A tradição só existe na consciência humana. Somente a consciência humana possui a liberdade de escolher, o que é indispensável ao verdadeiro tradicionalismo; uma liberdade sem a qual todo tradicionalismo (…) degenera em opressão inquisitorial. O falso tradicionalismo tenta sempre suplantar a consciência humana por uma escolha, feita uma vez por todas, para nos deixar viver dentro de uma cega fatalidade. É a morte do espírito. E, com o espírito, morre a faculdade crítica pela qual julgamos o caos e “chamamos as coisas pelos nomes” a fim de as reconhecer. A consciência humana, artificialmente cortada das experiências da verdadeira tradição, sucumbe, encerrada num “modernismo” individualista ou coletivista. Os critérios se perdem. Não há mais compreensão do verdadeiro ou do falso, do bem ou do mal. Então, os homens começam por si mesmos. Os seus feitos “desafiam toda a experiência”. “Maldita seja” – diz [Achim von] Arnim – “a infâmia que começa por si mesma um novo mundo. O que é bom o foi eternamente.” [CARPEAUX, Otto Maria. “Tradições e tradicionalismos”. In: Ensaios Reunidos, vol 1. Rio de Janeiro: Topbooks.]

A esposa
Por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher e, por trás desta, a esposa.

Mãe do Presidente
Outro dia estive com a mãe do Presidente. Ela me disse: ‘Se eu soubesse que meu filho iria tão longe, eu o teria mandado à escola’.

Quarteto
Quarteto é o que sobra de uma orquestra sinfônica cubana depois de uma turnê pela Europa.

Ecologistas
Os ecologistas são marxistas reciclados.

http://www.petitiononline.com/veto2008/petition-sign.html

Pelo veto ao projeto de cibercrimes - Em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet Brasileira

ESTA PETIÇÂO AGORA É DIRECIONADA A CAMARA DOS DEPUTADOS - Na noite de 09/07 o Senado aprovou o projeto de forma velada, pegando a todos nós de surpresa. Desta forma temos de dar uma resposta á altura coletando o máximo de assinaturas possível dentre outras ações que estão sendo desenvolvidas. Não podemos desistir de exercer nosso direito à democracia.

To: Senado Brasileiro

EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana.

E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, “Educação e Carreira”, ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência.

Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime “obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida”, não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por “cópia sem pedir autorização” na memória “viva” (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do “blogging” na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao “transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado”, “sem pedir a autorização dos autores” (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos… Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum “dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular”?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.

André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.

Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.

João Carlos Rebello Caribé, Publicitário e Consultor de Negócios em Midias Sociais

Sincerely,

The Undersigned

SUBSCREVA-SE AQUI: http://www.petitiononline.com/veto2008/petition-sign.html

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/07/18/ult581u2687.jhtm

EL PAIS

18/7/2008

Adultos não conseguem amadurecer e querem continuar sendo crianças

por Joan Carles Ambrojo

Alguns adultos estancaram no caminho para a maturidade, do mesmo modo que encontramos adolescentes que demoram a assumir a independência. Com freqüência se vêem referências a essas pessoas como afetadas por uma síndrome ou um complexo de Peter Pan. Segundo especialistas, não existe essa síndrome. O que acontece é que as mudanças sociais e familiares das últimas décadas aumentaram o infantilismo de alguns adultos, que cresceram sem ter o referencial dos pais.

Encontramos na vida real muitos Homer Simpson, adultos que têm dificuldade para crescer e amadurecer emocionalmente? O que acontece com alguns jovens que se instalam em uma eterna adolescência, negando-se a assumir as responsabilidades e tomar as rédeas de sua vida?

Renunciar a ser adulto e instalar-se na imaturidade como tentativa de permanecer na eterna juventude é o que caracteriza as pessoas que se regem pelo que é popularmente conhecido como complexo de Peter Pan. Os especialistas, no entanto, não admitem a existência desse suposto transtorno, que de fato não aparece na lista do DSM-IV, o manual de diagnóstico de transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana, que é utilizado como manual de referência em todo o mundo.

A popularização da suposta síndrome se deve em boa medida a Dan Kiley, o psicólogo americano que publicou em 1983 o livro “A Síndrome de Peter Pan” - a pessoa que nunca cresce, baseada no personagem da obra do britânico James Matthew Barrie, editada em 1904. Mais tarde, Kiley complementou o tema com a publicação de “O Dilema de Wendy”, no qual trata das mulheres que protegem indevidamente os homens como se fossem suas mães e assumem suas responsabilidades. É um estilo de vida que continua tendo seus adeptos. Nos EUA batizaram os jovens que demoram a amadurecer de Geração Odisséia, segundo William Galston, pesquisador do Instituto Brookings.

Sabel Gabaldón Fraile, psiquiatra do Hospital de Sant Joan de Déu de Barcelona, é definitivo: “Não está tipificada como síndrome. Não é nada mais que um fenômeno social, a dificuldade de crescer”. Gabaldón opina que o “peterpanismo” é apenas uma tentativa de alguns profissionais de buscar artifícios literários.

Forma de vida adolescente
Segundo explica o especialista, o conceito abrange uma série de comportamentos que podem ser muito comuns em determinados adultos de nossa cultura e nosso ambiente, e que “têm a ver exatamente com a atitude também cultural de infantilização, de extrema dependência, que muitas vezes adotamos em várias famílias, ou inclusive da própria cultura em relação às crianças e adolescentes, de poupá-los de frustrações, protegê-los excessivamente. Isso gera situações de prolongamento excessivo da adolescência e de comportamentos imaturos que ocorrem inclusive na idade adulta”.

Outros autores pensam de forma diferente. Para a psiquiatra Graciela Moreschi, o eterno adolescente é alguém para quem a adolescência é uma forma de vida, e não uma etapa evolutiva: “Isso significa que a independência não é uma meta”. Segundo Moreschi, que publicou um livro de divulgação sobre esse fenômeno, com essas atitudes essas pessoas têm como prioridade desfrutar o momento. Se ganham dinheiro o utilizam em saídas, em roupas caras, um automóvel, uma moto ou viagens, e se não ganham continuam dependendo de seus pais.

“Muitas vezes o estudo é o passaporte que lhes permite ficar instalados na adolescência, porque não terminaram a carreira, ou porque passam de uma para outra. Eles demoram para assumir qualquer tipo de compromisso porque não podem escolher algo permanente, inclusive ter um parceiro. A grande quantidade de opções que têm lhes causa dificuldade para escolher, porque ao fazê-lo renunciam às outras possibilidades”, diz Moreschi.

São comportamentos cristalizados em um momento da vida, continua a psiquiatra, e, portanto, em vez de evoluir essas pessoas se desgastam. “Muitos dos pais desses adolescentes estão do mesmo lado, não há diferenças, e os jovens não terminam de se individualizar como indivíduos maduros; não existe um outro que lhes permita realizar esse processo.” A diferença entre os eternos adolescentes e os adultos ainda com atitudes imaturas é que estes cuidam de si mesmos, enquanto os eternos adolescentes não foram capazes de separar-se da família.

Javier Elzo, catedrático emérito de sociologia na Universidade de Deusto e presidente do Fórum Deusto, diz que o fato mais evidente e comprovado é que há um prolongamento do hábitat dos adolescentes e jovens no domicílio familiar até extremos incríveis. E a Espanha tem uma das porcentagens mais baixas de emancipação familiar. As principais razões são a carestia da habitação, que torna a emancipação complicada, e em segundo lugar o caráter precário do trabalho.

Outra característica dos adolescentes atuais é o presentismo, ou seja, querer tudo já, imediatamente. É um fato que a maturidade está se retardando, “mas também encontramos jovens menores de 20 anos extremamente maduros, que são os que diante da dificuldade de encontrar o ninho familiar vazio [pais com pouca presença], por razões fortuitas ou não, começaram a assumir seu destino muito antes do que teríamos feito em nossa geração”.

As transformações sociais e familiares das últimas décadas fizeram, segundo Elzo, que os adolescentes e jovens que Eduardo Verdú batizou em um livro de “adultescentes” decidissem ficar em casa fazendo o que querem - “esses são os Peter Pan, os que saíram de casa ficando. É evidente que há um problema muito sério de referências”.

Pais “desorientados”
Para Elzo está claro que existe um problema de falta de referências nos pais, embora considere que os que estão mais desorientados são os próprios pais: “Qual é o modelo que pode ter uma pessoa de 40 anos? Seu pai não serve porque lhes dizem que é um antiquado, de outra época, que tem outra forma de ver as coisas; não se deve esquecer que os pais dos adolescentes de hoje são os que fizeram a transição espanhola, e neste momento muitos deles não sabem o que fazer com seus filhos”.

Com a incorporação das mulheres ao trabalho, acrescenta o sociólogo, os filhos vivem em um ninho vazio, “e encontramos jovens com precariedade psicológica. Como vão sair de casa se seus pais os consideram muito crianças? Mudam, isso sim, quando chega seu primeiro filho e têm de pagar a hipoteca”, afirma Elzo. [Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves]

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/freakonomics/2008/07/21/ult3431u57.jhtm

Freakonomics.com

21/07/2008

Aborto e Crime

por Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Na versão da coluna “Freakonomics” em livro, escrevemos que a decisão da Suprema Corte norte-americana no caso Roe contra Wade, de 1973, que sustentava o direito de uma mulher americana praticar o aborto, contribuiu para uma queda da criminalidade nos Estados Unidos nos anos 90. Será que a política de filhos únicos na China é responsável pelo efeito contrário hoje em dia?

Quando o governo chinês instituiu essa política em 1979, a decisão incitou uma onda de abortos seletivos, pois os casais decidiam que, como podiam ter apenas um filho, preferiam ter um homem, com o qual se beneficiariam mais. A onda de abortos seletivos ajudou a deixar a China moderna com um dos maiores desequilíbrios de gênero do mundo. Hoje, há 37 milhões de homens a mais do que mulheres na China, e muitos dos garotos crescem sem a possibilidade de encontrar um emprego ou formar uma família.

Então o que esse “excedente” de garotos está fazendo para preencher seu tempo?
Na revista The New Republic, a repórter Mara Hvistendahl, correspondente em Xangai - e ex- assistente de pesquisa de Dubner -, conta que à medida que a primeira geração de filhos únicos chegou à adolescência, a taxa de criminalidade juvenil na China mais do que duplicou, uma vez que os rapazes frustrados e ociosos se voltaram para o crime “sem motivos específicos, e normalmente sem pensar.”

Já examinamos anteriormente o efeito negativo de ser uma criança rejeitada. Mas o que acontece quando o sentimento de rejeição atinge uma geração inteira de homens enquanto eles crescem?

http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u424534.shtml

Folha Online - Educação

21/07/2008 - 12h54

Presidente de Portugal promulga acordo ortográfico

da Agência Lusa

O presidente português, Aníbal Cavaco Silva, já promulgou o acordo ortográfico, ratificado no Parlamento luso em 16 de maio, disse nesta segunda-feira à Agência Lusa fonte oficial da presidência.

O Segundo Protocolo do Acordo Ortográfico, cuja ratificação era essencial para a entrada em vigor do acordo, foi aprovado no Parlamento em maio com os votos favoráveis dos partidos PS, PSD, Bloco de Esquerda e sete deputados do CDS.

O protocolo, assinado na quinta cúpula de chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em São Tomé e Príncipe, abre a possibilidade de adesão da República Democrática do Timor Leste, que na data do acordo (1990) ainda não era um Estado soberano.

Além de Portugal, ratificaram o Acordo Ortográfico Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15405

IHU 21/7/2008

País precisa de docentes em filosofia e sociologia

O Brasil precisa de 15 vezes mais professores de filosofia e 40 vezes mais de sociologia para que todas as escolas de ensino médio passem a ter aulas das duas disciplinas. A obrigatoriedade foi instituída por lei no mês passado, depois de um debate que durou décadas. Um estudo feito pelo Ministério da Educação (MEC) a pedido do Estado mostra a dificuldade que as escolas terão para se adaptar à nova legislação. Além da falta de docentes dessas áreas, há ainda material didático insuficiente e poucos estudos sobre um currículo atual de sociologia e filosofia. A reportagem é de Renata Cafardo e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-7-2008.

Hoje o País tem 20.339 professores de sociologia atuando nas escolas, no entanto, só 12,3% deles (2.499) são licenciados na área. O restante se graduou em áreas como história, geografia, português. Em filosofia, o número atual é de 31.118, sendo 23% (7.162) com a licenciatura específica. Isso porque há estimativas de que 17 Estados já tenham aulas dessas disciplinas em pelo menos um ano do ensino médio. Segundo o estudo do MEC, a demanda em cada uma das disciplinas é de 107.680 professores.

O levantamento mostra também que a quantidade de graduados nas duas áreas nos últimos cinco anos, independentemente da opção por dar aulas ou não, está longe de cobrir o déficit. Foram cerca de 14 mil em filosofia e 16 mil em sociologia. “Não haveria professor suficiente nem para ter apenas um por escola”, diz Dilvo Ristoff, autor do estudo e diretor de Educação Básica Presencial da Capes/MEC, órgão que agora cuida também da formação de professores no País. São 24 mil escolas de ensino médio no Brasil.

“A falta de professores ocorre em várias disciplinas. Mas o currículo não podia mais ficar empobrecido, sem a sociologia e a filosofia”, diz o presidente da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), Cesar Callegari, que foi o relator de um parecer favorável à medida em 2006. O documento pedia que os Estados se preparassem durante um ano - o que terminou em agosto de 2007 - para acrescentar as duas novas disciplinas, mas não estipulava prazo para implantação nem dizia em que série do ensino médio elas deveriam estar inseridas.

A lei de junho retificou essa decisão e exigiu que sociologia e filosofia integrassem o currículo dos três anos do ensino médio, o que complicou mais ainda a situação.

Antes disso, em 2001, o então presidente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, vetou uma lei semelhante, alegando justamente a falta de professores. As disciplinas haviam sido banidas dos currículos em 1971 durante o regime militar no País e substituídas por aulas como a de Educação Moral e Cívica. “Como não havia campo de trabalho, muitos professores deixaram de fazer licenciaturas nessas áreas, mas isso pode ser recuperado aos poucos”, diz a presidente do sindicato dos professores de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Noronha. Enquanto isso, segundo ela, docentes de história, principalmente, podem dar aulas dessas disciplinas. É o que vem sendo feito em alguns Estados.

A lei atual não prevê prazo para total implementação das disciplinas e nem a carga horária que deve ser dedicada a elas. O estudo do MEC fez estimativas considerando a mesma carga horária usada hoje em história (3 aulas por semana), com quatro turmas por professor. Para o presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Lejeune de Carvalho, a necessidade de professores prevista está “exagerada”. “Um professor pode dar até 20 aulas.” Segundo ele, a demanda seria de 25 mil professores, um para cada escola.

Mesmo assim, o sindicato tem feito parcerias com universidades para que ofereçam licenciatura para os que já são bacharéis em filosofia e sociologia. Hoje, há 12 cursos de graduação em Sociologia e Estudos Culturais no País e 83 de Filosofia. Apesar da previsão, o MEC ainda não tem um plano para incentivar a formação de professores nessas áreas.

CURRÍCULO
O sindicato também organiza nesta semana um seminário na Universidade de São Paulo (USP) para discutir como ensinar as disciplinas. “Defendo que haja um tronco nacional com conteúdos mínimos como história das ciências, principais teóricos, instituições, classes. Mas há quem acredite que deve ficar a cargo de cada escola”, diz. “As outras disciplinas estão anos-luz na nossa frente, porque sempre estiveram no currículo.”

Hoje a disponibilidade para livros didáticos de filosofia é maior que em sociologia, segundo a Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros). “Os conteúdos são correlatos a outras disciplinas e têm grande subjetividade”, diz o membro da comissão editorial da entidade, Antonio Nicolau Youssef. Segundo ele, normalmente as editoras têm apenas um livro para ser usado por todos os anos do ensino médio, o que também terá de ser mudado com a nova lei.

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15330

IHU 18/7/2008

As grandes religiões dialogam em Madri para melhorar a sua imagem

O renascentista e nacional-católico Pátio dos Austrias do Palácio de El Pardo acolheu [ante]ontem cerca de cem líderes das principais religiões do mundo, convocados pelo rei da Arábia Saudita, Abdalá ben Abdelaziz. A grande singularidade desta Conferência Internacional para o Diálogo consiste em que a sua convocação se deu por iniciativa de Meca, berço do islã, e de um país que não pratica precisamente o pluralismo confessional. Segue a íntegra do artigo de Juan G. Bedoya publicado no El País, 17-7-2008. A tradução é do Cepat.

Também sobressaíram as mensagens à unidade e ao entendimento, distanciadas das tradicionais disputas entre líderes políticos disfarçados de religiosos, que tantas desgraças causaram – e causam ainda hoje – à humanidade.

Agora cabe proclamar que o islã e o resto das confissões são “moderação e tolerância”. O rei saudita explicou isso com estas palavras: “As religiões que Deus quis ditosamente conceder aos seres humanos deverão ser meios para a sua felicidade. Devemos dizer ao mundo que a diferença não tem que conduzir ao enfrentamento. As tragédias vividas não foram motivadas pelas religiões, mas pelos extremismos que alguns de seus seguidores adotaram e pelas crenças políticas”.

Outra novidade desta conferência internacional é sua vontade de transcender a dialética, por bondosa que seja, para estabelecer medidas concretas “pela paz e a justiça”. Não será fácil consegui-lo, pelas experiências passadas. Disse-o o secretário-geral da Liga do Mundo Islâmico, Abdalá al Turki, organização que convocou este fórum a pedido do rei Abdalá: “Espero que esta conferência não seja estéril, como outras anteriores, mas que termine com propostas e observações concretas”. Essas conclusões serão conhecidas nesta sexta-feira e começaram a ser discutidas [ante]ontem em várias mesas de encontro.

A vistosidade do pátio principal do Palácio de El Pardo plasmava o sucesso diplomático do encontro, inaugurado depois das 14 horas pelos reis da Espanha e da Arábia Saudita. Boa parte dos convidados compareceu ornada pelas vestimentas de sua religião. Entre eles estava o representante de Bento XVI, o cardeal Jean-Louis Tauran, vestido com a pomposidade dos príncipes da Igreja romana. Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, falará [hoje] no encerramento do encontro.

Ocuparam lugar destacado no Pátio dos Austrias o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, e o fundador da liga pelos direitos dos afro-americanos nos Estados Unidos, Jesse Jackson. Por parte do Governo espanhol, cujo presidente, José Luis Rodríguez Zapatero, se sentou, silencioso, à esquerda do rei Abdalá, compareceram os ministros de Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, e da Justiça, Mariano Fernández Bermejo.

O rei Abdalá apontou outra das idéias que buscam destacar o respeito de sua confissão pelas outras religiões, ao menos na literatura dos livros sagrados. “Oh, gente! Vos criamos de um varão e de uma fêmea, e vos convertemos num povo e tribos para que vos conheçais”, disse.

Depois de agradecer a generosa resposta ao seu convite para se reunir em Madri, o rei proclamou: “Trago comigo uma mensagem da nação islâmica representada em seus teólogos e pensadores que se reuniram na cidade santa de Meca, uma mensagem que anuncia que o islã é a religião da moderação, da ponderação e da tolerância”.

Maomé, o profeta dos muçulmanos, deixou clara essa idéia de respeito às crenças alheias, mas nem sempre ela é praticada, para infelicidade do mundo árabe e da humanidade inteira. Mas o rei Abdalá a reiterou [ante]ontem de forma taxativa: “Todos acreditamos num único Deus, que estabeleceu que as religiões das pessoas sejam diferentes. Se Ele quisesse, teria imposto uma só religião a toda a humanidade. Nós nos reunimos aqui para confirmar que as religiões que Deus nos quis conceder serão meios para a felicidade e não de disputa e de enfrentamento”.

Também o rei da Espanha se referiu ao pluralismo religioso, num brevíssimo discurso. Disse: “A Espanha conta com uma conhecida tradição como terra de enriquecedora encruzilhada de culturas e religiões. Somos um país que construiu sua democracia em torno da tolerância, da convivência e do respeito mútuo. Desde o mútuo respeito às nossas respectivas crenças, o diálogo deve dirigir-se a facilitar o melhor conhecimento mútuo, sublinhar aqueles valores em que nos colocamos de acordo, e promover a colaboração e o entendimento recíproco”.

Nos debates abertos [ante]ontem, participaram o ministro da Cultura libanês, Tarik Mitra; o consultor do Banco Islâmico de Dubai, Husein Hamed Hasan; o presidente da Fundação norte-americana Appeal Conscience, o rabino Arthur Schneier, e o presidente da Associação Internacional do Diálogo na Índia, o doutor M. M. Verma.

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15341

IHU 18/7/2008

Recém-nascidos poderão ser pais

Há 30 anos, o nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta, marcou uma genuína revolução na medicina — um dos poucos avanços que realmente merecem a qualificação. A reportagem é do jornal O Globo, 17-7-2008.

Até então, os médicos tinham quase nada a oferecer a casais estéreis. O nascimento de Louise, em 25 de julho de 1978, mostrou que havia um caminho. Hoje, estima-se que quatro milhões de pessoas em todo o mundo foram geradas por fertilização assistida.

A área não parou de se desenvolver e, numa série de artigos publicados na revista “Nature” esta semana, especialistas prevêem que os próximos 30 anos haverá novas revoluções. Nenhuma área da medicina teve tantos avanços técnicos e criou tantos problemas éticos.

Filhos gerados após a morte dos pais, crianças com duas mães biológicas, úteros de aluguel e óvulos à venda são apenas algumas das questões atuais.

Davor Solter, um dos maiores inovadores em biologia do desenvolvimento, atualmente no Instituto de Biologia Médica de Cingapura, está convencido de que a infertilidade terá fim. Com o uso de células-tronco pluripotentes induzidas para gerar óvulos ou espermatozóide qualquer um poderá ter filhos, a despeito de sua idade.

“Recém-nascidos poderão ser pais, assim como pessoas com mais de 100 anos. Isso poderá facilmente acontecer em 30 anos”, escreveu Solter.

Scott Gelfand, diretor do Centro de Ética da Universidade Estadual de Oklahoma, diz que não demorará muito até que fetos possam se desenvolver fora do útero. Para ele, é um avanço fascinante e assustador.

Mulheres poderiam ser obrigadas a abrir mão da gestação normal e optar pelo útero artificial para evitar, por exemplo, nascimentos prematuros ou síndrome álcool-fetal, observou.

Alguns especialistas acreditam que os altos custos da reprodução assistida poderão ser drasticamente reduzidos. Alan Trounson, um dos pioneiros da reprodução assistida e diretor do Instituto de Medicina Regenerativa da Califórnia, disse à “Nature” que drogas baratas e a redução do uso de equipamentos caros baixará o preço do tratamento para menos de US$ 100. Isso tornará a fertilização in vitro acessível para muitas mulheres de países pobres, que sofrem discriminação por serem inférteis, afirmou Trounson.

Quase todos os especialistas não têm dúvidas de que a clonagem reprodutiva irá acontecer. Porém, bebês clonados não serão comuns, principalmente por restrições éticas.

Já a seleção de embriões deverá se disseminar. Hoje, as técnicas de pré-implante de embriões permitem selecionar não só o sexo quanto verificar se um embrião tem pelo menos 200 doenças.

http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=15337

IHU 18/7/2008

A religião para conter o deserto?

“A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro, propõe o biólogo Paul R. Ehrlich “talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson”, escreve Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 18-7-2008.

por WASHINGTON NOVAES

A recente divulgação de mais um relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) da ONU, assim como novos congressos sobre desertificação no Brasil, trazem de volta o tema. O relatório da FAO, com um balanço dos últimos 20 anos, diz que a degradação do solo no mundo - medida pelo declínio nas funções e na produtividade de um ecossistema - já atinge mais de 20% das terras ocupadas pela agricultura, 10% das pastagens, 30% das áreas de floresta. E afeta 1,5 bilhão de pessoas, com insegurança alimentar, perdas agrícolas, perda da biodiversidade, necessidade de migrar. Também influi no clima, porque a perda de biomassa e de matéria orgânica no solo desprende carbono. E leva à redução do fluxo hidrológico, porque se reduz a capacidade de a terra desmatada reter água. A China está com 457 mil km2 afetados; a Índia, com 177 mil; a Indonésia, 86 mil; Bangladesh, 72 mil. Para o Brasil, o relatório aponta 46 mil km2, embora nossos relatórios nacionais mencionem 180 mil km2 em diferentes etapas do processo de desertificação, principalmente no Semi-Árido nordestino, mais Espírito Santo e Minas Gerais (11 Estados ao todo).

Os relatórios apontam situações difíceis em áreas que o mundo se habituou a considerar desenvolvidas e ausentes de questões dessa natureza. É o caso da Espanha, por exemplo, onde um terço do território é considerado como de “risco significativo” nessa área, principalmente por causa da escassez de água. Até o fim deste século, prevê-se que o fluxo hidrológico ali, especialmente no sul do país, diminua 22%. Barcelona, cidade admirada e invejada, enfrenta uma escassez inédita, que a leva a disputar com outras zonas as águas do Rio Ebro (que quer transpor e captar, para diminuir a crise). E até a proibir que se encham piscinas.

A Austrália é outra área com graves dificuldades, já que o fluxo das principais bacias hidrográficas caiu 41% - é o mais baixo em 117 anos, desde quando se têm registros - e afeta a produção de frutas, grãos e outros bens. Certamente é essa uma das razões que levaram o país (o maior exportador de carvão no mundo) a mudar sua posição e aderir ao Protocolo de Kyoto, sobre mudanças climáticas. As previsões dos cientistas para lá são de que as “ondas de calor” se tornarão muito mais freqüentes e afetarão ainda mais o fluxo dos rios (cada grau Celsius de alta na temperatura média pode reduzi-lo em 15%, dizem alguns cientistas).

O fato é que o drama da desertificação avança à razão de 60 mil km2 por ano no mundo. E seriam necessários, diz a ONU, pelo menos US$ 12 bilhões anuais para programas de informação, monitoramento e recuperação de áreas. Mas esses recursos não estão disponíveis, embora os prejuízos anuais sejam muito maiores que isso, sem falar no drama das migrações e conflitos que provocam. No Brasil mesmo, os R$ 500 mil anuais teoricamente disponíveis para o Fundo de Iniciativas Sociais no Semi-Árido têm sido reduzidos a ridículos R$ 25 mil/ano. Quando deveríamos ser muito mais cuidadosos. Além do Semi-Árido, as imagens de satélites mostram cada vez mais pontos problemáticos em todo o território nacional, da fronteira gaúcha ao sudoeste goiano. E já há alguns anos o Ministério do Meio Ambiente apontava uma perda de 90 milhões de toneladas anuais de solo fértil por ano no Cerrado, por causa de erosão; no Rio Grande do Sul, 80 milhões/ano; no País todo, 1 bilhão de toneladas anuais. É possível que o plantio direto nas lavouras de grãos tenha reduzido esses números, mas eles ainda são altos. E a área de pastagens degradadas é enorme: em Goiás, na última negociação com o Fundo do Centro-Oeste, foram apontados 70% das pastagens em algum estágio de degradação. No mundo, estima-se que a perda seja de 23 bilhões de toneladas anuais de solo. E leva 30 anos para o solo em descanso recompor uma polegada de terra fértil.

Enquanto tudo isso acontece, ganha mais corpo uma discussão que ao longo das últimas décadas se desenvolveu timidamente, confinada quase apenas a áreas ditas “ambientalistas”. Um dos primeiros a expô-la foi o biólogo Paul R. Ehrlich, da Universidade de Stanford, na Califórnia - segundo quem o problema da relação do ser humano com seu meio físico e com as espécies das quais depende só terá encaminhamento com o que chama de “recuperação do sagrado”, quando nossa espécie reconhecer o direito à vida de todas as espécies, independentemente de sua utilidade para os humanos (como alimentos ou materiais). Diz ele (Biodiversidade, Editora Nova Fronteira, 1997) que “a causa básica da decomposição da diversidade orgânica não é a exploração ou a maldade humana, mas a destruição de hábitats que resulta da expansão das populações humanas e suas atividades”. Para ele, “muitos desses organismos que o Homo sapiens está destruindo são mais importantes para o futuro da humanidade do que a maioria das espécies sabidamente em perigo de extinção; as pessoas precisam mais de plantas e insetos do que precisam de leopardos e baleias (sem querer com isso menosprezar o valor dos dois últimos)”. Seu prognóstico: “A extrapolação das tendências atuais na redução da biodiversidade implica um desfecho para a civilização dentro dos próximos cem anos.” E o único caminho para reverter esse quadro “talvez seja uma transformação quase religiosa, que leve à apreciação da diversidade por si própria, independentemente de seus benefícios diretos para a humanidade”. É o mesmo caminho proposto pelo coordenador da obra, o biólogo Edward O. Wilson, em outro livro - A criação, Companhia das Letras, 2007) - já comentado neste espaço. Wilson acha que a única possibilidade de mudança rápida no padrão civilizatório, capaz de rever os rumos, está numa aliança entre a ciência e a religião.

Pois não é que o Equador está discutindo incluir em sua Constituição os “direitos da natureza”?

http://www.universia.com.br/materia/imprimir.jsp?id=16169

universia Brasil - 25/6/2008

Pós stricto sensu a distância recebe aval do MEC

Capes já avalia propostas de mestrado e doutorado em EAD

por LARISSA LEIROS BARONI

A pós-graduação stricto sensu a distância já tem o aval do MEC (Ministério da Educação) para se tornar realidade no meio acadêmico brasileiro. Conforme antecipou o secretário de EAD (Educação a Distância) do Ministério da Educação, Carlos Eduardo Bielschowsky, no ESUD (Congresso Nacional de Educação Superior a Distância), realizado em abril, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) já recebe propostas de cursos de mestrado e doutorado nesta modalidade. A expectativa agora, é que a contrapartida venha das IES (Instituições de Ensino Superior) por meio do envio de projetos de qualidade.

“Para que haja cursos de pós-graduação stricto sensu no Brasil, basta que as IES enviem projetos de qualidade. Essa será a função das universidades brasileiras”, enfatiza o diretor de Educação a Distância da Capes, Celso Costa. Segundo ele, o compromisso da Capes será avaliar as propostas, planos pedagógicos, sugestões de corpo docente e infra-estrutura, para conceder ou não a licença de execução do curso. “O mesmo procedimento utilizado para a aprovação dos mestrados e doutorados presenciais se repetirá para os programas de EAD”, explica.

Portanto, as universidades interessadas em acrescentar em seus catálogos de cursos opções de mestrado e doutorado a distância já podem elaborar seus projetos e enviá-los à Capes. Costa garante que a determinação não será exclusiva às universidades públicas. “Não há restrição em relação à constituição da universidade, ou seja, independe se ela é pública, privada, comunitária ou confessional. Também não há limite de projetos apresentados por instituições. Basta que as propostas tenham qualidade”, afirma Costa.

A medida é uma determinação legal desde 1996, quando foi criada a lei nº 9.394. De acordo com o diretor de regulação e supervisão em EAD do MEC, Hélio Chaves Filho, a existência de mestrado e doutorado a distância no Brasil sempre esteve assegurada pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Tanto que já houve experiências nesse sentido (veja no box ao lado o caso da UFC - Universidade Federal do Ceará). O artigo 80 da lei prevê o desenvolvimento de programas de ensino a distância em todas as modalidades de ensino, o que inclui também a pós-graduação stricto sensu. “Mas a legislação determina que qualquer proposta seja aprovada pela Capes antes de ser colocada em prática”, explica ele.

Essa lei, segundo Chaves Filho, ganhou mais força com a elaboração do decreto 5.622, de 19 de dezembro de 2005. “A partir dessa determinação, todas as instituições de ensino tiveram abertura legal para apresentar seu projeto de mestrado e doutorado a distância à Capes”, enfatiza. “A Coordenação não pode recusar receber a proposta, mas ela tem todo o poder de não aprová-la, desde que a rejeição seja fundamentada”, acrescenta o diretor.

Para o presidente da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), Fredric Michael Litto, apesar da lei, o conservadorismo da Capes, bem como da academia, foram e ainda são os principais responsáveis pelo tardio reconhecimento da Educação a Distância na pós-graduação brasileira. “O novo geralmente assusta. Essa é uma tendência normal em qualquer corporação, inclusive na educação. É difícil romper com o preconceito em relação às inovações”, opina. Litto acredita que grande parte desse tradicionalismo também esteja relacionada ao desconhecimento da modalidade.

O diretor de EAD da Capes reconhece o conservadorismo da instituição, mas justifica a postura pela grande preocupação e responsabilidade com o desenvolvimento científico do Brasil. “O tradicionalismo é uma forma de garantirmos a metodologia, o bom desempenho do curso e dos alunos, bem como, sua aceitação no mercado de trabalho. Temos o compromisso com a qualidade do ensino científico, então qualquer decisão deve ser bem estudada e planejada para que essa trajetória seja traçada com segurança”, alerta Costa.

O tutor dos cursos de EAD da Universidade Anhembi Morumbi João Mattar defende a atitude da Capes. “Essas demoras são positivas. Existem muitos interesses e muitas discussões que devem ser levadas em consideração antes de qualquer decisão, já que se trata de um assunto sério: o desenvolvimento educacional brasileiro”, argumenta. Na opinião dele, é preciso ter no mínimo uma exigência sadia. “As mudanças aconteceram num ritmo aceitável. Não foi nem muito demorado, nem muito precipitado”, avalia.

Para o secretário de Educação a Distância do MEC, Carlos Eduardo Bielschowsky, esse foi o momento ideal para que a Capes pudesse tomar uma decisão com mais segurança. “A UAB (Universidade Aberta do Brasil) se expandiu com cursos de qualidade e os alunos da educação a distância do País conseguiram comprovar seu elevado desempenho no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes)”, relata Bielschowsky. Esses, segundo ele, são fatores que comprovam a eficácia da modalidade na graduação e indicam uma provável expansão bem-sucedida para outros níveis de ensino como a pós-graduação. “Se é possível nesse nível de ensino, então por que o mesmo não poderia se repetir na pós-graduação stricto sensu?”, questiona ele.

Repercussão no meio acadêmico
Apesar da perspectiva de mestrado e doutorado a distância já ser uma realidade no Brasil, a iniciativa ainda gera divergências entre os especialistas do meio acadêmico. De um lado, há quem defenda a EAD como contribuição para a expansão do ensino científico do País. Do outro, os que acreditam que a modalidade possa comprometer a qualidade da pós-graduação brasileira.

“As literaturas estrangeiras apontam que 20% do corpo docente é aberto à novidades do ensino, outros 20% não conhecem, mas - em nome da tradição - se posicionam contra inovações. Os 60% restantes são mais cautelosos, porém caminham conforme o vento. É isso que acontece com a EAD no Brasil”, declara o presidente da ABED. Mas Litto é otimista. “O Enade deu novo fôlego à modalidade. O conservadorismo dos professores começa a diminuir e o MEC abre com isso mais uma válvula de escape”, afirma.

Na opinião do diretor da UnisulVirtual (Centro de Cursos de Educação a Distância da Universidade do Sul de Santa Catarina), João Vianney, a implantação dos cursos de mestrado e doutorado a distância só tende a contribuir com a melhoria do ensino do País. “Quanto mais brasileiros na pós-graduação, melhor será a educação do Brasil”, diz ele. Atualmente, de acordo com Vianney, o conhecimento de alto desempenho só é accessível para quem tem condições de se deslocar para as grandes cidades.

A coordenadora do GVnet (Programa de Educação a Distância da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), Marta de Campos Maia, corrobora a idéia de Vianney e aponta a proporção da distribuição das universidades brasileiras em território nacional para fundamentar essa argumentação. “As instituições de Ensino Superior estão presentes em apenas 30% do País. Ou seja, 70% desse gigante chamado Brasil não conta com o aporte das universidades”, cita.

Por esse motivo, Vianney acredita que a EAD revoluciona, permite a expansão e a democratização da pós-graduação, além de melhorar a qualificação profissional do brasileiro. “Ou seja, para educação o ensino a distância é um passo de modernização”, enfatiza. Marta arrisca dizer ainda que a modalidade também contribui para o desenvolvimento econômico do País. “As experiências mundiais comprovam que quanto maior o nível de educação dos habitantes de um país, melhor sua situação econômica. Então o que temos a perder?”

Apesar da argumentação dos especialistas, o pró-reitor de pós-graduação da USP (Universidade de São Paulo), Armando Corbani Ferraz, não acredita na eficiência da modalidade no ensino científico. Para ele, a criação de mestrados e doutorados a distância vai modificar o conceito do que é fazer um curso stricto sensu. “A pós-graduação vai acabar virando uma escola, sendo que ela não tem essa característica”, contesta. De acordo com ele, a medida será um atraso para o país. “Será um retrocesso educacional, pois a universidade dirá que forma um mestre ou um doutor, mas na verdade não formará”, argumenta.

Marta - assim como Vianney, Litto e Mattar - discorda de Ferraz e acredita que é extremamente viável realizar cursos de pós-graduação a distância. “No mestrado e no doutorado, além de algumas aulas presenciais, há o desenvolvimento de pesquisa - geralmente já realizada a distância - e o acompanhamento do orientador”, descreve a professora. “Desta forma, é possível adaptar o conteúdo das aulas presenciais ao método da EAD. Não haverá perda de nenhum conceito. Isso já está comprovado na graduação. Tudo é uma questão de flexibilização do modelo”, sugere.

O presidente da ABED vai além e ressalta que não é a modalidade de ensino que garante a qualidade da aprendizagem. “Tanto no ensino a distância quanto do presencial é o empenho do aluno que determinará sua eficiência”, conta. Na EAD, Litto defende a necessidade da maturidade e organização do aluno, características de um estudante de pós-graduação. “Tais características são mais presentes nos alunos da pós-graduação do que na graduação. Esse público é mais maduro, mais experiente, além de ter mais autonomia para estudar sozinho. Pelo menos é isso que se espera de um profissional que queira seguir pelo caminho acadêmico ou científico”, afirma.

O pró-reitor Ferraz rebate que embora o perfil do aluno de pós-graduação se encaixe com os padrões da modalidade a distância, o grande problema é que um curso de EAD não poderá reproduzir a vivência acadêmica, fundamental para a maturação de um bom projeto científico. “Tanto no mestrado como no doutorado é preciso desenvolver um projeto de pesquisa e não há como fazer isso a distância. O ambiente acadêmico é que contribui para a realização desse trabalho científico”, ressalta. “A EAD vai arrebentar o ‘diamante da educação brasileira’. Tudo que foi construído até agora sobre a pós-graduação no Brasil será destruído”, opina.

O secretário Bielschowsky discorda de Ferraz. Segundo ele, as pós-graduações, assim como as graduações, deverão ter uma porcentagem de aulas presenciais, o que não comprometerá a vivência acadêmica. “Os cursos não serão 100% a distância. Haverá, sim, encontros presenciais para dar suporte as aulas práticas e não perder essa tão importante vivência acadêmica”, garante. O secretário afirma ainda que é preocupação do MEC e da Capes assegurar a qualidade do ensino científico. “O controle será o mesmo ou até mais rígido do que é feito no ensino presencial. Tudo isso para garantir que o ‘diamante da educação’ não se estilhace”, enfatiza.

Para Litto, é possível desenvolver projetos de programas de pós-graduação a distância tão bons quanto os presenciais. “Há diversas universidades espalhadas pelo mundo e reconhecidas internacionalmente que já desenvolvem pós-graduação a distância com qualidade. Se é possível produzir projetos de excelência fora do país, por que não é possível fazer o mesmo no Brasil?”, questiona.

O caso da Federal do Ceará
O primeiro e único curso de pós-graduação stricto sensu a distância no Brasil foi recomendado pela Capes/MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) em 1995. A licença temporária concedida à UFC (Universidade Federal do Ceará) em consórcio com a Unopar (Universidade Norte do Paraná) foi liberada para o desenvolvimento do Mestrado Profissionalizante em Tecnologia de Informação e Comunicação na Formação em EAD (Ensino a Distância).

O diretor de Educação a Distância da Capes, Celso Costa, afirma que outras propostas de mestrado e doutorado a distância também já foram apresentadas à instituição. No entanto, apenas o modelo da UFC atendeu todos os requisitos necessários para a realização de um curso de qualidade. “Em geral, a Capes avalia todas as propostas encaminhadas. Aquelas que atingirem as exigências da instituição recebem uma autorização temporária. No decorrer do curso é feita uma nova avaliação que julgará a permanência ou não da licença”, explica.

Duas turmas do mestrado da UFC foram concluídas, mas a instituição não recebeu a autorização da Capes para que uma terceira classe fosse formada. “A avaliação trienal foi realizada no início do curso, porém, a cobrança da Capes foi como se o programa já estivesse no fim”, reclama o diretor do Instituto Universidade Virtual da UFC, Mauro Pequeno. “Mas já estamos estudando possibilidades para dar continuidade ao mestrado a distância”, acrescenta.

http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=FFBBE6C1-3D1E-42FF-856B-78D78F77C8C6&nwsCode=248AD170-593A-4CEF-8F54-B1E6086F00AC

Revista CULT - Ed. 126, Jun. 2008

Capitalismo é, em grande parte, responsável pela infelicidade

Gianni Vattimo nasceu em Turim, no norte da Itália, em 1936. Formou-se em Filosofia na universidade local e nela ensina até hoje (pretende aposentar-se em 2009). Fez especialização na Universidade de Heidelberg, Alemanha, e passou por universidades norte-americanas como professor visitante. Autor de O fim da modernidade (ed. Martins Fontes) e organizador, com Derrida, da coletânea A religião (Estação Liberdade), publicou também A sociedade transparente (Relógio D’Água), entre outras obras, algumas inéditas no Brasil. Vattimo foi deputado no Parlamento Europeu, viaja pelo mundo proferindo palestas, sempre para grandes platéias, lotadas, e escreve em jorn ais e revistas. Gosta do contato com estudantes, é generoso e encantador. Um homem brilhante, com um currículo extenso, que entretanto não o torna inacessível. Está sempre disposto a atender às inúmeras solicitações.

Em junho, passou por São Paulo e encontrou-se com colegas como Marcia Tiburi, Vladimir Safatle, Juvenal Savian, Ruy Braga e Nello Barille, entre outros. Na visita ao Brasil, foi acompanhado pelo professor italiano Massimo Di Felice, da ECA/USP. Nesta entrevista exclusiva, Vattimo fala sobre pensamento fraco ( pensiere debole), filosofia, religião e política, além da militância homossexual, iniciada nos anos 1950, quando tal atitude era muito mais que arriscada.

CULT - Seus escritos afirmam que, no debate atual, não é mais aceitável a idéia de que o pensamento filosófico seja o da procura da fundação normativa da realidade. Pode nos falar sobre isso?
G. V. - Até agora, no pensamento metafísico (como Martin Heidegger o define, o pensamento que identifica, de uma vez por todas, o ser com uma estrutura objetiva), as normas do agir são modos-de-ser buscados na essência das coisas: você é um homem, um animal racional, logo, DEVE fazer isto ou aquilo. Tudo isso lembra um pouco a essência natural, segundo Aristóteles: se o fogo tende para cima, a pedra para baixo etc. Se o ser não é estrutura dada de uma vez por todas, mas evento, entende-se que a essência das coisas é determinada no ser em um certo horizonte histórico que é um evento interpretativo. Se as coisas são de um modo, isso não quer dizer que devam ser sempre desse modo. (É um pouco como a crítica marxista da ideologia.) Em suma, a idéia de tirar da essência das coisas a norma para a prática é uma idéia da classe dominante, para a qual a presente ordem vai bem. Mas quem não está bem na ordem atual, não tem razão para crer que as normas provenham das coisas, tal como elas são de fato. De onde, então, tomar as normas? Por um niilismo consciente, a partir unicamente da negociação e do acordo entre indivíduo e grupo social, sem nenhuma pretensão de fundamentar-se sobre a “natureza” das coisas. Se não fosse assim, a democracia também não faria o menor sentido e seria necessário confiar sempre nos “peritos”: prêmio Nobel, Comitê Central, Papa…

CULT - Quais são as implicações do pensamento fraco (pensiero debole)? Quais seus contrapontos em relação ao pensamento forte, ou seja, o da metafísica clássica?
G. V. - Libertação das pretensas essências naturais, que são sempre autoritárias. Redução da ética a um único ponto ligado à libertação de cada um: não cometer violência, no sentido de não impor a ninguém o que esse não deseja. Pode-se, no máximo, tentar persuadi-lo, mas nunca com o argumento de que a “natureza” impõe certa solução. Tomemos o clássico exemplo da eutanásia: neste caso, a violência não é ajudar alguém, que o deseja, a morrer, mas lhe impor que viva ainda que, depois de uma madura discussão, ainda prefira a morte. Em linguagem cristã, eu digo sempre que os códigos possam se tornar unicamente “mais caridosos regulando as relações”. Há um único imperativo absoluto, o respeito ao outro em sua liberdade; o resto são convenções que nos servem para que exercitemos este único dever de base.

CULT - Fale sobre a passagem do pensamento fraco para o pensamento dos fracos? ( pensiero debole al pensiere dei deboli?)
G. V. - Trata-se de uma passagem que tem se tornado para mim muito cara, quanto mais medito sobre a relação entre a metafísica e o poder. É uma tese das classes dominantes segundo a qual haveria uma ordem objetiva das coisas à qual deve-se conformar. De resto, Platão não era um proletário, como se sabe. A luta contra a metafísica é a luta contra o autoritarismo e o privilégio de que as coisas “são” como “estão” e que, na realidade, quer que permaneçam assim. O pensamento fraco é, por isso, o pensamento de todo aquele que não está em sua comodidade na (de)sordem presente. (Como ficará entendido, uma das minhas principais inspirações vem da Tese sobre filosofia da história, de Walter Benjamim). É indiscutível que quem não está em sua comodidade é antes a maioria da humanidade: a hierarquia social e o exercício do poder sempre vencem, assegurando o domínio de poucos sobre muitos. O pensamento fraco é também, um pensamento que respeita a esperança da maioria; no fundo, um pensamento autenticamente democrático. Eu estou com os fracos porque, em muitos sentidos, sou um deles, e não porque haja para mim uma razão metafísica para preferi-los.

CULT - Quais são as conseqüências da angústia e da solidão? A humanidade está desiludida?
G. V. - Não saberia dizê-lo sem incertezas. Hoje nós falamos da humanidade de maneira muito mais fundamentada do que foi possível falar no passado; conhecemos mais culturas, tipos de sociedade, ética. E, pelo que sabemos, a modernização tem produzido mais dificuldades do que tem trazido soluções em muitas áreas do planeta. Assim, a globalização, sobre a qual se gasta tanta retórica, tem, na realidade, aumentado a distância entre o rico e o pobre, e parece dar razão a Karl Marx sobre a difusão da pobreza e a progressiva proletarização. Um ditado, que não sei bem de onde vem, ressoa: os Estados Unidos têm exportado a infelicidade em todo o mundo. Quando se pensa no custo-benefício da competitividade e no desfrute que comporta o desenvolvimento, devemos reconhecer que este ditado é verdadeiro. O capitalismo é, em grande parte, responsável por esta montanha de infelicidade.

CULT - Como a filosofia auxilia a compreensão da sexualidade na época contemporânea?

G. V. - Esta é uma questão muito difícil, porque não conseguimos considerar “objetivamente” pois estamos imersos na situação problemática que se deveria resolver na resposta. Talvez o apóstolo São Paulo, com todas as culpas com as quais tenha marcado a ética cristã, não tenha errado em falar de um “espinho na carne”. Quem pode dizer, filósofo ou não, que tenha resolvido, de modo satisfatório, o problema da sensualidade? E, por outro lado, será verdade que não haveria ninguém que preferisse não ser atormentado por esse espinho? A filosofia talvez nos ajude a entender que a sexualidade, com todas as suas complicações, é um aspecto, talvez, antes, o aspecto essencial da nossa finitude. O fato de eu, como filósofo, nunca ter me preocupado a fundo com este problema (de resto, como tantos filósofos meus mestres, inclusive Martin Heidegger) é só um sinal de que eu pertenço a um mundo ainda caracterizado pela repressão.

CULT - O senhor foi um ativista importante pelos direitos dos homossexuais quando a maioria dos intelectuais não se manifestava. Quais as conseqüências que essa coragem acarretou para sua carreira universitária e política?
G. V. - Confesso que ter manifestado a minha preferência homossexual não tem me criado muitos problemas. Talvez porque quando eu estive em minha outing (não por minha decisão, mas por causa dos meus amigos da Libertação Gay, que vieram a mim para que eu os representasse em um partido italiano, isso já há mais de trinta anos) eu já era um reconhecido jovem filósofo, autor de livros e professor universitário. Vale dizer que eu estou consciente de que os problemas acerca da orientação sexual estão profundamente ligados à estrutura de classes. Se eu fosse um operário, teria, provavelmente, me deparado com muito mais dificuldades. Fato significativo é que, poucos meses depois de minha outing, a faculdade elegeu-me presidente. Um milagre? Talvez não. Só a vontade dos meus colegas de parecerem progressistas, ainda que, na realidade, não o fossem. Eu certamente considero toda a angústia que, como cristão praticante, este problema me criou desde aquele primeiro momento. E provo um certo ressentimento por ter sido obrigado a viver minha primeira experiência erótica e de namoro como um excluído; meus amigos namoravam livremente, e eu nunca estava preparado para cortejar as pessoas pelas quais demonstrava um início de amor. Também sobre este plano, muitas coisas têm mudado. Mas devo dizer que, sobre as questões sociais e profissionais, não sou obrigado a pagar nenhum preço por ser gay. Talvez eu tenha tirado alguma vantagem em termos de visibilidade e respeito público. Hoje é moda declarar-se homossexual, tanto que, volta e meia, me sinto tentado a ir para o outro lado. Mas, como me disse um amigo, agora não haveria sentido em me declarar heterossexual, mas, antes, VETEROsexual.

[Leia a íntegra da entrevista na edição de julho/08 da Revista CULT, nas bancas.]

http://www.fichte-news.org/index.php?page=nnc/news&id=524

Fichte News

Ricordo di Reinhard Lauth

por MARCO IVALDO

Vi saranno, nel tempo che viene, l’occasione e lo spazio per ricordare, auspicabilmente nella sua Monaco, il filosofo Reinhard Lauth. A questo proposito desidero in questa circostanza soltanto sottolineare che già questa espressione – il ‘filosofo’ Reinhard Lauth – implica e comprende diversi aspetti, che non devono venire confusi e dalla cui connessione soltanto può emergere un suo profilo fedele e concreto: comprende l’universalmente ammirato promotore e curatore della Edizione completa storico-critica di Fichte, edizione che egli concepiva come un opus philosophicum vero e proprio; comprende l’originalissimo interprete di Fichte, certamente fra i maggiori del Novecento; e comprende il non meno significativo Reinhard Lauth filosofo trascendentale, che svolge energicamente e in autonomia una prospettiva della riflessione, le cui origini egli rintracciava in Anselmo, che vedeva concretarsi nei pensieri di Descartes, di Kant e di Fichte, e che sviluppava in un fecondo contrappunto con pensatori esistenziali come Rousseau, Jacobi, Dostoevskij, una prospettiva che è tutta da ripercorrere e da nuovamente pensare.

Vorrei ora, in maniera necessariamente breve e imperfetta, riprendere alla memoria qualche aspetto del lato umano di Reinhard Lauth, insomma vorrei rievocare qualche tratto della sua personalità, almeno per come io ho potuto esperirla, sì da rendere più vivo e concreto questo ricordo.

Reinhard Lauth è stato una personalità ricca e complessa, nella quale si intrecciavano e, direi, si temperavano diversi fattori. Colpivano in lui immediatamente il carattere forte e tenace, la volontà decisa ed energica, la dedizione incondizionata a uno scopo riconosciuto come degno di essere. Orbene, questi tratti, che potevano anche lasciare spazio, talora, a una qualche asprezza, come avviene nei caratteri fortemente stagliati, erano però in lui subito come ripresi e temperati da altri lati dell’animo che integravano i primi: da una generosità spontanea ed aperta, una sensibilità sollecita e delicata, una affettività calda e trattenuta, una attenzione fervida e discreta, una disponibilità all’incontro personale con affabile semplicità. Ha cercato e amato l’una-verità, per riprendere una sua espressione peculiare, ma era assolutamente convinto che questa ricerca e questo amore potessero essere soltanto una tensione della libertà, di quella che, con altra sua espressione caratteristica, designava e pensava come l’indeducibile libertà.

La sua mente nutriva e si nutriva di un pensiero essenziale, che egli aveva forgiato con assiduo studio, lunga meditazione e anche personale sofferenza. Ne scaturiva una marcata autonomia di giudizio, una decisa indipendenza intellettuale, una netta ripulsa delle mode, atteggiamenti questi che si versavano in una conversazione mai banale, sempre intelligente e penetrante, ognora stimolante e arricchente, talora sorprendente per la lucentezza delle valutazioni e l’anticonformismo delle posizioni.

La filosofia copriva soltanto una parte dei suoi interessi spirituali e intellettuali. Lo impegnava, con crescente attenzione e passione in questi ultimi anni, la ricerca religiosa ed esegetica. Conosceva, studiava, traeva ispirazione e alimento dalla grande letteratura russa, tedesca, francese, italiana – molte volte mi ha espresso la sua ammirazione per l’Ariosto, del quale rileggeva sempre e di nuovo il poema, con sommo diletto. Amava e conosceva la musica, come è tipico dei tedeschi, e spesso mi ha confessato la sua predilezione, fra gli italiani, per Palestrina, Clementi, Monteverdi, Corelli. Disponeva di eccellenti conoscenze storiche, che abbracciavano non soltanto la Germania e l’Europa occidentale – mi ha sempre sorpreso la conoscenza dettagliata che egli aveva di molti aspetti della realtà italiana, poco noti anche tra noi – ma anche l’oriente, l’oriente europeo, l’oriente bizantino fino all’oriente estremo. E’ sempre stato aperto al mondo, e lo è stato fino alla fine, anche quando il morso della malattia si faceva via via più crudele. Pensava infatti che il filosofo dovesse – come egli diceva – anche impegnare se stesso per una concreta “determinazione della storia”, e questo impegno era divenuto per lui urgente e cruciale, pressante e decisivo, in particolare in questi ultimi anni, che avvertiva tragici e complessi.

Avrete capito, da questi accenni, che egli conosceva e amava assai l’Italia, da cui proveniva da parte di madre, e di cui gli erano familiari storia, cultura, genti, caratteri. Non solo: egli si attendeva molto dalla ricerca italiana su Fichte. All’origine di questa nostra Rete di ricerca fichtiana v’è anche e precisamente il suo impulso. Vorrei perciò concludere questa memoria con un brano delle sue conclusioni al convegno di Genova del 1999, organizzato per il suo ottantesimo compleanno, e in cui si rivolge espressamente agli studiosi italiani di Fichte: “L’Italia possiede […] un patrimonio quasi senza eguali, sul quale si può lavorare spiritualmente […]. Pertanto il mio appello è che voi adoperiate questa possibilità e cogliate questo tempo propizio. Senza farvi afferrare da un senso di vertigine mettete a confronto gli uni con gli altri i grandi pensieri dell’umanità, e serbate ciò che è più importante come guadagno duraturo […]. A partire da tutto questo deve svilupparsi un lavoro nei confronti della filosofia trascendentale che sia omogeneo tanto sul piano storico-filosofico quanto – ed è la cosa più importante – sul piano del fondamenti” .

Queste parole e questo appello valgano, in definitiva, come il suo lascito vivo per noi.

Bologna, 16 novembre 2007

Marco Ivaldo

http://criticanarede.com/problemasdafilosofia.html

Crítica

4 de Julho de 2008

RUSSELL, Bertrand. Os problemas da filosofia. Tradução, introdução e notas de Desidério Murcho. Lisboa; São Paulo: Edições 70, 2008. 232 p.

Apresentação
Bertrand Russell (1872-1970) foi um dos filósofos, lógicos e activistas mais influentes do séc. XX. Como filósofo, foi o responsável, juntamente com G. E. Moore (1873-1958), pelo abandono do idealismo hegeliano nas ilhas britânicas, introduzindo a chamada “filosofia analítica”. Como lógico, foi responsável, juntamente com Alfred North Whitehead (1861-1947) e Gottlob Frege (1848-1925), por desenvolvimentos cruciais na lógica clássica, que tinha estagnado durante vinte e cinco séculos, dando assim origem indirectamente a todas as lógicas formais contemporâneas. E, como activista, teve uma forte influência na vida política, social e cultural do seu tempo, intervindo em inúmeras acções cívicas e debates de ideias — o que lhe valeu a interdição de dar aulas no City College de Nova Iorque e duas sentenças de prisão, uma das quais aos 89 anos, mas também o prémio Nobel da Literatura em 1950.

Russell publicou cerca de dois mil artigos e mais de setenta livros, numa prosa geralmente clara e lúcida. Os Problemas da Filosofia está entre os seus livros mais lidos, e desde que foi publicado, em 1912, nunca deixou de ser reeditado. Trata-se de uma lúcida introdução à filosofia, com quatro características importantes.

Em primeiro lugar, Russell dá ao leitor a experiência do que é fazer filosofia: enfrentar problemas, avançar teorias ou teses, fundamentá-las cuidadosamente com argumentos sólidos e imaginativos, esclarecer conceitos. Ao estudar esta obra atentamente, aprende-se a filosofar. Russell não se coloca num pedestal, restando ao leitor apenas a tarefa formalista de interpretar o significado de um texto de sabor arcaico. Nesta obra, o leitor é constantemente convidado a pensar por si em alguns dos problemas centrais da filosofia.

Em segundo lugar, Russell mostra que no centro da actividade filosófica está a crítica: a filosofia, como se diz por vezes de forma algo pomposa, é “o lugar crítico da razão”. Sem pedantismos, Russell avalia criticamente não apenas os problemas da filosofia, mas também as ideias defendidas por filósofos como George Berkeley (1685-1753), Immanuel Kant (1724-1804) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Mostra assim que fazer filosofia não é meramente interpretar e compreender os filósofos. Pelo contrário, é avaliar criticamente as suas ideias, e eventualmente procurar refutá-las, se tivermos boas razões para pensar que são falsas.

Em terceiro lugar, Russell não se limita a fazer um inventário algo impessoal dos problemas, teorias e argumentos centrais da filosofia. Em vez disso, apresenta e defende as suas próprias ideias sobre diversos aspectos centrais da filosofia, de tal modo que este livro pode ser lido de duas maneiras diferentes: como uma introdução activa à filosofia, mas também como uma obra de autor, relativamente sofisticada. Efectivamente, por detrás da aparente simplicidade de muitos parágrafos e capítulos desta obra estão ideias e argumentos sofisticados e substanciais que são parte integrante do pensamento filosófico de Russell, desenvolvido noutras obras e artigos de carácter avançado.

Finalmente, em quarto lugar, Russell fornece vários instrumentos conceptuais centrais para fazer filosofia. Isto significa que o leitor pode discordar de todas as teses substanciais defendidas por Russell, mas mesmo assim muito ganhar com o estudo atento deste livro.

SUMÁRIO
Introdução
Prefácios
Aparência e realidade
A existência da matéria
A natureza da matéria
Idealismo
Conhecimento por contacto e conhecimento por descrição
Sobre a indução
O nosso conhecimento de princípios gerais
Como o conhecimento a priori é possível
O mundo dos universais
O nosso conhecimento dos universais
Sobre o conhecimento intuitivo
Verdade e falsidade
Conhecimento, erro e opinião provável
Os limites do conhecimento filosófico
O valor da filosofia
Nota bibliográfica
Índice analítico

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26 DE NOVEMBRO DE 2007 | EDIÇÃO 245

As ficções religiosas existirão enquanto houver humanos

ENTREVISTA COM MICHEL ONFRAY

Para Michel Onfray, autor do Tratado de ateologia: física da metafísica (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007), que na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, classifica sua filosofia como uma filosofia das Luzes para a atualidade, a fonte do sentimento religioso é a negação da condição de mortal. Em sua opinião, “é fácil crer: tem-se resposta para tudo, a religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado”. E continua: “o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários”.

O filósofo que assegurou ter “menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar” escreveu cerca de 30 obras, nas quais formula um projeto hedonista ético, político, erótico, pedagógico, epistemológico e estético. Fundou a Université Populaire de Caen, onde leciona contra-história da filosofia. Para maiores informações, consulte o site pessoal do filósofo: http://pagespersoorange. fr/michel.onfray/.

IHU On-Line - Você identifica na origem dos três monoteísmos uma mesma “pulsão de morte genealógica”, uma matriz niilista. Para você, então, a premissa básica da religião é o “nada endeusado”?
Michel Onfray – Não. Em primeiro lugar é menos a pulsão de morte do que o medo da morte, a vontade de não morrer, o temor desesperado de dever desaparecer um dia, a impossibilidade de enfrentar o nada face a face, olhando-o diretamente em seus olhos, se posso expressar-me assim. A negação da condição de mortal, eis a fonte do sentimento religioso.

IHU On-Line - Violência, intolerância e religião andam, necessariamente, lado a lado? Por quê?
Michel Onfray - Não exatamente. Eu não sou tão caricatural a ponto de ter essa idéia, e eu nunca pensei que, se as religiões não tivessem conduzido o mundo, jamais teria havido nem guerras, nem violência, nem intolerância! Mas eu constato que as três religiões monoteístas que se dizem de paz, de tolerância e de amor, paradoxalmente geraram muitas guerras, muita intolerância e ódio, em nome de sua pretendida mensagem de paz, de tolerância e de amor.

IHU On-Line - Dawkins, Dennet e Harris são acusados de combater o fundamentalismo religioso com um fundamentalismo ateísta. Qual é o seu ponto de vista a respeito?
Michel Onfray - Eu constatei que aqueles que censuram o fundamentalismo de tal ou tal orientação são com freqüência… fundamentalistas! É uma velha lei da psicologia que quer que se censure no outro o que não se quer nem se pode censurar em si próprio. A mesma lei quer que se seja muito lúcido quanto à palha que se encontra no olho de seu vizinho, mas absolutamente incapaz de ver que há uma trave no nosso. Que se deixe de insultar (pois “fundamentalista” nesta configuração é um insulto) e que se discuta realmente, verdadeiramente, os argumentos em torno de uma mesa. E que os religiosos, tão ciosos de paz, de tolerância e de amor, comecem dando o exemplo!

IHU On-Line - Nessa mesma linha de raciocínio, como você classificaria a sua filosofia?
Michel Onfray – Como uma filosofia das Luzes para a atualidade. Eu me inscrevo na radicalidade do pensamento de, por exemplo, Meslier, La Mettrie ou D’Holbach, que são os filósofos do século XVIII. Eles fazem uso da razão sem nenhuma concessão e se propõem a acabar com todo pensamento mitológico.

IHU On-Line - Você afirma que o ateísmo reconcilia com a terra, o outro nome da vida. O que nos garante que o ateísmo promova essa união se, como dizia Ivan Karamazov, “se Deus não existe, tudo é permitido”?
Michel Onfray - É precisamente porque Deus existe que tudo é permitido! Lembrai-vos do convite de Simon de Monfort por ocasião do massacre dos albigenses: “Mataios a todos, Deus reconhecerá os seus”. Se Deus existe, ele sabe e vê tudo, e ele restaurará no Céu a ordem que não se soube instaurar na Terra, desde que se tenha querido instaurá-la em seu nome, como dizem e pensam os crentes. Opostamente, o ateísmo afirma que, já que Deus não existe, tudo não é permitido e que, por conseguinte, é preciso estabelecer um código, regras, uma moral, uma ética contratual para viver juntos.

IHU On-Line - Por que a “fé tranqüiliza” e a “razão preocupa”? O cristão é um ser infantil, alguém que se furta da verdade?
Michel Onfray - Porque é fácil crer: tem-se resposta para tudo. A religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado.

IHU On-Line - Em Tratado de ateologia, você diz não recriminar os homens “que consomem experiências metafísicas para viver”, mas deplora os “vigários dos Deuses monoteístas”. Poderia explicar quais são os elementos pelos quais você apóia essa argumentação?
Michel Onfray - Eu de fato digo que tenho menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar. Em outras palavras: eu tenho compaixão por aqueles que foram postos de joelhos, mas não por aqueles fazem pôr-se de joelhos. Pode-se crer no que se quiser, mas fazer crer me causa mal-estar. Trata-se do princípio do colonialismo estendido à alma. É o que distingue o crente do padre. O padre almeja o império sobre a alma dos outros, e eu me sinto mal com esta perspectiva.

IHU On-Line - Moisés, Paulo de Tarso, Constantino e Maomé seriam “ficções úteis”. Quais são suas referências teóricas para tal afirmativa?
Michel Onfray - Em duas palavras e no quadro de uma breve entrevista isso não será possível. Foi-me necessário um livro para começar a fazer um pouco a demonstração disso! Digamos que estas figuras são menos históricas do que mitológicas, que elas relevam menos história verificável nos fatos do que gestos e lendas com os quais se constrói cosmovisões úteis para constituir comunidades e civilizações.

IHU On-Line - No Tratado de ateologia, fica clara sua posição racionalista ocidental. Por que só a disjunção fé-razão é capaz de promover a Aufklärung? Religião e fé são sempre, necessariamente, incompatíveis?
Michel Onfray - Os cristãos pensam que não, certos muçulmanos igualmente, e um grande número de judeus também, o Papa atual, Bento XVI, crê que não. Todos os crentes dizem que eles usam a razão. De minha parte, eu direi que eles a utilizam, sem dúvida, mas demasiado tarde, após a força imperiosa da Fé. Ele crêem primeiro, absolutamente não se servem de sua razão naquele momento de seu pensamento, um momento psicológico, mas utilizam-na depois, num segundo tempo, para procurar dar sentido e coerência às suas crenças que procedem do fundo psicológico, do qual falamos bem no início de nossa entrevista. Uma razão utilizada a priori, e não a posteriori, como ocorre com os crentes.

IHU On-Line - Quais são as evidências que o levam a afirmar exatamente o contrário de Kant: a inexistência de Deus e do livre-arbítrio e a mortalidade da alma?
Michel Onfray - Não evidências, mas o bom senso: cabe àqueles que afirmam a existência de uma coisa apresentar a prova. Deus existe? Provai-o. Senão eu vos digo que os íncubos e os súcubos existem e que, se não podeis fazer-me a demonstração que isso é falso, então isso será verdadeiro. Para o livre arbítrio, isso me parece claro: quando se é, por pouco que seja, informado de ciência, história, psicologia, sociologia, psicanálise, economia, política, constata-se como os determinismos são fortes, poderosos e todo-poderosos junto ao maior número. Vocês crêem que o violador de crianças é livre e que ele escolheu, entre outras possibilidades sexuais, esta antes que outra? Ou, então, ao contrário, que ele foi determinado por mil causalidades que seria preciso explicitar tornar-se um delinqüente sexual? Enfim, a morte de todo mamífero faz a demonstração que o destino do cadáver de um cão, por exemplo, é o mesmo que o de meu próprio cadáver que, no dia determinado, será um cadáver de mamífero. O que vocês chamam de “alma” e da qual dizem que ela é eterna, imortal e imaterial, eu também concordo com sua existência: eu creio na existência da alma, sem dúvida, mas ela é material, mortal e perecível. O que a constitui é o agenciamento específico de minha materialidade: com minha morte, ela morre igualmente. Mas o exercício de uma entrevista que vocês me propõem torna difícil uma verdadeira argumentação que é dada no livro. Somos constrangidos a roçar os temas por alto.

IHU On-Line - Para você, Deus não morreu porque “uma ficção não morre”. A religião e o divino continuam, então, a ocupar lugar importante na sociedade?
Michel Onfray - Sim, seguramente. A maioria das pessoas têm e terão medo da morte. O mecanismo psicológico de negação funcionará até o fim dos tempos. E o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários.

IHU On-Line - Por que só o ateísmo possibilita sair do niilismo?
Michel Onfray - Não somente, mas filosoficamente, sim; somente a filosofia atéia evita que se substitua uma ficção por outra ficção, um mito por outro mito, uma religião (aquela dos romanos pagãos) por outra (aquela dos ocidentais cristãos). A filosofia permite uma mudança de era: ela permite passar de uma era mitológica e religiosa a uma era que será racional e filosófica. Eu me bato por isto, mas em desespero, sem muito crer nisso, sabendo que os humanos sempre preferirão as ficções que lhes dão segurança às verdades que os inquietam.

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26 DE NOVEMBRO DE 2007 | EDIÇÃO 245

“Esse livro do Dawkins é uma auto-ajuda para ateus inseguros”

ENTREVISTA COM LUIZ FELIPE PONDÉ

No ponto de vista do filósofo Luiz Felipe Pondé, Deus, um delírio, de Dawkins, não passa de um libelo político. Ele explica o motivo: “Não há idéias novas no sentido da biologia darwinista ou sua concepção cosmológica; sua intenção é convencer a neoesquerda (mistura de iluminismo anti-clerical + foucaultismo das minorias oprimidas) de que o darwinismo não tem a política ‘de direita’ do darwinismo social, mas sim é uma teoria que liberta do medo da opressão metafísica de uma autoridade louca como Deus”. A entrevista, exclusiva, foi concedida neste final de semana, por e-mail, à IHU On-Line. Pondé não acha necessária uma explicação que polarize fé e razão no sentido “esclarecimento x escuridão”. Essa postura, dispara, “é para iniciantes que acreditam na utopia racionalista moderna”, e completa: “Esse livro do Dawkins é uma auto-ajuda para ateus inseguros”.

Pondé leciona no Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), além ser professor convidado na Universidade de Varsóvia em 2007. Mestre em História da Filosofia Contemporânea pela USP e em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris VIII, França, é doutor em Filosofia Moderna, pela USP, e pós-doutor, pela Universidade de Tel Aviv, Israel. Escreveu O homem insuficiente (São Paulo: EDUSP, 2001); Crítica e profecia, filosofia da religião em Dostoiévski (São Paulo: Editora 34, 2003); e Conhecimento na desgraça. Ensaio de epistemologia pascaliana (São Paulo: EDUSP, 2004). No livro No limiar do mistério. Mística e religião (São Paulo: Paulinas, 2004), organizado por Faustino Teixeira, Pondé publicou o artigo “O método de Deus”. Na edição 133 da IHU On-Line, de 21-03-2005, cujo tema de capa foi Delicadezas do mistério. A mística hoje, Pondé concedeu com exclusividade a entrevista “A mística judaica”. À IHU On-Line concedeu, também, as entrevistas “Parricídio, niilismo e morte da tradição”, quando falou sobre Dostoiévski, na edição 195, de 11-09-2006, e “A fé é dada pela Graça”, na edição 209, de 18-12-2006.

IHU On-Line - Poderia explicar com detalhes sua idéia de que o livro de Dawkins não passa de um libelo político? O que quer dizer com isso?
Luiz Felipe Pondé - Não há idéias novas no sentido da biologia darwinista ou sua concepção cosmológica; sua intenção é convencer a neo-esquerda (mistura de iluminismo anti-clerical + foucaultismo das minorias oprimidas) de que o darwinismo não tem a política “de direita” do darwinismo social, mas sim é uma teoria que liberta do medo da opressão metafísica de uma autoridade louca como Deus. O ateu pode sair do armário, como ele diz, e será feliz. Essa idéia é melhor apresentada por gente como Nietzsche, Rosset[1], Gracian[2], e todos os trágicos, sem a tentativa de cooptar os pequenos desejos de felicidade banal da gente contemporânea. Seu iluminismo é aquele que pensa que a confessionalidade atéia nos deixa mais felizes. Por definição, não levo a sério ninguém que associa suas idéias e venda de alegria, mesmo que supostamente dolorida.

IHU On-Line - Vivemos numa época na qual se corre orisco de abandonarmos a crença em Deus para abraçarmos uma crença antropocêntrica? O que isso demonstra a respeito de nossa sociedade?
Luiz Felipe Pondé - Nada além da tendência do pecado (falando teologicamente). Do ponto de vista judaico, pecar é errar o alvo: queremos acertar o alvo de sermos o centro do mundo e independentes de Deus, mas acertamos o alvo da coisficação (em hebraico clássico, ‘morte = o ques’… coisa, objeto…). Historicamente, o antropocentrismo é figura de nosso banal desespero em termos de um cérebro que pensa mais do que agüenta e, por isso, acaba buscando formas que o acalmem. Teologicamente, é idolatria. Filosoficamente, o antropocentrismo é simples empobrecimento epistêmico, Deus é o melhor de todos os conceitos, e o contato com Ele nos torna mais inteligentes. A prova é que o antropocentrismo foi obrigado a cair no Dawkins político e as variadas formas de auto-ajuda. Pessoalmente, só respeito a filosofia trágica, além, é claro, aquela que dialoga com Deus. Quanto à nossa socidedade, talvez uma coisa boa fosse pararmos de pensar em termos político-sociais. O futuro do antropocentrismo é a mania de políticas públicas + publicidade auto-ajuda. Isso é matemático.

IHU On-Line - A paixão pela razão pode ser um elemento explicativo para esse comportamento? Por quê?
Luiz Felipe Pondé - Só se pensarmos em “razão” no sentido reduzido de causa-efeito empiricamente perceptível e suas funções instrumentais.

IHU On-Line - O niilismo em suas diversas nuances é conseqüência dessa postura fundamentalista atéia que presenciamos?
Luiz Felipe Pondé - O niilismo ou é aquilo que Nietzsche critica (melancolia covarde de ressentidos sem fé) ou arrogância que vai do cinismo à mentira revolucionária do homem que se auto-funda (a neurose de Adão), niilismo russo descrito por Turgueniev[3] e Dostoiévski. Acho que o niilismo pode ser um conceito essencial como experiência da transcendência para o nada, aquilo que a razão e a consciência encontram quando operam sua mecânica escatológica cética e percebem o não fundamento de si mesmas… a experiência do deserto: o olhar no olhos do vazio que nos habita. Nesse sentido, tanto psicológico quanto teológico, é terapêutico.

IHU On-Line - Como podemos compreender o “flerte” de Dawkins com alguns totalitarismos do presente?
Luiz Felipe Pondé - Nada além da repetição de tentarmos deduzir o mundo e suas múltiplas faces a partir de idéias que algumas pessoas têm em seus escritórios e acham que todo mundo deve se organizar a partir delas. Contra ele, Edmund Burke[4]: temos os sofistas, calculadores da perfectibilidade humana e os economistas. Qualquer um que ache que exista uma lógica da felicidade passível de se formular em duas ideais é totalitário, principalmente quando oferece a ciência como fundamento: quando a ciência sai do laboratório, ela é sempre opressora.

IHU On-Line - O ateísmo chique de Dawkins reedita o embate fé-razão. Por que é importante definir quais dos dois campos está correto na explicação da origem da vida?
Luiz Felipe Pondé - Não acho que seja necessário uma explicação que opere em uma das pontas. Não partilho da idéia de que exista tal oposição, pelo menos nos moldes de como é colocado (esclarecimento x escuridão, por exemplo, o que é pra iniciantes que acreditam na utopia racionalista moderna). Dawkins não é elegante em seu ateísmo. O darwinismo é elegante em sua tentativa de negar o argumento de Aristóteles ao design inteligente, e acho que devemos enfrentar essa elegância. Nietzsche é um “ateu elegante”, Freud também. Esse livro do Dawkins é uma auto-ajuda para ateus inseguros.

IHU On-Line - Como você, pessoalmente, entende a relação entre esses dois campos? Como complementaridade ou exclusão?
Luiz Felipe Pondé - Como disse acima, não reconheço essa oposição. Proponho a leitura de Raison et foi, de Alain de Libera[5]: essa oposição é típica das más soluções que a teologia do século XIII em diante deu para a relação com Aristóteles e sua herança medieval dos “filósofos artisans e não teólogos”. Como sempre, como diria Heine sobre os teólogos de sua época, “só se é traído pelos seus, assim como hoje vemos a teologia orar aos pés da sociologia e das modas políticas foucaultianas. Não há oposição entre fé e razão. Há uma relação de trabalho entre elas, ainda mais porque são centros de atividade do mesmo animal, o ser humano. O fato que alguns homens e mulheres têm fé e outros não é um problema da psicologia e da teologia da personalidade. Quando fé e razão estão postas na mesma pessoa, e aí não falta repertório ou não abunda o medo, o diálogo é sempre rico, mas nem sempre fácil.

IHU On-Line - Qual seria seu contra-argumento à afirmação de Dawkins de que as religiões são nocivas ao bem-estar da humanidade?

Luiz Felipe Pondé - A filosofia do bem-estar é utilitarismo. A preocupação com o bem-estar leva o homem à burrice e a ontologia da vida como empresa e eficácia. Não há evidências empíricas de que a humanidade sem a fé seria mais feliz. A humanidade é infeliz e, como eu disse antes, não levo a sério filósofos preocupados com o bem-estar na humanidade: afinal o que é isso? Vivemos há algum tempo já numa filosofia do bem-estar: TV a cabo, liberdades sexuais, suposição democrática, antibióticos. Falta ao bem-estar de Dawkins a sutileza de quem pensa o ser humano como animal ferido que é. Como diria Chesterton[6], não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba sempre acreditando em alguma besteira, como, por exemplo, no bemestar da humanidade.

NOTAS
[1] Clemente Rosset: filósofo francês nascido em 1939. Ingressou na École normale supérieure, em 1961. Ensinou filosofia em Montreal de 1965 a 1967, e depois em Nice até 1998. Atualmente, vive em Paris. (Nota da IHU On-Line)
[2] Baltasar Gracián y Morales (1601-1658): prosador espanhol, teólogo e filósofo. É conhecido como líder do concepticismo, estilo literário caracterizado pela sobriedade e a concisão. Sua obra inclui seis livros, dos quais se destacam A arte da prudência. Gracián influenciou pensadores como La Rochefoucauld, Voltaire, Jacques Lacan e, sobretudo, os filósofos Nietzsche e Schopenhauer. (Nota da IHU On-Line)
[3] Ivan Sergeyevich Turgeniev (1818-1883): romancista e dramaturgo russo, célebre por sua obra Pais e filhos, considerada uma obra-prima na ficção russa do século XIX. Nessa obra, Turgueniev aborda o questionamento dos valores tradicionais na Rússia, e a ele se deve a popularização do termo niilismo. O estudante Bazárov, autodeclarado niilista, ocupa posição importante na trama. (Nota da IHU On-Line)
[4] Edmund Burke (1729-1797): filósofo e político anglo-irlandês. Advogado, dedicou-se primeiramente a escritos filosóficos, dos quais destaca-se An Inquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and the Beautiful (“Investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do Sublime e do Belo”), de 1757. (Nota da IHU On-Line)
[5] Alain de Libera: filósofo francês nascido em 1948. Especialista em filosofia medieval, é diretor de estudos na École Pratique des Hautes Ètudes, onde ensina história das teologias cristãs no Ocidente medieval. (Nota da IHU On-Line)
[6] Gilbert Keith Chesterton (1874-1936): escritor britânico, crítico e autor de versos, ensaios, novelas e de curtas histórias. É, provavelmente, mais conhecido por sua série sobre o padre-detetive Father Brown, que apareceu em 50 histórias. Entre 1900 e 1936, Chesterton publicou cerca de cem livros. (Nota da IHU On-Line)