquela área. Esse processo de revisão por pares permite vetar trabalhos de qualidade duvidosa e aprimorar estudos que contenham erros ou lacunas (leia outro post do blog sobre o universo da publicação científica).

Uma das desvantagens desse processo é a demora entre o envio de um artigo e a sua publicação. O arXiv (pronuncia-se ‘arcaive’) nasceu da necessidade dos cientistas de compartilhar seus trabalhos de forma descomplicada enquanto ainda estão em processo de revisão. O repositório foi lançado em agosto de 1991, quando a world wide web ainda estava engatinhando. Num artigo publicado esta semana na Nature para celebrar os vinte anos do portal, o pai dessa iniciativa, Paul Ginsparg, se lembra como esse processo era custoso:

“É difícil acreditar, mas tempo e esforço consideráveis eram gastos para imprimir, xerocar e mandar pelo correio os manuscritos não publicados para um grupo privilegiado de amigos e colegas antes de sua publicação formal em periódicos. A ideia de um repositório central era permitir que qualquer pesquisador no mundo com acesso à rede submetesse e lesse artigos na íntegra”.

A expectativa inicial era que cerca de 100 textos fossem publicados por ano no repositório. O serviço não demorou a conquistar adeptos entre físicos, matemáticos, estatísticos e cientistas da computação. Antes do fim da década, ele já recebia mais de 2 mil artigos por mês. Hoje, mais do que uma prática corriqueira, a publicação no arXiv é a principal forma de comunicação para pesquisadores de várias áreas.

“Existem poucas áreas da física moderna em que o ‘quente’ não esteja nos arXivs”, explicou o brasileiro Daniel Doro Ferrante, pesquisador da Universidade Brown, nos Estados Unidos. “Praticamente ninguém lê outra coisa”. Ele acrescentou que, na área de física teórica de altas energias – a primeira a adotar o sistema –, a publicação formal em periódicos passou para o segundo plano. “Essa comunidade lê apenas os arXivs – publicar para eles é apenas uma questão da ‘numerologia da ciência’.”

Para ilustrar a reputação desse repositório, Ferrante citou o exemplo da prova da conjectura de Poincaré – uma demonstração que os matemáticos perseguiram durante um século e que era considerada um dos maiores problemas em aberto de sua disciplina. Quando o russo Grigori Perelman resolveu o problema no início da década passada, não se deu ao trabalho de submeter sua prova a um periódico – os três artigos com a demonstração foram publicadosapenas no arXiv (uma excelente reportagem na piauí 12 conta em detalhes a história da demonstração). “Perelman foi agraciado com a Medalha Fields e outros prêmios por isso sem ter feito uma única publicação com revisão por pares”, lembrou Ferrante. “Ele disse claramente que não acredita na avaliação de seus pares”.

Os números atuais de adesão ao arXiv evidenciam sua penetração. Segundo o artigo de Ginsparg, o repositório armazena atualmente quase 700 mil textos e recebe 75 mil novos artigos por ano. A cada semana, cerca de 400 mil usuários fazem em média um milhão de downloads.

Para o futuro, o arXiv se vê diante de desafios para se tornar uma alternativa à revisão por pares em escala mais ampla. Uma dificuldade será convencer pesquisadores de outras áreas a aderir a esse modelo – biólogos, por exemplo, são mais refratários à ideia de tornar públicos trabalhos ainda não validados pela comunidade. Outro desafio consiste em dotar o arXiv de recursos que permitam uma avaliação informal e orgânica feita pela comunidade. Hoje, o portal apenas armazena os artigos, e essa avaliação é feita nas caixas de comentários de blogs que referenciam o arXiv – o repositório não conta com esse recurso porque isso exigiria um alto investimento de tempo e recursos para a moderação da discussão.

No artigo da Nature, Ginsparg expôs sua expectativa para o futuro do arXiv e da publicação científica de forma geral: “Minha esperança é que, mais do que simplesmente usar a infraestrutura eletrônica como um meio mais eficiente de distribuição, a revolução iminente leve no final a uma estrutura de conhecimento mais poderosa, transformando na essência os meios que usamos para processar e organizar os dados científicos.”

Que os próximos anos do arXiv permitam caminhar nessa direção.

(Foto: Elvis Santana)

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Passou raspando

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/22474-asteroide-com-11-metros-de-diametro-passa-perto-da-terra.shtml

FSP, 28-1-12

Asteroide com 11 metros de diâmetro passa perto da Terra

Um asteroide com cerca de 11 metros de diâmetros passou "raspando" pela Terra ontem.

Batizado de 2012 BX34, o bólido foi descoberto apenas na última quarta-feira. Ele passou a uma distância aproximada de 59 mil quilômetros do planeta. Isso representa cerca de um quinto da distância entre a Terra e a Lua.

Inicialmente, cientistas haviam calculado que o asteroide ficaria a até 20 mil quilômetros da Terra. Essa distância é realmente "colada" ao planeta e significaria que o bólido poderia até estar na rota de alguns dos satélites geoestacionários.

Embora isso logo tenha sido descartado, astrônomos dizem que a aproximação está entre as 20 maiores já registradas.

O asteroide, cujo risco de colisão já havia sido descartado pelo cientistas,não é o primeiro a passar bem perto da Terra nesta semana. Na segunda feira, o 2012 BS1, de sete metros, passou a pouco mais de três vezes a distância Terra-Lua.

O 2012 BX3 não é visível a olho nu, mas pode ser visto por astrônomos amadores. Registros de sua passagem feitos por telescópios fora de centros de pesquisa já estão na internet.

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Remessa de montadoras é recorde em 2011

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/22550-remessa-de-montadoras-e-recorde-em-2011.shtml

FSP, 28-1-12

Indústria automotiva brasileira enviou às matrizes no exterior US$ 5,6 bilhões, segundo balanço do Banco Central

Valor foi 36,1% maior que o registrado em 2010; associação disse que resultado reforça ação contra importados

por VENCESLAU BORLINA FILHO

A indústria automotiva brasileira alcançou recorde histórico de lucros e dividendos remetidos ao exterior. Segundo balanço do Banco Central, em 2011, foram US$ 5,58 bilhões -36,1% a mais que no ano anterior.

A movimentação coincide com o ano de agravamento da crise europeia, a queda na produção de peças e veículos no Japão e na Tailândia por causa do terremoto e do tsunami e a retomada dos investimentos no setor nos EUA.

De acordo com o balanço do BC, a remessa é superior à de bancos (US$ 3,15 bilhões) e à de empresas de telecomunicações (US$ 2,44 bilhões) -setores que mais enviam valores às matrizes no exterior.

Para o professor de economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Célio Hiratuka, as remessas preocupam porque as montadoras poderiam aplicar os recursos no Brasil em vez de enviá-los às matrizes.

Segundo ele, em 2010, as montadoras anunciaram investimentos de US$ 3,8 bilhões no país. "O volume registrado comprova que os investimentos poderiam ser maiores do que os anunciados pelas empresas", disse.

A Anfavea (associação dos fabricantes de veículos) não quis se manifestar ontem sobre as remessas. No ano passado, a associação das marcas com fábrica no país anunciou investimentos de US$ 21 bilhões até 2015 no setor.

O presidente da Abeiva (associação dos importadores de veículos), José Luiz Gandini, criticou as empresas. "Quem vive fase de necessidade de proteção governamental não envia lucros exorbitantes às suas matrizes", disse.

Ele se referiu ao "lobby" da Anfavea no governo para elevar em 30 pontos percentuais o aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). O aumento passou a vigorar no dia 16 de dezembro e reduziu as vendas.

Gandini reiterou que espera respostas do governo sobre propostas feitas, entre elas a revisão do decreto que elevou o IPI e a fixação do teto de importação de veículos em 200 mil unidades por ano.

"Esse volume significa 5,6% do mercado brasileiro", afirmou.

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Obra relaciona capitalismo e gestão de afetos

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/22485-obra-relaciona-capitalismo-e-gestao-de-afetos.shtml

FSP, 28-1-12

Livro da socióloga Eva Illouz propõe compreender sistema econômico sob a ótica das afeições pessoais e crenças

Ela ainda foi capaz de mostrar como a valorização do capital poderia ser impulsionada por uma boa gestão de afetos

por VLADIMIR SAFATLE

Estamos acostumados a compreender o capitalismo como um sistema econômico caracterizado principalmente pelo livre mercado, pela concorrência entre os atores econômicos e por uma dinâmica de autovalorização incessante do capital.

No entanto, o capitalismo é, também, uma forma de vida que racionaliza várias dimensões sociais a partir de um conjunto de valores morais, psicológicos e de princípios de avaliação.

Podemos falar, aqui, que estamos diante de uma forma de vida, porque não se deseja da mesma forma dentro e fora do capitalismo, assim como não se trabalha e não se fala da mesma forma.

O desejo, o trabalho e a linguagem têm uma configuração específica no interior das sociedades capitalistas avançadas.

Foi tomando tal perspectiva como ponto de partida que a socióloga Eva Illouz propôs compreender os afetos nos tempos do capitalismo ou, para ser mais preciso, compreender o capitalismo como um sistema de produção e gestão de afetos.

TRADUÇÃO

Infelizmente, por alguma razão obscura, a tradução mudou o título para um injustificável "O Amor nos Tempos do Capitalismo" (e não afetos nos tempos do capitalismo, como seria o correto).

Pois a interessante tese central do livro é de que a psicanálise freudiana desencadeou a produção de uma "cultura afetiva intensamente especializada", de um "novo estilo afetivo, o estilo afetivo terapêutico", que servirá de base para uma modificação mais profunda na maneira com que o mundo contemporâneo do trabalho, do consumo e das instituições implica sujeitos.

Illouz descreve, por exemplo, este rápido processo por meio do qual a maneira freudiana de pensar o eu, com sua história de conflitos, seu modo de narrar tal história e exigir reconhecimento social, irá reconfigurar a imaginação empresarial.

Desde os estudos clássicos de Elton Mayo sobre o trabalho na General Electric, o mundo empresarial aprendeu o léxico das relações humanas, a terminologia da psicologia motivacional e a necessidade de "comunicar seus sentimentos".

Em suma, ele aprendeu aquilo que a autora chama de "cultura terapêutica".

Um aprendizado que não deixava de tecer relações com as modificações produzidas por Freud em nossa compreensão do eu.

Assim, "um discurso científico [a psicologia] que versava primordialmente sobre pessoas, interações e sentimentos transformou-se no candidato natural para moldar a identidade no trabalho".

Tal engenharia psicológica, segundo a autora, saturou a esfera econômica com afetos: "Um tipo de afeto comprometido com o imperativo de cooperação e com uma modalidade de resolução de conflitos baseada no ‘reconhecimento’".

Ela ainda foi capaz de mostrar como a valorização do capital poderia ser impulsionada por uma boa gestão de afetos, pelo bom uso da "inteligência emocional".

Illouz ainda lembra como tal saturação da esfera econômica pelos afetos não poderia deixar de interferir nos relacionamentos íntimos.

Esses, por sua vez, foram cada vez mais objetos de racionalização e cálculos de custo/benefício dignos do mundo empresarial.

Ou seja, ao voltar para a dimensão dos relacionamentos familiares e amorosos, a preocupação com os afetos trouxe os princípios de racionalização que regem a esfera econômica.

NEGOCIAÇÃO DO AMOR

Um estudo, no capítulo final, sobre sites de relacionamento e entrevistas com usuários procura expor o ponto extremo de tal processo.

Maneira de mostrar até onde pode ir o processo de mercantilização e reificação das relações amorosas.

Processo no interior do qual "é difícil separar o sentimento romântico da experiência do consumo".

Com tais teses importantes, o estudo de Illouz demonstra o tipo de contribuição que a articulação entre teoria social de inspiração frankfurtiana e psicanálise ainda é capaz de fornecer para uma perspectiva crítica das sociedades capitalistas.

Ele demonstra como não há crítica possível sem levar em conta a perspectiva dos indivíduos com seus sistemas de afetos e crenças.

O AMOR NOS TEMPOS DO CAPITALISMO
AUTOR Eva Illouz
EDITORA Zahar
TRADUÇÃO Vera Ribeiro
QUANTO R$ 36 (188 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

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Autora de 27 anos sem editora vende 1,5 milhão de livros na web

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/22500-autora-de-27-anos-sem-editora-vende-15-milhao-de-livros-na-web.shtml

FSP, 28-1-12

Americana Amanda Hocking conta histórias com seres místicos

por ED PILKINGTON
do “GUARDIAN”

Quando escreverem sobre a transformação digital no mundo dos livros, é quase certo que falarão de Amanda Hocking, escritora de 27 anos que emergiu da obscuridade para o status de best-seller em 18 meses, graças a seus esforços de autopublicação.

Em abril de 2010, ela estava em seu apartamento minúsculo em Austin, Minnesota, sem um tostão e frustrada por ter passado anos tentando fazer com que editoras se interessassem por suas obras.

Sem dinheiro, pegou um dos romances que escreveu em nove anos, todos rejeitados por editoras, e o colocou na Amazon e em outros sites de venda de livros digitais.

Seis meses depois, tinha vendido 150 mil exemplares. Nos últimos 20 meses, vendeu 1,5 milhão de livros. Tudo sozinha.

Hocking foi criada na zona rural de Minnesota. O dinheiro era pouco e não havia TV a cabo com a qual se distrair.

"Por isso lia muito. Acabava com os livros tão rápido que comecei a ler livros adultos, que eram mais compridos."

Aos sete anos, consumia Stephen King, Michael Crichton, J.D. Salinger, Jane Austen, Mark Twain, Jack Kerouac, Kurt Vonnegut.

O que entrava tinha que sair. Ela começou a contar suas próprias histórias ainda criança. Vivia inventando mundos de faz de conta.

O primeiro livro que completou, "Dreams I Can’t Remember" (sonhos de que não lembro), foi feito aos 17 anos.

Animada, imprimiu cópias para amigos e familiares, além de enviá-lo para várias editoras. "Recebi cartas de rejeição de todas. Eu não as culpo -o livro não era bom."

Mas ela não desistiu. Foi escrevendo um livro após o outro. "Às vezes eu dizia a mim mesma: ‘Chega, nunca mais vou escrever outro livro’, mas, dois meses mais tarde tinha outra ideia e começava de novo, pensando que dessa vez não deixaria de funcionar."

Em 2009, mergulhou num frenesi -movido a Red Bull- de escrever à noite. Quando entrava no espírito da coisa, conseguia redigir um romance em duas ou três semanas. Em 2010, já tinha acumulado 17 romances inéditos, todos juntando poeira digital no desktop de seu laptop.

Em fevereiro de 2010, recebeu sua última carta de rejeição. Poucos dias após jogar o livro na rede, já estava vendendo nove exemplares por dia de "My Blood Approves" (meu sangue aprova), sobre vampiros em Minneapolis.

Em maio, postou mais dois livros da série, "Fate" (destino) e "Flutter" (tremor), e vendeu 624 cópias. Em julho, postou "Switched" (trocada).

Em janeiro do ano passado, já estava rendendo mais de US$ 100 mil por mês.

O fato de ser sua própria chefe lhe permitiu definir seus preços: decidiu cobrar US$ 0,99 (R$ 1,73) pelo primeiro livro de cada série, para atrair leitores, e aumentar o preço de cada sequência para US$ 2,99 (R$ 5,21).

Em novembro, entrou no Kindle Million Club, com mais de 1 milhão de livros vendidos. "As coisas foram de zero a 60 da noite para o dia. Todo mundo comprava meus livros. Foi uma coisa avassaladora."

Fechou um contrato de US$ 2,1 milhões (R$ 3,7 milhões) com a americana St. Martin’s Press e com a britânica Pan Macmillan para publicar sua próxima leva de livros.

A estreia do contrato é com "Switched", um romance protagonizado por trolls (chamados trylles) que são trocados por bebês humanos.

A série "Watersong", sobre irmãs e sereias, será lançada em agosto. Mais informações estão disponíveis em worldofamandahocking. com.

Tradução de CLARA ALLAIN.

SWITCHED
AUTORA Amanda Hocking
QUANTO de US$ 6,66 (versão Kindle) a US$ 8,99 (livro físico) na Amazon.com

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Prazeres da “melhor idade”

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/22511-prazeres-da-quotmelhor-idadequot.shtml

FSP, 28-1-12

por RUY CASTRO

A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" -algo entre os 60 anos e a morte.

Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.

Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.

Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

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Operação desastrosa

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/22509-operacao-desastrosa.shtml

FSP, 28-1-12

por HÉLIO SCHWARTSMAN

A julgar pelos resultados, a operação policial no Pinheirinho foi desastrosa: algumas pessoas saíram machucadas, famílias ficaram sem ter onde morar e o "imbróglio" judicial em torno da massa falida da Selecta não ficou mais perto do fim.

Boa parte das consequências era previsível antes de o juiz assinar a reintegração de posse e a polícia executá-la. A pergunta é: por que tanta gente participou de uma ação da qual claramente resultaria mais mal do que bem? Respondê-la é tarefa para os novos cientistas do mal, pesquisadores como Roy Baumeister, que se dedicam a estudar como a violência brota e se espalha pela sociedade.

Entre várias descobertas e "insights" valiosos, Baumeister mostra que um modo eficaz de arrebanhar perpetradores para ações cruéis é dividir a responsabilidade, de preferência entre muitos atores, incluindo figuras de autoridade. A psicologia de grupo ensina que, nessas situações, poucos ousarão levantar a voz para denunciar a imoralidade e, como ninguém se sentirá pessoalmente responsável, não deverá opor muita resistência em tomar parte no processo.

Uma receita quase infalível é a preconizada pelo sistema: um juiz defere a reintegração e não tem mais nada a ver com isso; o governador manda a polícia cumprir a determinação judicial e sai de cena; o comandante ordena à tropa que aja, e os soldados, que têm juízo, obedecem. Ninguém é responsável sozinho e, por isso, fica fácil espancar uns pobres diabos e pôr famílias no olho da rua.

Muitas vezes, essa divisão do trabalho e das responsabilidades funciona para o bem, mas nem sempre. Se a ideia é fazer justiça e não só cumprir leis, juízes talvez devessem visitar as áreas a ser reintegradas e conversar com os moradores antes de assinar despachos. Os americanos chamam isso de "igual consideração de interesses", um princípio moral que alguns filósofos consideram tão ou mais importante que a própria noção de direitos.

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‘Partícula de Deus’ pode ser miragem

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/22470-particula-de-deus-pode-ser-miragem-afirmam-fisicos.shtml

FSP, 28-1-12

Novo estudo propõe que indícios recentes do famoso bóson de Higgs são, na verdade, de outra partícula

Físicos do mundo todo estão em busca do bóson de Higgs, partícula que, na teoria, dá massa às outras

por SALVADOR NOGUEIRA

Talvez a descoberta iminente do bóson de Higgs, partícula responsável por dar massa a todas as outras, não passe de miragem -algo que parece ser ele, mas não é.

É o que sugere um estudo teórico feito por um trio de cientistas no Brasil. Eles oferecem uma explicação alternativa para as recentes observações no LHC (Large Hadron Collider), o maior acelerador de partículas do mundo.

Em dezembro, pesquisadores de dois dos experimentos instalados no acelerador, Atlas e CMS, anunciaram ter achado indícios da presença do fugidio Higgs em meio às colisões na instalação.

O LHC descobre novas partículas produzindo-as. Para isso, ele promove a colisão de prótons em alta velocidade. Quando ocorre o impacto, a energia acumulada nos prótons é convertida numa miríade de partículas, muitas delas com vida bem curta.

Seria o caso do famoso Higgs, conhecido como a "partícula de Deus" por sua importância na atribuição de massa a todas as outras. Pela teoria, ele dura uma fração de segundo antes de decair, transformando-se em outras partículas mais leves.

A identificação do bóson se faz pelo número de eventos de decaimento associados a ele. É uma questão de estatística. Por isso os cientistas ainda não confirmaram se o Higgs está mesmo lá.

Se o achado não se confirmar, será preciso buscar outro modelo para o Higgs. E é isso que Gustavo Burdman e Carlos Haluch, da USP, e Ricardo Matheus, da Unesp, acabam de apresentar.

Em artigo publicado no repositório de estudos de física Arxiv.org, eles sugerem um modelo diferente mas compatível com as observações feitas até agora no LHC.

Segundo o estudo, o que os cientistas estão vendo no acelerador seria uma partícula associada ao Higgs, mas não o próprio bóson.

Enquanto o Higgs tradicional se transforma em diversas partículas, como pares de fótons e de partículas Z e W, a partícula sugerida por Burdman e seus colegas decai em fótons, mas não em Z e W.

Por conta disso, será possível separar o Higgs verdadeiro de sua "miragem". Mas, por ora, até os autores do novo estudo admitem que o mais provável é a confirmação da opção tradicional.

"Um maior acúmulo de dados, ao longo de 2012, vai definir a situação. Se só o sinal de fótons se confirmar, então não se trata da partícula que a gente chama de Higgs. Nesse caso, nosso modelo poderia dar uma possível explicação", diz Burdman.

Para os experimentalistas do LHC, trabalhos como esse só significam mais emoção.

"São incontáveis os artigos que tratam de modelos com uma estrutura de Higgs mais complexa do que aquela do modelo-padrão. Haverá uma série de testes para verificar se suas características coincidem com as previstas ou não", diz Sergio Novaes, físico da Unesp envolvido com as observações no LHC.

"Teremos muita diversão pela frente."

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Duelo de titãs

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/1038765-duelo-de-titas.shtml

UOL, 25-1-12

por HÉLIO SCHWARTSMAN

É briga de cachorro grande. De um lado, estão grandes produtores de obras protegidas por direitos autorais, como Hollywood, o que restou da indústria fonográfica e grandes editoras. Do outro, alinham-se ícones da era digital como Google, Facebook, Wikipédia.

O objeto da disputa são dois projetos de lei que tramitam no Congresso dos EUA conhecidos pelas siglas Sopa e Pipa, que preveem punições severas não apenas para quem pirateia conteúdos e marcas, mas também para quem “permita ou facilite” essas atividades, daí a preocupação dos gigantes da nova mídia. Se as normas mais draconianas forem aprovadas, eles teriam de responder não apenas por suas próprias ações, o que é normal, mas também pelo que usuários de seus serviços possam fazer, o que não é.

Há várias outras disposições apontadas como abusivas. Juízes estariam a autorizados a expedir mandados que suspendam publicidade tida por irregular (o alvo são anúncios oferecendo remédios mais baratos importadas do Canadá) e suspendam operações de pagamento para websites suspeitos. O Judiciário poderia também exigir que programas de busca deixassem de fazer o link para supostos infratores e até que provedores de acesso bloqueassem suas atividades. As penas chegariam a cinco anos de cadeia para quem cometer dez dessas infrações num prazo de seis meses.

A batalha ganhou visibilidade global na semana passada, depois que o presidente Barack Obama se manifestou sobre a questão, afirmando que a Casa Branca não apoiará leis que favoreçam a censura na internet ou reduzam a inovação, e representantes da nova mídia organizaram um dia de protesto contra os projetos. A versão em língua inglesa da Wikipedia fez uma greve de 24 horas. A operação foi tão bem-sucedida que os republicanos, que patrocinavam os projetos, acharam melhor colocá-los na geladeira, “até que haja consenso”. Ou seja, mais dia, menos dia, voltarão à carga, provavelmente em termos mais brandos.

Não há muita dúvida de que as propostas eram excessivas. Um dos princípios mais elementares do direito penal é o de que as condutas dos diversos agentes precisam ser meticulosamente individualizadas e ninguém responda por ilícitos que não tenha cometido. A Sopa liquefaz esse preceito.

Obama não exagera quando diz que, se essas regras estivessem em vigor, a liberdade de expressão e o potencial para produzir coisas novas seriam em certa medida erodidos. Uma das características mais interessantes e revolucionárias da rede mundial de computadores é sua capacidade de ligar bilhões de usuários e ideias, multiplicando as possibilidades de interação. Uma internet menos livre reduz algo dessa propriedade emergente, que é sua maior virtude.

Apesar disso tudo, devemos refrear nosso ímpeto natural de apoiar incondicionalmente os que defendem a liberdade total na rede, sem considerações para com direitos autorais. Embora essa posição possa satisfazer nossos ideais românticos, ela é inconsequente.

Gostemos ou não, tudo, de um clipe a uma tese de doutorado, tem custos de produção. Podemos ir um pouco mais longe e afirmar que itens de melhor categoria tendem a ser mais caros, pela simples razão de que demandam mais recursos e trabalho para ser feitos. Se queremos ter acesso a textos, sons e imagens de qualidade na internet, precisamos antes de mais nada encontrar uma fórmula que garanta remuneração a seus autores, ou eles se dedicarão a outras atividades, que lhes garantam o leite das crianças. Basicamente, não há milagre (ou “almoço grátis”, se é lícito citar Milton Friedman): sem direitos autorais ou outra forma equivalente não haverá autores para produzir o que queremos ler, ouvir e ver. Ou melhor, até haverá quem o faça de graça, por prazer, vaidade ou legítima benevolência, mas não em tempo integral nem com os bônus gerados pela especialização.

Assim, apesar do que diziam os chineses alguns anos atrás, quando ainda eram comunistas de verdade e pirateavam tudo alegando que todo o edifício intelectual era patrimônio da humanidade, direitos autorais têm uma função social, que é a de permitir que alguns indivíduos possam dedicar-se integralmente atividades intelectuais ou artísticas não financiadas pelo Estado. Proteger esse sistema através de leis não é uma ideia absurda, desde que as regras não criem prejuízos maiores do que os ganhos que pretendem assegurar. Não é este o caso de Sopa/Pipa, mas daí não decorre que seja impossível chegar a uma legislação balanceada para o problema.

Adianto, porém, que, até por razões biológicas, eliminar ou reduzir a pirataria será provavelmente mais difícil do que controlar outros tipos de ato considerados delituosos. Comecemos com Kant. O filósofo de Königsberg conclui a “Crítica da Razão Prática” afirmando que duas coisas o enchiam de admiração: “O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim”. Com efeito, a lei moral em nós é provavelmente o atributo social mais venerável dos seres humanos.

Leis, como todo mundo sabe, servem para definir crimes e, ao fazê-lo, prevenir sua ocorrência, ao introduzir um custo (a pena prevista) para quem os cometer. Até certo ponto, funciona. Mas vale lembrar que, historicamente, o homem e seus ascendentes viviam em bandos milhões de anos antes de serem capazes de escrever as primeiras leis. Isso implica que existem outras formas de promover a sociabilidade.

Antes do Código de Hammurabi já existiam leis não escritas que eram impostas na forma de normas culturais. E, antes mesmo de sermos capazes de trocar ideias e desenvolver culturas, já estavam em jogo sentimentos e emoções de origem puramente biológica que permitiram que formássemos grupos, a exemplo de babuínos e lêmures.

Os exemplos clássicos são as sensações de culpa e vergonha, às vezes chamadas de emoções sociais, já que favorecer a convivência com o próximo parece ser sua principal razão de existência. Mas não é só. Há uma série de experimentos psicológicos fortemente sugestivos de que o ser humano tem uma espécie de resistência natural em provocar dano físico a terceiros.

A evidência vem de diferentes fontes. Há uma série de experimentos mentais, em que um número substancial e desproporcional de pessoas diz que não tomaria uma determinada ação, como empurrar alguém sobre a linha do trem, ainda que essa atitude salvasse um grande número de vidas. Cushman e seus colaboradores chegaram à mesma conclusão medindo as reações fisiológicas de uma série de voluntários enquanto cometiam assassinatos simulados. Grossman mostrou que até soldados treinados e motivados para matar muitas vezes erram o alvo deliberadamente.

Isso não significa que sejamos incapazes de matar (há farta
documentação que prova o contrário), mas sim que, para fazê-lo, precisamos passar por cima de certas programações cerebrais. Para a maioria de nós, fazê-lo pode exigir algum treinamento. Há trabalhos mostrando que mesmo assassinos seriais precisam de algum preparo antes de conseguir eliminar suas vítimas sem experimentar reações de aversão.

Não há muita dúvida de que esse filtro natural ajuda bastante na implementação das leis contra o homicídio. A esmagadora maioria da população jamais assassinou ninguém e não o faria mesmo que não existisse nenhuma norma legal contra isso. Homicídios são mais raros do que roubos à mão armada, que são mais raros do que furtos, que são mais raros do que a compra de DVDs piratas.

A natureza, é claro, não teve tempo de desenvolver genes de proteção à propriedade privada –uma invenção relativamente recente–, mas a ideia de que é errado roubar objetos físicos está solidificada em alguns milênios de normas culturais. Já a noção de que não é muito bacana apertar um botão para copiar gratuitamente o filme produzido por um terceiro é justamente isto: uma leve noção, que não está amparada por nenhum tipo de emoção social e nem mesmo tradição cultural. Até que o grosso da população mundial introjete essa ideia e reconheça os direitos autorais como uma forma justa de troca social, a pirataria e a reprodução não autorizada deverão continuar sendo um negócio disseminado.

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Maçã explosiva

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/22554-producao-do-ipad-na-china-e-questionada.shtml

FSP, 28-1-12

Apple é denunciada por manter empregados sob condições precárias de trabalho em sua cadeia produtiva

Problemas variam de horas extras excessivas e alojamentos lotados a falhas de segurança graves, por vezes fatais

por CHARLES DUHIGG e DAVID BARBOZA
do “NEW YORK TIMES”

A explosão varreu o Pavilhão A5 numa noite maio de 2011. O incêndio vinha da área em que operários poliam milhares de invólucros de iPads ao dia. O calor, a fuligem e a força da explosão haviam transformado o rosto de um deles numa máscara negra e vermelha que não permitia distinguir sua face.

Ligaram na casa de Lai Xiaodong, um jovem de 22 anos que se mudara seis meses antes para Chengdu, sudoeste da China, para se tornar um entre milhões na engrenagem do maior sistema de produção industrial do mundo. "Ele sofreu um acidente", disseram ao pai de Lai. "Vá ao hospital o mais rápido possível."

Nos últimos dez anos, a Apple se tornou uma das mais poderosas companhias do planeta, em parte, porque aprendeu a dominar a arte da fabricação mundial. Mas os operários que montam os iPhones, iPads e afins, muitas vezes, trabalham em condições precárias, segundo trabalhadores dessas fábricas, defensores dos direitos trabalhistas e documentos divulgados pelas empresas.

Os problemas variam de ambientes de trabalho complicados a falhas de segurança graves, por vezes fatais.

Os trabalhadores podem ficar sujeitos a exigências excessivas de horas extras, às vezes sete dias por semana, e vivem em dormitórios lotados. Alguns dizem que ficam tanto tempo em pé que suas pernas incham a ponto de quase não poderem andar.

Menores de idade ajudam a produzir os aparelhos da Apple. Os fornecedores não tratam corretamente os resíduos industriais perigosos e falsificam seus registros, de acordo com relatórios internos e de grupos ativistas, fiscais da situação na China.

O mais perturbador, dizem os grupos, é que alguns fornecedores desconsideram a saúde dos trabalhadores. Há dois anos, 137 operários de uma empresa fornecedora da Apple no leste da China sofreram lesões quando foram ordenados a utilizar um produto químico venenoso para limpar telas de iPhones. Em um período de sete meses, em 2011, duas explosões em fábricas do iPad, entre as quais a ocorrida em Chengdu, mataram quatro pessoas e causaram ferimentos a outras 77. Antes das explosões, a Apple havia sido alertada quanto às condições arriscadas na fábrica de Chengdu, de acordo com a organização chinesa responsável pelo alerta.

"Se a Apple foi alertada e não agiu, é um comportamento repreensível", disse Nicholas Ashford, ex-presidente do Comitê Consultivo Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional norte-americano, assessor do Departamento do Trabalho dos EUA.

A Apple não é a única a manter um sistema de suprimento perturbador. Mas, apesar dos avanços quanto às condições da fábrica e ao código de conduta para fornecedores (leia ao lado), continuam a existir problemas significativos. Mais da metade dos fornecedores auditados violou pelo menos um aspecto do código de conduta a cada ano, desde 2007.

"A Apple jamais se incomodou com outra coisa que não melhorar a qualidade dos produtos e reduzir o custo de produção", diz Li Mingqi, que até abril era executivo na Foxconn Technology, um dos mais importantes parceiros industriais da Apple.

HORA EXTRA

Na tarde da explosão na fábrica da Foxconn em Chengdu, Lai Xiaodong ligou para a namorada, combinando um encontro para aquela noite. Mas o chefe de Lai disse que teria de fazer horas extras. A fábrica estava operando em ritmo frenético. Fileiras de máquinas poliam os invólucros de iPads, operadas por operários com máscaras de segurança. O ar estava tomado por pó de alumínio.

O pó de alumínio é um risco de segurança conhecido, causador de explosões. Duas horas depois que começou o segundo turno de trabalho de Lai, o edifício começou a balançar. Houve uma série de explosões. Foram quatro mortos e 18 feridos. Lai sofreu queimaduras em mais de 90% do corpo. Para a família, resta uma questão.

"Não sabemos ao certo por que ele morreu", disse a mãe de Lai. "Não compreendemos o que aconteceu."

Tradução de PAULO MIGLIACCI.

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A crise da democracia segundo Negri e Hardt

A crise da democracia na era da globalização armada

Acreditava-se que o fim da guerra fria constituiria a vitória final da democracia, mas hoje o conceito e as práticas da democracia estão em crise por toda parte. Até mesmo nos EUA, o autoproclamado paradigma global da democracia, instituições tão centrais quanto os sistemas eleitorais têm sido seriamente questionadas, e em muitas partes do mundo mal se chega a encontrar um simulacro de sistemas democráticos de governo. E o constante estado de guerra global solapa as débeis formas de democracia existentes.

Ao longo de grande parte do século 20, o conceito de democracia foi ao mesmo tempo limitado e promovido pela ideologia da guerra fria. De um lado da linha divisória da guerra fria, o conceito de democracia tendia a ser definido estritamente em termos de anticomunismo, de tal forma que se tornava sinônimo de “mundo livre”. Desse modo, a palavra democracia pouco tinha a ver com a natureza do governo: qualquer Estado que fizesse parte da muralha de defesa contra aquilo que era encarado como o totalitarismo comunista podia ser considerado “democrático”, independente de seu efetivo grau de democracia.

Do outro lado da linha divisória da guerra fria, os países socialistas também se diziam “repúblicas democráticas”. Também essa alegação pouco tinha a ver com a natureza do governo, remetendo primordialmente, em vez disso, à oposição ao controle capitalista: qualquer país que fizesse parte da muralha de defesa contra aquilo que era considerado como dominação capitalista podia apresentar-se como uma república democrática. Em nosso mundo posterior à guerra fria, o conceito de democracia foi desvinculado de suas rígidas amarras da guerra fria e passou a navegar sem rumo. Talvez por esse motivo, há alguma esperança de que recobre sua antiga importância.

A crise da democracia hoje tem a ver não só com a corrupção e a insuficiência de suas instituições e práticas, mas também com o próprio conceito. Parte da crise está no fato de que não está claro o que significa democracia num mundo globalizado. Certamente, a democracia global terá de significar algo diferente do que significava democracia no contexto nacional ao longo de toda a era moderna. Podemos ter uma ideia dessa crise da democracia pela quantidade de estudos acadêmicos recentes sobre a natureza da globalização e a guerra global em relação à democracia.

Os estudiosos continuam partindo do princípio de que há apoio para a democracia, mas divergem muito quando se trata de saber se a atual forma de globalização aumenta ou diminui os poderes e possibilidades da democracia através do mundo. Além disso, desde o 11/9 o aumento das pressões de guerra polarizou as posições e, aos olhos de alguns, subordinou a necessidade de democracia às preocupações de segurança e estabilidade.

A bem da clareza, vamos separar essas posições de acordo com sua atitude em relação aos benefícios da globalização para a democracia e a sua orientação política geral. Temos assim quatro categorias lógicas que dividem os que acham que a globalização promove a democracia e os que consideram que ela é um obstáculo, à esquerda e à direita. Devemos ter em mente, é claro, que nesses vários debates existem grandes zonas de superposição quanto ao que significa globalização, além do que significa democracia. As designações de direita e esquerda são apenas aproximações, mas ainda assim úteis para separar as diferentes posições.

À esquerda:
(a) Os argumentos social-democratas

Examinemos primeiro os argumentos social-democratas, segundo os quais a democracia é debilitada ou ameaçada pela globalização, em geral definindo a globalização em termos estritamente econômicos. Tais argumentos sustentam que, a bem da democracia, os Estados-nação deviam retirar-se das forças de globalização. Certos argumentos que se encaixam nessa categoria afirmam que a globalização econômica é na realidade um mito, mas um mito poderoso, com efeitos antidemocráticos. Muitas dessas argumentações sustentam, por exemplo, que a economia internacionalizada de hoje não tem caráter inédito (há muito tempo a economia é internacionalizada); que as corporações autenticamente transnacionais (em contraste com as corporações multinacionais) ainda são raras; e que a vasta maioria do comércio que hoje acontece não é efetivamente global, ocorrendo apenas entre a América do Norte, a Europa e o Japão. Apesar de a globalização ser um mito, prosseguem, sua ideologia serve para paralisar as estratégias políticas nacionais democráticas: o mito da globalização e de sua inexorabilidade é usado para atacar as tentativas nacionais de controlar a economia e facilita os programas neoliberais de privatização, a destruição do Estado de bem-estar social e assim por diante. Esses social-democratas sustentam, em vez disso, que os Estados-Nação podem e devem afirmar sua soberania e assumir maior controle da economia nos níveis nacionais e supranacional. Com isso, seria possível restabelecer as funções democráticas do Estado que vêm sendo desgastadas, sobretudo suas funções representativas e suas estruturas previdenciárias. Essa posição social-democrata é a que se viu mais seriamente solapada pelos acontecimentos que se sucederam aos atentados de 11/9 até a guerra do Iraque.

O estado de guerra global parece ter tornado inevitável a globalização (especialmente em termos de segurança e questões militares), sendo portanto insustentável qualquer posição antiglobalização dessa natureza. No contexto do estado de guerra, na realidade, a maioria das posições social-democratas tendem a migrar para uma das duas posições pró-globalização adiante enunciadas. As políticas de Schröder na Alemanha são bom exemplo da maneira como a defesa social-democrata dos interesses nacionais passou a depender fundamentalmente de alianças cosmopolitas multilaterais; e a Grã-Bretanha de Blair constitui a principal ilustração da maneira como se considera que os interesses nacionais são mais bem atendidos pelo alinhamento com os EUA e o apoio a sua hegemonia global.

(b) Os argumentos cosmopolitas liberais

Em oposição às críticas social-democratas da globalização, mas ainda mantendo uma posição política de esquerda, temos os argumentos cosmopolitas liberais que consideram que a globalização propicia a democracia. Não estamos afirmando que esses autores não têm uma crítica das formas contemporâneas de globalização, pois na realidade têm especialmente no que diz respeito às atividades mas desregulamentadas do capital global. Não encontramos contudo argumentos contra a globalização capitalista como tal, e sim argumentos por uma melhor regulamentação institucional e política da economia. Tais argumentos geralmente enfatizam que a globalização traz efeitos positivos em temos econômicos e políticos, assim como formas de enfrentar o estado de guerra global. Além de maior desenvolvimento econômico, eles consideram que a globalização apresenta maior potencial democrático, basicamente em decorrência de uma relativa nova liberdade em relação ao governo dos Estados-nação – e neste sentido é evidente seu contraste com as posições social-democratas. Isso é particularmente verdadeiro, por exemplo, nos debates centrados na questão dos direitos humanos, que sob muitos aspectos assumiu um papel mais importante, contra o poder dos Estados-nação ou apesar dele. As noções de uma nova democracia cosmopolita ou de uma governança global também têm como condição de possibilidade o relativo declínio da soberania dos Estados-nação.

O estado de guerra global transformou o cosmopolitismo liberal numa importante posição política, aparentemente a única alternativa viável ao controle global americano. Contra a realidade das ações unilaterais norte-americanas, o multilateralismo é o método básico da política cosmopolita, e a ONU, seu mais poderoso instrumento. Também poderíamos incluir no limite dessa categoria aqueles que argumentam simplesmente que os EUA não podem “agir sozinhos”, devendo compartilhar seus poderes e responsabilidades de domínio global com outras grandes potências, numa espécie de acordo multilateral destinado a preservar a ordem global.

À direita
(a) Pró hegemonia global dos EUA

Os vários argumentos da direita centrados nos benefícios e na necessidade da hegemonia global americana convergem com os cosmopolitas liberais no sentido de que a globalização nutre a democracia, mas o fazem por razões muito diferentes. Esses argumentos, hoje em dia onipresentes nos principais veículos de comunicação, afirmam geralmente que a globalização propicia a democracia porque a hegemonia americana e a expansão do domínio do capital por si mesmas implicam necessariamente a expansão da democracia. Há quem argumente que o domínio do capital é inerentemente democrático, e que portanto a globalização do capital é a globalização da democracia; outros sustentam que o sistema político americano e o “American way of life” são sinônimos de democracia, sendo portanto a expansão da hegemonia dos EUA uma expansão da democracia, mas em geral esses revelam-se dois lados da mesma moeda.

O estado de guerra global tem proporcionado a essa posição uma plataforma política de nova proeminência. A ideologia que veio a ser conhecida como ideologia neoconservadora, que foi forte esteio do governo Bush, pretende que os EUA refaçam ativamente o mapa político do mundo, derrubando regimes párias potencialmente ameaçadores e criando bons regimes. O governo americano enfatiza que suas intervenções globais não se baseiam apenas em interesses nacionais, e sim nos desejos globais e universais de liberdade e prosperidade. Para o bem do mundo os EUA devem agir unilateralmente, livre das amarras dos acordos multilaterais ou do direito internacional. Entre esses conservadores pró-globalização, verifica-se um debate secundário entre aqueles – geralmente autores britânicos – que consideram a hegemonia global americana como legítima herdeira dos projetos imperialistas europeus benevolentes e os que – autores norte-americanos, como se poderia esperar –, que encaram o domínio global norte-americano como situação histórica radicalmente nova e excepcional. Um autor norte-americano, por exemplo, está convencido de que o excepcionalismo dos EUA apresenta benefícios inéditos para todo o planeta: “Apesar de todas as nossas trapalhadas, o papel desempenhado pelos EUA é a maior bênção recebida pelo mundo em muitos e muitos séculos, e talvez mesmo em toda a história registrada”.

(b) conservadores, a partir de valores tradicionais

Finalmente, os argumentos conservadores calcados em valores tradicionais contestam o ponto de vista direitista dominante de que o capitalismo desregulamentado e a hegemonia americana necessariamente trazem a democracia. Em vez disso, concordam com o ponto de vista social-democrata de que a globalização cria obstáculos para a democracia, mas por razões muito diferentes – primordialmente, porque ameaça os valores conservadores tradicionais. Essa posição assume formas muito diferentes no interior dos EUA e fora deles. Os pensadores conservadores de fora dos EUA que encarnam a globalização como uma expansão radical da hegemonia americana argumentam, nisso convergindo com os sociais-democratas, que os mercados econômicos precisam de regulamentação estatal e que a estabilidade dos mercados é ameaçada pela anarquia das forças econômicas globais. A força básica desses argumentos, no entanto, está centrada nos aspectos culturais, e não nos econômicos. Os críticos conservadores de fora dos EUA sustentam, por exemplo, que a sociedade norte-americana é tão corrompida – com sua débil coesão social, o declínio das estruturas familiares, os altos índices de criminalidade e encarceramento e assim por diante – que não tem força política ou fortaleza moral para dominar outros países. No interior dos EUA, os argumentos conservadores escorados em valores tradicionais consideram o crescente envolvimento americano em questões globais e o domínio cada vez menos regulado do capital prejudiciais à vida moral e aos valores tradicionais dos próprios EUA. Em todos esses casos, os valores ou instituições sociais tradicionais (ou aquilo que alguns chamam de civilização) precisam ser protegidos, preservando-se o interesse nacional contra as ameaças da globalização. O estado global de guerra e suas pressões pela aceitação da globalização como fato consumado diminuíram mas não eliminaram as expressões dessa posição. O conservadorismo ligado aos valores tradicionais geralmente assume hoje a forma de um ceticismo em relação à globalização e de um pessimismo quanto aos benefícios que a hegemonia norte-americana afirma proporcionar ao próprio país e ao mundo.

Mas nenhum desses argumentos, contudo, parece suficiente para enfrentar a questão da democracia e da globalização.

O que está claro, isso sim, a partir de todos eles – de direita e de esquerda, pró-globalização e antiglobalização – é que a globalização e a guerra global põem a democracia em questão. Como se sabe, muitas vezes nos últimos séculos a democracia tem sido declarada “em crise”, geralmente por aristocratas liberais temerosos da anarquia do poder popular ou de tecnocratas incomodados com a desordem dos sistemas parlamentares.

Nosso problema da democracia, contudo, é diferente.

Em primeiro lugar, a democracia é enfrentada hoje como um salto em escala, do Estado-nação para todo o planeta, sendo com isso desvinculada de seus tradicionais significados e práticas modernos. Como tentaremos demonstrar adiante, a democracia deve ser entendida e praticada de maneira diferente nesse novo contexto e nessa nova escala. Por isso, todas as quatro categorias de argumentos acima delineados são insuficientes: por não encarar de maneira adequada a escala da crise contemporânea da democracia.

Uma segunda razão, substancial e mais complexa, pela qual esses argumentos são insuficientes está no fato de que, mesmo quando falam de democracia, sempre a limitam ou a adiam.

Hoje, a posição aristocrática liberal consiste em insistir primeiro na liberdade, deixando a democracia talvez para algum momento posterior. Em termos vulgares, o projeto de liberdade primeiro e democracia depois frequentemente se traduz no domínio absoluto da propriedade privada, minando a vontade geral. O que os aristocratas liberais não entendem é que, na era da produção biopolítica, o liberalismo e a liberdade baseados na virtude de poucos ou mesmo de muitos vão-se tornando impossíveis. (Até mesmo a lógica da propriedade privada vem sendo ameaçada pela natureza social da produção biopolítica.) A virtude de todos vai-se tornando hoje a única base para a liberdade e a democracia, que já não podem ser separadas.

Os gigantescos protestos contra aspectos políticos e econômicos do sistema global, entre eles o atual estado de guerra, que examinaremos detalhadamente adiante, devem ser encarados como fortes sintomas da crise da democracia. O que esses diferentes protestos deixam claro é que a democracia não pode ser feita ou imposta de cima. Os manifestantes recusam as noções de democracia vinda de cima promovidas por ambos os lados da guerra fria: a democracia não é simplesmente a face política do capitalismo nem o domínio de elites burocráticas. E a democracia não resulta de intervenções militares e mudanças de regime, nem dos vários modelos atuais de “transição para a democracia”, que geralmente se baseiam em algum tipo de caudilhismo latino-americano e se revelaram mais eficazes para criar novas oligarquias do que para criar qualquer sistema democrático.

Todos os movimentos sociais radicais desde 1968 se têm insurgido contra essa corrupção do conceito de democracia, que a transforma numa forma de domínio imposto e controlado de cima. Em vez disso, insistem, a democracia só pode surgir de baixo. Talvez a atual crise do conceito de democracia decorrente de sua nova escala global sirva de oportunidade para que retornemos a seu significado mais antigo, como governo de todos por todos, uma democracia sem ‘se’ e sem ‘mas’ [“A democracia da multidão”, objeto do cap. seguinte 3.3, p. 411].

[pág. 411] Os movimentos que expressam queixas contra as injustiças de nosso atual sistema global e as propostas práticas de reforma, que enumeramos na sessão anterior, constituem poderosas forças de transformação democrática, mas além disso precisamos repensar o conceito de democracia à luz dos novos desafio e possibilidades apresentados por nosso mundo. Essa reelaboração conceitual é a tarefa primordial de nosso livro. Não pretendemos apresentar um programa concreto de ação para a multidão, e sim tentar elaborar as bases conceituais sobre as quais se poderá firmar-se um novo projeto de democracia.

[HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005 (orig. 2004). p. 293-301 (Cap. 3: “Democracia”; 3.1: “A longa marcha da democracia”) e 411.]

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Editoras na berlinda

http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/editoras-na-berlinda
piauí, 2-9-2011

“Para obter o conhecimento pelo qual já pagamos, devemos renunciar a nossas posses em benefício dos senhores da sapiência” (George Monbiot)

por BERNARDO ESTEVES

As editoras de revistas científicas foram objeto de uma polêmica inflamada na internet durante a semana que passou. A discussão foi desencadeada por uma coluna do ambientalista George Monbiot no jornal The Guardian, que as definiu como “os capitalistas mais impiedosos do mundo ocidental” e as acusou de violar o direito humano de acesso ao conhecimento. A mais ácida das reações despertadas pelo artigo veio de um editor do grupo Nature, para quem Monbiot usou argumentos simplistas e ignorou mudanças recentes do mercado editorial.

O conhecimento científico é veiculado atualmente na forma de artigos publicados em revistas especializadas. As editoras responsáveis por esses periódicos recebem os artigos de pesquisadores, encaminham-nos para a revisão de especialistas e publicam aqueles que forem aprovados.

Algumas revistas são mantidas por sociedades científicas ou por universidades, mas há também aquelas editadas por organizações privadas que buscam o lucro com a sua publicação. As maiores editoras pertencem a esse grupo: as três mais importantes – Elsevier, Springer e Wiley-Blackwell – respondem por 42% do mercado da publicação científica, segundo dados de Monbiot. E são justamente elas o objeto das críticas incisivas de seu artigo.

O ambientalista britânico não economizou bile ao caracterizar as editoras. Suas práticas monopolistas, escreveu Monbiot, “fazem o Walmart parecer uma mercearia de esquina e Rupert Murdoch um socialista”, referindo-se ao dono de um dos maiores impérios midiáticos do mundo. O monopólio do conhecimento exercido pelas editoras é comparado por ele aos laços de suserania e vassalagem da Idade Média e descrito como “parasitismo econômico”.

O maior foco dos ataques de Monbiot é a ganância das editoras. Elas cobram caro – até 42 dólares por um único artigo científico – por um produto que lhes custa muito pouco, alegou o articulista. De fato, nem os autores nem os revisores dos artigos publicados e rejeitados são remunerados. Isso explicaria, prossegue ele, os lucros astronômicos desses empreendimentos. Em seu balanço de 2010 divulgado on-line, a Elsevier alegou ter tido um lucro operacional de 847 milhões de euros, ou 36% de sua receita.

Em protesto contra o alto preço individual dos artigos científicos, um internauta publicou, em julho deste ano, um pacote com mais de 18 mil artigos científicos no site de compartilhamento de arquivos The Pirate Bay. “Se eu puder retirar um dólar que seja dos rendimentos ganhos de forma maléfica por uma indústria venenosa que age para suprimir o entendimento histórico e científico, nesse caso qualquer custo pessoal que eu possa ter que pagar terá valido a pena”, escreveu ele para se justificar.

Monbiot enxerga na operação das editoras científicas um monopólio de recursos públicos, já que boa parte da ciência é financiada pela sociedade, por meio de agências governamentais. Para ele, a prática configuraria ainda uma violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que prevê o direito a participação da sociedade nos avanços da ciência e em seus benefícios. De nada adiantariam, segundo o ambientalista, iniciativas como as revistas de acesso aberto ou repositórios livres como o arXiv – os cientistas não podem se dar ao luxo de deixar de ler os periódicos de acesso fechado, alega ele.

Repercussão
As críticas de Monbiot reverberaram junto ao público do Guardian. Uma leitora escreveu ao jornal para lembrar que, não contentes em não pagar pelo conteúdo que publicam, alguns periódicos de alto impacto cobram taxas variadas dos cientistas para veicular seus artigos. Mas houve também quem relativizasse as críticas: um professor universitário lembrou que muitos centros de pesquisa e agências de fomento exigem de seus pesquisadores que depositem cópias de seus arquivos em repositórios institucionais de livre acesso.

Esse argumento foi lembrado também por Noah Gray, editor do grupo Nature, responsável pela publicação de um dos periódicos de maior prestígio no mundo. Numa réplica ao artigo de Monbiot publicada em seu perfil do Google+ (na qual sequer cita o nome do ambientalista), Gray acusa Monbiot de ter escrito um artigo exagerado, que retoma em tom maniqueísta as mesmas críticas que vêm sendo feitas há anos às editoras científicas.

Ele alegou que Monbiot foi demasiadamente simplista em algumas de suas críticas. “A discussão de que o público paga pela pesquisa é um tanto mais complicada do que a forma como foi descrita no artigo”, escreveu. Gray lembrou ainda que seu grupo editorial – que responde por cerca de 1% do mercado e não foi citado nominalmente no artigo do Guardian – edita algumas publicações de acesso aberto e disponibiliza gratuitamente artigos para leitores de países em desenvolvimento. O grupo Nature, acrescentou, tem adotado também medidas de flexibilização das formas de pagamento, notadamente em seus aplicativos para dispositivos móveis. “O autor do artigo poderia ter dado um telefonema para saber mais sobre essas estratégias se assim o desejasse”, provocou o editor. “Aparentemente, não foi o caso.”

A discussão sobre o acesso ao conhecimento científico ferve na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, o debate não alcançou a mesma temperatura, muito porque o acesso à literatura técnica é subsidiado pelo governo por meio do Portal de Periódicos da Capes, que representa para os contribuintes um custo anual da ordem de 40 milhões de dólares. Ainda assim, a iniciativa beneficia apenas os cientistas ligados a universidades ou centros de pesquisa e exclui os pesquisadores independentes. Como lembrou um leitor do Guardian, falando noutro contexto, “quem quer que não seja um membro de uma universidade está excluído do debate acadêmico”.

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EUA sobem frota de aviões não tripulados

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/22366-eua-sobem-frota-de-avioes-nao-tripulados.shtml

FSP, 27-1-12

Governo Obama investe em tecnologia de Defesa e reduz efetivos militares; grupo de elite, porém, é poupado

Militares consideram os "drones" mais seguros e eficazes, mas seu uso é ligado à ocorrência de mortes de civis

por LUCIANA COELHO

Os EUA aumentarão em 30% sua frota de combate de aviões não tripulados -os "drones"- usados hoje especialmente no Afeganistão.

O anúncio, feito ontem pelo secretário da Defesa, Leon Panetta, faz parte de uma restruturação da estratégia militar do país para tornar as Forças Armadas mais enxutas e tecnológicas.

O objetivo é ganhar agilidade e cortar US$ 487 bilhões (R$ 849 bilhões, ou 23% do PIB do Brasil) em gastos nos próximos dez anos, dentro do pacote para enxugar o Orçamento anunciado em 2011.

As mudanças ainda deslocam o foco da Defesa para a Ásia, ao lado do Oriente Médio -reflexo da expansão de poder econômico e militar da China. A Europa, ainda com forte presença militar dos EUA por herança da Guerra Fria (1945-89), será secundária.

Bases militares serão fechadas; aeronaves e embarcações, aposentadas; e o efetivo do Exército, reduzido em 80 mil pessoas, para 490 mil (-14%). A força de fuzileiros navais (marines) também cairá de 202 mil homens -pico registrado no pós-11 de Setembro- para 182 mil (-10%).

Em lugar disso, o governo investirá mais em tecnologia, guerra cibernética, forças especiais e "drones".

Hoje os EUA têm 65 dessas aeronaves, pilotadas remotamente, com capacidade de ataque. Panetta anunciou que passarão a ser 85.

Essas aeronaves têm sido usadas sobretudo na Guerra do Afeganistão, na porosa e tumultuada fronteira com o Paquistão, em operações contra a Al Qaeda.

Os militares defendem esse tipo de equipamento, usado pelo governo Obama, como mais preciso e eficaz (e mais seguro para eles).

Levantamento do centro de estudos New America Foundation, porém, mostra que, de 2004 a novembro de 2011, ataques de "drones" mataram entre 1.717 e 2.680 pessoas -das quais estima que 17% fossem civis inocentes.

"Acreditamos que este seja um pacote equilibrado e abrangente", disse Panetta, ao lado do general Martin Dempsey, chefe do Estado Maior das Forças Armadas.

Os cortes atingirão também a folha de pagamento. Aumentos dos funcionários civis serão congelados, e o dos militares, reduzidos. O seguro médico foi mantido.

Panetta espera conseguir parte da economia necessária com o fim da Guerra do Iraque e, futuramente, do Afeganistão.

Com isso, planeja investir mais em operações e forças especiais como os Seals -grupo de elite que conduziu a ação que culminou na morte do líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Estas serão poupadas dos cortes.

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Um reitor assassinado

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas-ignacio/58603-ignacio-ellacuria-um-reitor-assassinado

IHU, 7 de novembro de 2009

Ignacio Ellacuría, vinte anos depois

Na próxima segunda-feira, dia 9, se ainda fosse vivo, Ignacio Ellacuría completaria 79 anos, no entanto, há 20 anos, ele, junto com seus companheiros, foi assassinado em El Salvador por lutar por justiça, igualdade e liberdade para o povo daquele país. A IHU On-Line retorna à história de Ellacuría através da entrevista com o Pe. Francisco das Chagas, realizada por telefone. Francisco apresentou, neste ano, sua tese sobre a teologia de Ellacuría e, atualmente, leciona, na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE), a disciplina A teologia de Ignacio Ellacuría: relevância cristológica e eclesiológica. Nesta entrevista, ele nos conta em que circunstância a morte de Ellacuría se deu e fala também sobre seu legado, a formação do seu pensamento e a importância do jesuíta hoje na América Latina. "Naquele tempo, de fato, o problema era essencialmente a oligarquia dominante que excluía a grande parte da população – portanto, a questão socioeconômica era fundamental. Hoje, o povo é crucificado, como Ellacuría dizia, pela exclusão, sem direitos humanos, sem acesso à educação e à saúde", disse Francisco.

Ignacio Ellacuria, nasceu na Espanha, no dia 09-11-1930. Quando foi assassinado, no dia 16-11-1989, ele era o reitor da Universidade Centro Americana de San Salvador – UCA, confiada à Companhia de Jesus.

Com Ellacuría foram assassinados mais cinco jesuítas. Entre os quais Ignacio Martin Baró, fundador da Psicologia da Libertação. Com os seis jesuítas também foram assassinadas duas mulheres: Julia Elba e sua filha Celina.

Entrevista especial com FRANCISCO DAS CHAGAS

IHU On-Line – Por que mataram Ellacuría e seus companheiros?

Francisco das Chagas – É uma história que envolve uma série de questões. Quando os jesuítas vieram Ignacio Ellacuría e seu companheiro de missão Juan Ramón Pardo para a América Central, especificamente para El Salvador, eles tinham um projeto de se inserir na sociedade de modo comprometido na missão da Igreja naquele contexto, que era de muita desigualdade, injustiça e opressão. Diante dessa situação, eles se comprometeram em fazer um trabalho com a sociedade em geral, a partir de diversos setores, como, por exemplo, a universidade, evidentemente motivados pela fé, pela disposição de evangelizar, concretizar a mensagem do Evangelho. Diante disso, eles foram, de um lado, motivando e mobilizando as comunidades e o pessoal que lutava contra tudo o que oprimia a vida. E, por outro lado, sofreram uma forte oposição que se configurou numa situação de perseguição. Então, Ellacuría, por diversas vezes, teve que sair de El Salvador, às vezes por compromissos e outras por ameaças que sofria. Numa dessas voltas dele para El Salvador, aconteceu seu assassinato, na noite do dia 16 de novembro de 1989. Ele e seus companheiros foram assassinados por se colocarem à disposição dos pobres, daqueles que lutam por justiça na sociedade.

IHU On-Line – Qual é o legado de Ignacio Ellacuría para a América Latina?

Francisco das Chagas – Ellacuría, como os outros que foram assassinados, deixa para a América Latina um exemplo e um testemunho de vida eclesial e de luta pela justiça. Porque, de fato, foram vidas comprometidas com Jesus Cristo através do serviço aos irmãos, aos mais sofridos, aos mais pobres. Dizemos que a situação deles não foi um martírio, foram martirizados. Além disso, Ellacuría deixou vários escritos sobre filosofia, teologia e sociologia.

IHU On-Line – Quais são as cruzes que carregam hoje os "povos crucificados" da América Latina?

Francisco das Chagas – As cruzes continuam sendo praticamente as mesmas, revestidas com outros

Joaquin López y López e Ignácio Martín Baró foram assassinados junto com Ellacuría

elementos. Naquele tempo, de fato, o problema era essencialmente a oligarquia dominante que excluía a grande parte da população – portanto, a questão socioeconômica era fundamental. Hoje, o povo é crucificado, como Ellacuría dizia, pela exclusão, sem direitos humanos, sem acesso à educação e à saúde. Essas situações de privação dos direitos fundamentais são cruzes que oprimem a vida. Ainda assim, diante de um povo que tem fé, que vive essa situação sem se distanciar de Jesus cristo, encontra forças Nele, e seu sofrimento não se torna uma coisa apenas negativa, pois, na relação com Jesus, essas pessoas se tornam um povo profético.

IHU On-Line – A partir do legado de Ellacuría, quais categorias filosóficas ou teológicas podem nos ajudar a pensar com honestidade a realidade?

Francisco das Chagas – Do ponto de vista filosófico, Ellacuría trabalhou bem a questão da filosofia da realidade. Ele considera que, de fato, a realidade é que deve constituir o objeto fundamental da reflexão filosófica. E, do ponto de vista teológico, a teologia foi entendida como algo que se faz na relação com a palavra de Deus e a realidade da sociedade. Então, a categoria de libertação é central para a articulação da teologia. Agora, é fundamental, no pensamento deEllacuría, no sentido da revelação e da realidade, a salvação como realidade histórica. Ao mesmo tempo em que ela é uma realidade escatológica, ela tem também essa dimensão histórica que implica a realidade humana concreta nos diversos contextos ao longo do tempo. Assim, para Ellacuría, a salvação é libertação e a libertação é salvação. Outra categoria fundamental é o Reino de Deus, em que a realidade é a instância fundamental com a qual a Igreja se confronta para uma autocrítica e uma tomada de posição em relação à própria atuação eclesial e em relação ao mundo. Por exemplo, para Ellacuría, a Igreja, então, diante de uma situação anti-humana ela deve converter-se ao Reino de Deus, que é uma plataforma para a salvação.

IHU On-Line – Quais foram os autores que mais influenciaram o pensamento de Ellacuría?

Francisco das Chagas – Fundamentalmente, na filosofia é o Xavier Zubiri. Na teologia, ele foi aluno de Karl Rahner, 1962 a 1965, quando se desenvolveu o concílio. Esses e outros autores foram importantes na formação do pensamento de Ignacio Ellacuría.

IHU On-Line – Como a história de Ellacuría pode ser retomada hoje?

Francisco das Chagas – Neste ano, estamos celebrando os 20 anos do martírio de Ellacuría e de todos os homens e mulheres que na América Latina viveram e seguiram Jesus Cristo de forma tão consequente. Hoje, temos um novo paradigma, e a história de Ellacuría, assim como seu testemunho, sua reflexão que liga a teologia à realidade, é algo muito atual que deve ser continuada porque o cristianismo precisa ser um estilo de vida no qual o testemunho de Cristo se dá através da prática do amor nessa realidade concreta em que se vive. Esses temas são fundamentais que hoje devem ser retomados para a humanidade. São temas universais, seja do ponto de vista antropológico, seja do ponto de vista da fé.

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Inteligência, compaixão e serviço

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/10728-inteligencia-compaixao-e-servico

IHU, 16 de novembro de 2007

Celebrando o martírio de Ignacio Ellacuría e companheiros. Entrevista especial com Héctor Samour

San Salvador, quinta-feira, 16 de novembro de 1989. São 2h28min. Estamos nos arredores do Complexo Militar. A rua iluminada está deserta. A noite está calma. São 2h30min. Um estrondo violento denuncia que as portas foram arrombadas. Cada quarto da residência dos jesuitas da Universidade Centro-Americana -UCA – em San Salvador, El Salvador, é invadido por homens armados de metralhadoras e fuzis. Seis jesuítas e a esposa e a filha do jardineiro são assassinados (1). Trata-se de Ignacio Ellacuría e seus companheiros.

Celebrando a memória desse martírio, a IHU On-Line entrevistou, por email,Héctor Samour, coordenador do Doutorado em Filosofia Ibero-Americana naUniversidade Centro-Americana – UCA - San Salvador, El Salvador.

Héctor Samour, é autor, entre outros, de História, praxis e libertação no pensamento de Ignacio Ellacuría, que foi apresentado no Primeiro Congresso Internacional Xavier Zubiri, em 1993; Globabalización, cultura y identidad, publicado pela revista ECA: Estudios Centroamericanos, 2006; e El significado de da filosofía de la liberación hoy, publicado na revista Diálogo filosófico, no. 65, 2006. No livro Interpelação ética, organizado por Antonio Sidekum, e publicado pela editora Nova Harmonia, em 2003, Héctor Samourpublicou o artigo “Filosofia e Libertação”.

Entrevista com HÉCTOR SAMOUR

IHU On-Line – O que significa a civilização da pobreza no pensamento de Ignacio Ellacuría e qual é a sua contribuição para os dias de hoje?

Héctor Samour – Para Ellacuría, é um fato evidente que a maior parte das nações e a maior parte dos seres humanos vivem não somente em condições muito desiguais em relação às minorias ricas, mas em condições absolutamente desumanas. E é este fato que, segundo Ellacuría, denuncia o mal comum que promove a atual civilização mundial por meio de suas estruturas e processos. O resultado é a ruptura da solidariedade do gênero humano que leva à absolutização do indivíduo, da classe social, da nação ou do bloco econômico acima de todo o resto, até mesmo acima da própria humanidade.

Esta ruptura da solidariedade humana, que supõe, no fundo, uma ruptura do próprio fundamento dos direitos humanos (a unidade histórica do gênero humano), traz consigo uma permanente violação desses direitos, que se manifesta na situação dramática dos povos oprimidos e das maiorias empobrecidas a nível mundial.

Dada esta situação, Ellacuría propõe uma nova civilização, um projeto global que seja universalizável e onde haja a possibilidade de sobrevivência e humanização para todos. Este projeto de uma nova ordem mundial consiste na proposta de uma civilização da pobreza ou do trabalho, entendida como negação superadora da civilização do capital ou da riqueza e da sua dinâmica fundamental. Trata-se de passar de uma civilização que faz da acumulação do capital o motor da história, da sua possessão e uso elitista o princípio de humanização, e do direito de todos o direito de uns poucos, a uma civilização da austeridade compartilhada.

A crise que a sociedade capitalista contemporânea atualmente enfrenta abre posibilidades para implementar este projeto humanista e alternativo à globalização neoliberal que promova a construção histórica de uma nova civilização, que inclua a todos em seus benefícios, garanta, de modo estável, a satisfação das necessidades básicas e torne possível o acesso às fontes comuns do desenvolvimento pessoal e as posibilidades de humanização.

A tarefa hoje é a de imaginar e tratar de criar essa nova civilização, porque não há nenhuma certeza de que a passagem de uma sociedade histórica à outra, diferente, será melhor em termos humanos e liberadores. A sociedade capitalista está claramente em crise, se definimos “crise” como uma situação em que as expectativas da maioría não podem ser satisfeitas por causa da lógica do sistema. Mas isso não significa necesariamente que haja uma crise do capitalismo, que é algo muito diferente. Esta expressão carece de sentido até que chegue o momento em que as forças antisistêmicas disponham de projetos alternativos coerentes e factíveis capazes de superá-lo.

IHU On-Line – Qual é a importância do pensamento de Ignacio Ellacuría no âmbito acadêmico? Qual é a sua contribuição na constituição do que podemos chamar de “filosofia da libertação”?

Héctor SamourEllacuría coloca a necessidade de lançar mão da filosofia, e de outras disciplinas, especialmente no que diz respeito ao fomento e à provocação de uma consciência coletiva, que possibilite a transformação da realidade histórica, e seja capaz de criar novos modelos econômicos, políticos e culturais que possibilitem a civilização da pobreza.

Para Ellacuría, a avaliação da originalidade e a efetividade libertadora de uma filosofia deve partir do compromisso com uma práxis histórica de libertação, avaliando sua validez de acordo com os resultados que traz para o processo histórico. Trata-se de fazer filosofia no seu nível formal, em relação com uma práxis libertadora e desde as maiorias pobres como sujeito e objeto dessa práxis. Isto não implica uma diminuição da exigência e do rigor da atividade filosófica, mas, pelo contrário, uma exigente e laboriosa elaboração intelectual. Neste esforço, as ciências e as outras formas de saber não ficam excluídas, porque, no método filosófico ellacuriano, as ciências, assim como outras formas de acesso à realidade, não são algo extrínseco, mas um momento constitutivo da reflexão filosófica.

Na concepção de Ellacuría, a filosofia, como todo modo autêntico de saber, por seu caráter teórico e por sua relativa autonomia, tem possibilidades e exigências que são independentes da qualquer práxis social. Contudo, ele considera que a pura autonomia da filosofia não é suficiente para que esta possa desenvolver o seu potencial libertador, ou seja, ela precisa assumir conscientemente a sua dependência da realidade histórica.

IHU On-Line – Qual é a função social da filosofia, segundo Ignacio Ellacuria?

Héctor Samour – A filosofia não pode se realizar em toda a sua plenitude se não se compreender como um momento de uma práxis histórica global, que a condiciona e lhe dá sentido. E num contexto histórico de opressão e desumanização, a função libertadora da filosofia somente ser realizará, integral e adequadamente, se a filosofia se coloca explícitamente a favor de uma práxis libertadora, concretada nas lutas de resistência que é levado a cabo, na atualidade, por uma multiplicidade de movimentos sociais nas diversas partes do mundo que se opõem à tendência de homogeneização da globalização neoliberal e propugnam a libertação.

Estas práxis históricas de libertação podem ser de índole diferente e adquirir diversas características, modalidades, objetivos e metas, segundo o momento do processo histórico e de acordo com a natureza dos processos opresivos que predominem em cada região, em cada povo ou em nível global da humanidade, os quais não necesariamente têm que ser de caráter socioeconômico ou político, mas que podem ser de caráter étnico, religioso, ecológico, tecnológico, de gênero etc. Para Ellacuría, a função libertadora da filosofia é sempre uma tarefa concreta, e o modo de desenvolvê-la terá que ser diferente em cada situação.

Não há uma função libertadora abstrata e a-histórica da filosofia, e por isso será necessário determinar previamente o “quê”, o “como” e o “aonde” da libertação. Por isso, não pode haver uma única filosofia da libertação, mas pode haver várias, segundo as diferentes situações e segundo as distintas épocas que podem se configurar no processo histórico. Em cada caso, tratar-se-á de refletir filosoficamente, de fazer filosofia no seu nível formal desde a própria realidade histórica, buscando introduzir nessa reflexão os graves problemas que afetam a maioria da humanidade, com o objetivo de contribuir para uma práxis histórica de libertação. Isso resultará numa filosofia original e libertadora, para cada situação ou para cada época histórica.

IHU On-Line – Por que muitas vezes a filosofia está à margem dos desafios sociais? As linhas de pesquisa não teriam que trabalhar mais desde a ótica de uma filosofia que ajude a compreensão da realidade histórica?

Héctor Samour – As universidades deveriam enfocar o estudo da realidade histórica, dos principais problemas que afetam a maioria dos seres humanos em suas situações concretas e das possibilidades que oferece para abrir processos libertadores, com o fim de desenhar soluções e alternativas viáveis e factíveis à situação na que se encontram nossos povos da América Latina. Os diversos informes mundiais, especialmente do Pnud e de outros organismos internacionais, mostram que a pobreza e a desigualdade continuam sendo, atualmente, os principais obstáculos para conseguir uma real democratização das sociedades latino-americanas. Os processos da globalização neoliberal agravaram estes problemas, além da deterioração contínua do meio ambiente, que chega a níveis alarmantes e irreversíveis. As universidades deveriam contribuir academicamente com suas pesquisas na elaboração de alternativas viáveis para construir sociedades autenticamente democráticas, eqüitativas e ambientalmente sustentáveis.

A filosofia se marginaliza dos desafios sociais quando se dedica ao cultivo do saber pelo saber, pretendendo abstrair-se da realidade histórica e da situação concreta que determina a própria reflexão filosófica. Pretender a assepssia e a neutralidade na prática filosófica é algo ilusório e mistificador, produto da crença de que o trabalho intelectual é uma atividade pura e totalmente autônoma da realidade histórica, sem nenhuma conexão com os condicionamentos materiais e sociais que a orientam num ou em outro sentido.

Assumindo a radical historicidade da filosofia, o que Ellacuría demandará sempre é que o exercício filosófico se faça sem que se perca a liberdade, a capacidade de crítica e a criatividade que devem caracterizar, em qualquer circunstância histórica, a prática filosófica. Aqui é o lugar onde encontra seu pleno sentido a referência que Ellacuría faz ao filosofar de Sócrates. Assim como este, Ellacuría exigirá do filosófo fidelidade à própria vocação filosófica e a si mesmo, rigor e profundidade teóricas, distância crítica frente a qualquer forma de poder e de práxis, e compromisso vital, existencial, com a busca da verdade e a sua realização práxica na própria realidade histórica, com o fim de posibilitar maiores cotas de humanização e de liberdade para todos e não somente para uns poucos privilegiados, sejam indivíduos, classes ou nações.

IHU On-Line – Ellacuría é estudado nas universidades? Na sua opinião, Ellacuría é somente um discípulo de Zubiri?

Héctor Samour -O pensamento de Ellacuría é ainda pouco conhecido na maioria das universidades da região e, menos ainda na Europa. Para nós é um desafio fazer com que o seu pensamento seja conhecido e difundido para, desse modo, mostrar a sua atualidade no debate filosófico contemporâneo e a sua potencialidade para construir um pensamento libertador à altura dos tempos.Zubiri (2)tem uma grande influência na filosofia de Ellacuría, mas não se pode considerar que a sua produção intelectual seja uma mera repetição mecânica do seu pensamento. Ellacuría também dialoga com toda a tradição do pensamento crítico, tanto a européia (Hegel-Marx) quanto a latino-americana (socialismo latino-americano), e busca construir uma filosofia que incida na realidade histórica da América Latina num sentido crítico e libertador, combatendo as ideologizações que pretendem justificar as situações opresivas e de dominação e propondo modelos alternativos que apresentem soluções, tanto conjuntarais quanto estruturais, em todos os âmbitos da sociedade. Isto é algo que o diferencia claramente de Zubiri, cujo trabalho intelectual estava orientado mais ao cultivo de uma filosofia pura sem uma clara intencionalidade política.

IHU On-Line – Qual é o significado dos mártires da Universidade Centro-Americana – UCA – para a Companhia de Jesus?

Héctor Samour – Os mártires da UCA estavam comprometidos com a libertação e com uma universidade orientada toda ela para a mudança social. A docência, a pesquisa e a projeção social da universidade deveriam estar orientadas para conhecer rigorosamente e com profundidade a realidade nacional e internacional, com a finalidade de construir um saber crítico e criativo que incidisse na marcha histórica dos nossos países num sentido libertador, iluminar caminhos de transformação e libertação para que fossem transitados pelos “pobres com espírito” e por todas aquelas forças sociais que lutavam pela libertação.

A contribuição deles não se reduziu a formular e fundamentar um novo modelo de universidade inspirada num cristianismo libertador, mas também e, sobretudo, eles se comprometeram com um estilo de vida de acordo com aquilo que inspirava a sua produção intelectual. A totalidade da sua vida e do seu pensamento adquiriu uma tríplice característica de inteligência, compaixão e serviço. Neles, a libertação não foi um mero tema externo ao seu trabalho intelectual, ao redor do qual construíam argumentos para fundamentar sua necessidade e sua bondade, mas ela se constituía em algo que tinha muito a ver com a própria vida deles como intelectuais; foi algo que assumiram como um princípio constitutivo da sua própria existência. E, conseqüente com isso, os mártires optaram por viver num mundo de oprimidos; se localizaram conscientemente no lugar da realidade histórica onde não há “possibilitação” mas opressão, isto é, no lugar das vítimas despojadas de toda figura humana, e foi aí que entregaram sua vida que lhes foi violentamente arrebatada.

Notas:

1.- As mulheres assassinadas são:

Elba Ramos (1947-1989) – ela se dedicava ao comércio de frutas e trabalhava na residência dos jesuítas, esposa de Obdúlio, jardineiro.

Celina Ramos (1973 -1989) – filha de Elba e Obdúlio Ramos.

"Elba tentou proteger a filha até a morte. Seu corpo foi encontrado sobre o de Celina, tentando evitar desesperadamente que a filha fosse alvejada. Seu esposo Obdúlio plantou 4 roseiras vermelhas no lugar onde encontrou o corpo dos quatro jesuítas. No meio delas, plantou duas roseiras amarelas, para Elba e para Celina. Aos visitantes, explicava o significado das roseiras" (Mártires da UCA. Ninguém tem maior amor… de Adair José dos Santos Rocha, Porto Alegre, 2007, p. 11).

Os seis jesuítas assassinados:

Joaquín López Y López – 1918-1989;

Segundo Montes – 1933-1989;

Juan Ramon Moreno – 1933- 1989;

Armando López – 1936 – 1989;

Ignacio Martín-Baró – 1942 – 1989;

Ignacio Ellacuría – 1930 – 1989.

2.- Xavier Zubiri, filósofo espanhol, nascido em 1898, foi aluno de Ortega y Gasset, Husserl e Heidegger e trabalhou com o filólogo Emile Benveniste. Zubiri é autor de uma vasta obra filosófica. Ignacio Ellacuría é reconhecido como um dos seus principais discípulos. Faleceu em Madrid, em 1983. Para conhecer as teses e obras sobre Zubiri, clique aqui.

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O legado de Ellacuría

http://www.ihu.unisinos.br/noticias-ignacio/58600-o-legado-de-ellacuria

IHU, 11 de maio de 2010

"A 20 anos desse assassinato covarde e vil, resta muito mais a força do amor até a morte das vítimas do que a violência dos criminosos." A opinião é do teólogo espanhol Rafael Aguirre, publicada no jornal El Correo, 15-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

por RAFAEL AGUIRRE

O assassinato de Ignacio Ellacuría, dada sua personalidade e as circunstâncias que concorreram – com outros companheiros, realizado pelo exército a sangue frio, pelo risco que voluntariamente havia assumido – teve uma repercussão internacional enorme. Foi no dia 16 de novembro de 1989, há 20 anos.

A passagem do tempo reinterpreta o acontecimento, permite avaliar seu sentido histórico, mas principalmente continua sendo uma referência chave na biografia daqueles que o viveram mais de perto.

Na sexta-feira, 10 de novembro, Ellacuría e eu estivemos toda a manhã naUniversidade de Deusto. Ele havia me telefonado alguns dias antes de Madri para que eu lhe preparasse alguns encontros em sua passagem fugaz por Bilbao. (Como sempre, quando se tratava de algum acadêmico: "Que seja daqueles que mais saiba disso, não importa como pense, porque da ideologia eu me encarrego"). No sábado, ele tinha que receber em Barcelona o prêmio daFundação Comín e programava regressar imediatamente para El Salvador.

Acredito que nunca tínhamos conversado tão extensa e profundamente como fizemos naquela manhã. Não fazia muito que eu havia convivido por vários meses com a sua comunidade em El Salvador, porque ele e Jon Sobrino haviam me convidado para dar aulas na UCA. Aquele grupo de jesuítas vivia austeramente e tinha uma capacidade de trabalho fora do comum.

Ellacu – assim lhe chamávamos – tinha uma autoridade moral indiscutível, não só na Universidade, da qual era reitor, mas também em todo o país. Era a voz crítica, razoável e valente, que denunciava a opressão e a pobreza intoleráveis. De janeiro de 1976 a novembro de 1989, bombas haviam explodido em 15 ocasiões em dependências da UCA. Todos os dias, a imprensa, nas mãos da oligarquia, atacava os jesuítas com infâmias e acusava Ellacu de ser o instigador da guerrilha. Ele havia recebido a tocha e a cruz de Dom Romero, cuja voz profética foi calada por um francoatirador ultradireitista no dia 24 de março de 1980.

Coincidindo com sua estada na Europa, os grupos guerrilheiros haviam lançado uma ofensiva contra a capital, e a guerra estava ardendo. Os combates eram duríssimos, e o exército (na pior tradição do militarismo repressor e brutal, com instrutores norte-americanos) havia cercado uma ampla zona, dentro da qual estava a UCA e que incluia várias instalações militares, entre elas a Escola Militar.

Naquela manhã de sexta-feira, eu e outros amigos dizíamos a Ellacu que adiasse o retorno, que as coisas estavam muito ruins, o exército controlava a universidade, e era notório que estavam atrás dele. Ele estava absolutamente contra a ofensiva dos grupos guerrilheiros, há muitos meses buscava uma saída negociada do conflito. "Precisamente porque a situação é tão grave eu tenho que ir", respondia.

Tão racional como era, calculava que o exército não se atreveria a realizar uma matança na UCA, porque sua autoria ficaria em evidência, mas não contava com o fato de que o ódio e o fanatismo rompem todas as leis da lógica. Além disso, afirmava, é verdade que, à primeira vista, as coisas estão pior do que nunca, mas no fundo há uma corrente que leva à paz. Sabia o que dizia, porque acabava de se encontrar com os chefes dos grupos guerrilheiros e com o presidenteCristiani.

Ele tinha pressa de ir, porque acreditava que poderia mediar entre os grupos que se enfrentavam. "É preciso acabar com essa ideia de que os jesuítas são comunistas, e Cristiani, fascista". A decisão de matar os jesuítas foi tomada em uma reunião do Estado Maior do Exército na Escola Militar, cujo diretor era o coronel Benavides, às 23h15min do dia 15. Às 2h30min da madrugada, Cristiani se reuniu com o Alto Comando. Pode-se acreditar, como ele afirma, que não lhe comunicaram nada sobre a decisão que acabavam de tomar?

Além disso, hoje se sabe perfeitamente como refletiram sobre os acontecimentos, quem tomou as decisões e quem as executou. No final, só duas pessoas foram condenadas, o coronel Benavides e um tenente, que foram imediatamente anistiados. Os máximos responsáveis esquivaram-se de toda ação da justiça.

Essa corrente profunda de paz da qual Ellacuría falava se acelerou, mas a um preço muito caro, dentro do qual entra o assassinato dos jesuítas e a reação internacional que suscitou e se cristalizou nos Acordos de Paz firmados emChapultepec, em fevereiro de 1992.

Ellacu estava, em última instância, movido por um amor imenso às pessoas empobrecidas e pisoteadas do El Salvador. A eles entregou sua vida, por eles acelerou seu regresso em uma aposta que lhe custou a vida. Dele e de seus companheiros, vale o que dizia Jesus: "Ninguém tem mais amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos". Mataram-lhes porque incomodavam, e morreram porque amavam.

Ellacuría tinha uma preparação filosófica muito notável, devido à sua especial proximidade com [Xavier] Zubiri [filósofo espanhol], com quem trabalhou desde que começou sua tese em 1962, até a morte do mestre em 1983. Mas subordinou o prestígio que se abria nesse campo para trabalhar em El Salvador. Foi reitor da UCA durante muitos anos e dizia que a única coisa que justificava o cargo era a capacidade de ir adiante. E ele fazia isso por causa de sua autoridade moral e intelectual, clarividência de objetivos, capacidade de trabalho e de envolver na tarefa o conjunto da comunidade universitária.

Tinha muito clara a função social da Universidade em um contexto como o salvadorenho, de injustiças sangrantes, de violência e pobreza, desestruturado institucionalmente. Era, ante tudo, a projeção social. Era preciso preparar profissionais, mas a maioria acabaria na elite privilegiada ou a seu serviço, e isso não justifica uma universidade de inspiração cristã. O mais importante, dizia, é o trabalho que a universidade pode realizar sobre a sociedade em seu conjunto, para tirar à luz as mentiras que encobrem a injustiça, para dar a conhecer a realidade da pobreza e transformar as mentalidades e a realidade.

E é preciso realizar isso universitariamente, com a pesquisa ("outras coisas não podemos investigar, mas temos que ser os que melhor conheçam a realidade salvadorenha"), com a palavra, com as publicações. "Uma universidade de inspiração cristã (…) deve ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, em sua própria realidade, têm a verdade e a razão, mesmo que às vezes seja a modo de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão".

Ellacuría se dizia "da esquerda zubiriana", porque enchia de conteúdo histórico o conceito de "realidade", tão caro a seu mestre, e a "inteligência sentinte" implicava na misericórdia (indignação e amor eficaz) diante da pobreza e da injustiça como a tomada primordial de contato com a realidade que possibilita, depois, a melhor reflexão intelectual.

Por isso, a análise e o realismo político – o passo possível, o fim da guerrilha, a margem de confiança em Cristiani – não lhe levavam a perder de vista a utopia que vislumbrava precisamente nas pessoas mais pobres: reverter a história, promover uma civilização mais austera ("da pobreza", dizia), "que rejeite a acumulação como motor da história, que garanta a satisfação das necessidades básicas, a liberdade das opções pessoais e um âmbito de criatividade pessoal e comunitário que permita a aparição de formas novas de vida e de cultura, novas relações com a natureza, consigo mesmo e com Deus".

Sei que Ellacu acharia muito ruim que eu tenha escrito sobre ele e muito pouco sobre seus companheiros. Principalmente, eu diria que é preciso mencionar Elbae Celina, esposa e filha do Seu Obdulio, o jardineiro, que se refugiaram na casa dos jesuítas, acreditando estar mais seguras, e foram fuziladas para acabar com testemunhas incômodas.

Delas, se fala muito pouco. Como acontece com tantas vítimas das guerras e bombardeios no Sudão, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina… No El Salvador, milhares e milhares de seres humanos morreram durante a guerra. Ellacuría e seus companheiros uniram seu destino até à morte com eles. Hoje, a 20 anos desse assassinato covarde e vil, resta muito mais a força do amor até a morte das vítimas do que a mentira e a violência dos criminosos.

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A filosofia na mira do mercado

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/41544-a-filosofia-na-mira-do-mercado

IHU, 20-3-2011

Embora ostente como título Lições de Filosofia Primeira, o recém-lançado livro do filósofo paulista José Arthur Giannotti não é apenas uma introdução ao pensamento no sentido convencional do termo, mas a obra de quem se impôs uma tarefa de demolir ideias feitas num mundo em que a filosofia já começa a ser confundida com negócio. O lançamento do livro de Giannotti coincide com um movimento convergente de editoras – grandes e pequenas – em busca de um novo modo de publicar filosofia no Brasil, deixando de lado livros de consumo fácil para abarcar obras densas. Dois exemplos do investimento pesado das editoras na área são as coleções das obras completas de Aristóteles – 75 livros que aWMF/Martins Fontes começa a publicar em maio – e a de René Girard, o mais ambicioso projeto da É Realizações, que comprou os direitos e está traduzindo 60 títulos do filósofo francês. Girard, autor da teoria do desejo mimético como forma contagiosa que leva à violência, ganha cada vez mais adeptos num território minado de pensadores cooptados – e corrompidos – pelo poder político.

Um deles, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), ameaça a supremacia de Nietzsche na lista dos best-sellers de filosofia – o criador de Zaratustra ainda lidera o ranking, segundo editores consultados. Nos últimos tempos, Heideggertem recebido tanta atenção das editoras que a Academia Brasileira de Filosofia decidiu promover um seminário sobre ele em abril, antes de encaminhar ao governo federal sugestão de projeto de lei que obrigue suas obras publicadas no País a estampar na capa a seguinte advertência: "Este livro tem conteúdo nazista". O presidente da Academia, o professor carioca de Filosofia João Ricardo Moderno, e Giannotti fazem a mesma pergunta: como um pensador do porte deHeidegger pôde se associar ao nazismo? Giannotti vai dar sua resposta no livro que prepara como segundo volume da série iniciada com Lições de Filosofia Primeira. A obra tem o sintético título de Contraponto: Heidegger/Wittgenstein.

O filósofo Peter Sloterdijk, estrela absoluta do catálogo da Estação Liberdade, que publica seus livros no Brasil, já se manifestou há alguns anos a respeito de Heidegger no polêmico Regras Para o Parque Humano. Nele, o alemão denuncia a herança nietzschiana e heideggeriana do pastoreio e domesticação dos homens com possíveis resultados catastróficos em nossa era antropotecnológica de reforma genética. Seu mais recente manifesto chama-se Ira e Tempo e está no prelo. Nele, Sloterdijk trata da ira como forma de energia psicopolítica capaz de promover a autoafirmação humana num mundo polarizado entre fundamentalistas e liberais. "Todos os seus livros venderam muito bem", garante o diretor editorial Angel Bojadsen, prometendo para breve o primeiro volume da trilogia Esferas, opus magnum deSloterdijk que estuda a nova experiência do espaço no interior das macroesferas sociais. O filósofo alemão, professor em Karlshue, já ameaça o "espaço" dos pensadores franceses, revela Bojadsen, atestando que o interesse pelo desconstrucionista Derrida diminuiu consideravelmente nos últimos meses.

"Hoje em dia vejo mais historiadores de filosofia do que propriamente filósofos", comenta Giannotti, acrescentando ser a crítica à sociedade contemporânea feita pelos pensadores, de modo geral, "abstrata e pessimista", tendendo a imputar a culpa ao capital por tudo o que há de errado no mundo. Se a democratização do acesso à filosofia é um fato – como prova a profusão de novos títulos nas estantes -, por outro lado, segundo o filósofo, há uma tendência a "dissociar a prática filosófica das grandes questões que hoje nos atingem". Nietzsche seduz, segundo ele, não só porque escrevia bem como pela ilusão da ideia de potência que dá ao leitor (Vontade de Potência, aliás, acaba de ganhar edição da Vozes). "Nietzsche não é um filósofo da pacificação", diz Giannotti. "Ele pensa como um martelo", conclui, não poupando seguidores como Heidegger, leitura perigosa para quem ignora que seu discurso nazista aparece travestido na forma visceral de seu transe filosófico.

"Insisto na advertência do selo nas capas, denunciando o conteúdo da filosofia de Heidegger, porque propaganda nazista é crime no Brasil", justifica-se João Ricardo Moderno. A exemplo de outros filósofos europeus, ele lembra a simpatia deHeidegger pela SA de Röhm e as organizações estudantis que ela controlava. A filosofia dele, argumenta Moderno, é ainda mais perigosa por ter apoiado Hitler – Heidegger convocou o povo alemão às urnas para voltar no Führer, em 1933 – e ter sobrevivido à queda do Terceiro Reich, influenciando neonazistas e simpatizantes de regimes totalitários.

"As editoras, naturalmente, melhoraram muito o nível de suas traduções e o mercado se profissionalizou, mas a publicação de Heidegger obedece a uma lógica comercial, enquanto há obras clássicas, fundamentais, que são esquecidas por vender mal", observa Moderno. O fundador da Editora É, Edson Manoel de Oliveira Filho, pretende dar sua contribuição, publicando brevemente a coleção Grandes Comentadores de Platão e Aristóteles, organizada pelo professor Carlos Nougué, seis volumes que vão de um comentário à metafísica aristotélica por Alexandre de Afrodísiasaos estudos de Santo Tomás de Aquino sobre a obra do filósofo – complementando, de forma indireta, a coleção de obras completas de Aristóteles, a ser publicada pela WMF/Martins Fontes. Esta começa com Os Econômicos em maio e a Retórica no segundo semestre. Segundo o editor Alexandre Martins Fontes, que publicou os cursos de Foucault eBarthes (seus maiores êxitos comerciais), 15% do seu catálogo (de 2 mil títulos) são dedicados à filosofia.

A Editora É mantém ainda uma coleção de títulos considerados de difícil comercialização, mas de fundamental importância para o entendimento do pensamento contemporâneo, a Filosofia Atual. Nela foram publicados 15 títulos, todos eles acompanhados de um DVD explicativo sobre a obra de filósofos como o canadense Bernard Lonergan (1904-1984), o espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), o metafísico francês Louis Lavelle (1883-1951) e o alemão Eric Voegelin (1901-1985). "Temos apostado nos estudantes de pós-graduação, mas não me preocupo muito com as vendas quando gosto de um filósofo", diz o editor da É, que vai dobrar até 2012 o número de livros de seu catálogo atual (130 títulos), apostando no boom editorial de livros filosóficos no Brasil. Outra estratégia da editora é a publicação de obras completas, como a do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva e do francês René Girard, sobre quem organiza em setembro um seminário internacional, lançando nada menos do que 22 títulos de e sobre o filósofo.

Outra editora que aposta em filósofos pouco divulgados é a carioca Contraponto, a exemplo da Perspectiva, Zahar e as universitárias. Ela tem 120 títulos no catálogo e vai ampliar a oferta das obras do alemão Hans Jonas (1903-1993), do inglês John Burnett (1863-1926) e do austríaco (naturalizado inglês) Karl Popper (1902-1994), pioneiro racionalista que tematizou a ciência. O editor César Benjamin garante que Popper é o carro-chefe da Contraponto, apostando num catálogo permanente de long-sellers, como a WMF/ Martins Fontes, ou seja, títulos essenciais que vendem a longo prazo – e garantem o prestígio das editoras.

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